“Beans and Rice-ly yours, Louis Armstrong”

pag-48No começo do século XX, a Louisiana transformouse num caldeirão de estilos musicais. O acento africano soava mais alto e as batidas sincopadas do ragtime teriam forte influência sobre os ritmos que viriam. Em 1906, os metais das brass bands atraíram um garoto de cinco anos, que as seguia pelas ruas de New Orleans. Louis Armstrong.
Apesar da origem pobre, aparentemente, o ícone do jazz não chegou a passar fome. Talvez imbuído pelo espírito festivo da sua cidade, cujo lema é “Laissez les bons temps rouler”.

Assim, deixou que a vida o levasse. Distribuiu jornais e entregou carvão – atividades que o puseram em contato com Storyville, o bairro mais musical do pedaço, às margens do Mississippi. Foi preso por dar tiros no ar, o que lhe rendeu dois anos de reformatório. Ali aprendeu a tocar bugle, instrumento de sopro similar ao trompete. E o tamanho avantajado de sua boca lhe rendeu o apelido de “Satchelmouth” (“boca de sacola”), depois reduzido para “Satchmo”, que ele mesmo adotou como segundo nome.

Começa a sua carreira artística. Aos 11, Louis integra um quarteto vocal como tenor, e aos 17, toca numa orquestra flutuante. E como toca: em 1923, já em Chicago, realiza suas primeiras gravações; em 1925, forma o conjunto Hot Five, e em 1927, cria sua própria Big Band, a Louis Armstrong and his Stompers. A partir de 1929, inicia uma epopeia de viagens nacionais e internacionais. Passa a maior parte da vida adulta na estrada, de um show para o outro, de hotel em hotel. Homem simples, nosso virtuose do trompete sempre preferia jantar após as apresentações. Pedia o serviço de quarto ou levava comida chinesa consigo, que adorava.

Mas não devia ser assim tão fácil, ele que era filho da robusta culinária cajun e da mais refinada cozinha creole, duas vertentes emaranhadas em raízes francesas, espanholas e haitianas, de cozimentos longos e acentos únicos. Uma de suas iguarias preferidas era o jambalaya, espécie de paella sulista. Preparado com arroz, tomate, salsão, pimentão, tomilho, cebola, cubos de frango, andouille (um tipo de linguiça defumada francesa) e camarões (ou lagostins), tudo temperado com pimenta-do-reino, caiena e curry. O prato predileto dele, porém, era muito mais simples e barato: feijões vermelhos picantes com arroz.

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É uma receita cajun-creole clássica, bastante apreciada durante o famoso carnaval da cidade, o Mardi Grass, além de boa pedida para as noites frias. Nasceu de uma antiga tradição regional de fazer feijão vermelho toda segunda-feira, acrescentando algumas sobras do domingo. Por isso, permite inúmeras variações e adaptações. Mas a soma desses ingredientes humildes, após um cozimento caprichado, resulta num prato rico, nutritivo e cremoso, na linha da Comfort Food.

Feijões Vermelhos Picantes e Arroz
Embora o músico não tivesse intimidade com a cozinha, dizem que vez ou outra preparava uma deliciosa sopa de feijão vermelho para os amigos e convidados, mais interessados num pocket show do maior performer da história do jazz.

No som claro, puro e belo do metal, no controle das notas sustentadas, solos e improvisos. No tom rouco e jeito arrastado de cantar, que podemos apreciar em “What a Wonderful World”, e em um de seus últimos álbuns, intitulado “Red Beans and Rice-ly Yours”. “Satchmo”, que era um colecionador compulsivo de cartões postais, recortes de jornal e correspondências, também costumava assinar em suas cartas “Beans and Rice-ly yours, Louis Armstrong”.

INGREDIENTESfeijoes
• 2 xícaras de arroz branco
• 450g de feijão seco vermelho
• 1 colher de chá de pimenta em pó
• ½ kg de linguiça fresca Andouille
• 1 colher de sopa de azeite
• ½ cebola branca média picada
• 1 pimentão verde picado
• 2 talos de salsão picados
• ¼ de colher de chá de cominho
• 2 colheres de chá de alho picado

PREPARO:
Deixe os feijões secos descansando na água à noite, antes de cozinhá-los. No dia seguinte, cozinhe a linguiça em um pouco de azeite, e depois corte-a em pedaços de 1cm (se você preferir mais picante, adicione molho
de pimenta). Aqueça o feijão, a linguiça, o pimentão, o salsão e a cebola em fogo médio, até a cebola ficar transparente. Não deixe ferver. Em seguida, adicione a pimenta em pó, o cominho, o alho e a pimenta. Deixe cozinhar por cerca de 1 hora em fogo médio, certificando-se de que há água suficiente para
não secar nem queimar. Para um resultado mais cremoso, deixe cozinhando por mais 1 ou 2 horas.
Faça o arroz. Ao final, misture tudo de uma vez, ou vá colocando conchas da mistura de feijão sobre o arroz. Você pode ainda moer pimenta-do-reino por cima. Sirva quente em cumbucas fundas. Rendimento para 6 pessoas.

 

Texto: Fabio Angelini