Antes de apresentar quitutes tupiniquins ao gringo, você, conscienciosamente, resolve explicar do que se trata.

De aperitivo, caipirinha. “Caipirina?” Não, amigo, “caipirinha” mesmo. na-ponta-da-linguaDiga a ele que é semelhante a um mojito, só que sem a menta e com aguardente nacional. De entrada, “brazilian meat pies”. Pasteizinhos. The little ones. Deixe claro que não são empanadas, cuja massa é mais grossa e é assada. Prato único e principal: feijoada. A probabilidade dele reconhecer o nome é grande. Caso contrário, nem entre nos detalhes dos miúdos, mencione apenas “black bean stew” ou “black bean slowcooker”.

No máximo, acrescente “collard  greens” (couve refogada). O resto se resolve na boca. Sobrando espaço no final, sirva um “brazilian
chocolate truffle”. Brigadeiro. A culinária é um pouco (ou muito) como os idiomas: uma expressão cultural que nos coloca em contato com novas referências e distingue os povos. É esta diferença que torna as
nossas vivências e viagens mais prazerosas.

Expressões desconhecidas que ecoam nas panelas, sabores inéditos acompanhados de palavras exclusivas, tradições e hábitos que atiçam a fome de conhecimento e experimentação. Na conversa à mesa do café com o garçon, na tentativa de explicar a um americano o que é uma picanha grelhada. Não é que certos termos não admitam tradução, por serem específicos da cozinha brasileira. Eles nem sempre casam com a realidade do uso da língua inglesa nas receitas.

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A situação da “cachaça” é clássica. Ela é frequentemente traduzida como “spirit” e “liquor”, equivalentes genéricos, ou como “rum”, por apresentar o mesmo ingrediente principal, a cana-de-açúcar. Conforme diz a pesquisadora Rozane Rodrigues Rebecchi, essas adaptações que descaracterizam as referências culturais ocorrem pela ausência de materiais de auxílio à tradução, e pela falta de naturalidade. Convenhamos, há exemplos que são uma verdadeira batata-quente. Ou mandioca. Desconcertam tradutores e cozinheiros do país.

Na maioria das regiões, “mandioca” refere-se à espécie venenosa da raiz, onde se usa “aipim” e “macaxeira”. No Sudeste, porém, o vocábulo define também o tipo comestível. O que acontece lá fora? Uma salada parecida. Na língua inglesa, “cassava”, “manioc” e “yuca” designam a mandioca-doce, não venenosa. Porém, somente “cassava” e “manioc” são utilizados designar a farinha de mandioca. Manioc flour, cassava flour. Nos restaurantes hispano-americanos, mandioca frita é “yuca croquettes”.

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A qualidade, segundo relatam nossos conterrâneos, não é a que estamos acostumados, não é lá essas coisas. Muitas mais iguarias que amamos são pra inglês ver, falar e comer: “fish stew” (moqueca de peixe); “tapioca pudding” (pudim de tapioca); Brazil nut (castanha-do-pará); “cheese bread” (pão de queijo); “chicken fritters” (coxinha). Outras, revelam  diferenças de sabor sutis, mas importantes na forma de consumo.

O “jerked beef” (carne seca) é bastante popular nos Estados Unidos, apreciado como appetizer e vendido em saquinhos que nem batata frita. “Jerky” é uma corruptela da palavra quíchua “ch’arki”. Só que o nosso charque (que nasceu no Sul) tem mais tempo de preparo, carrega mais sal e dura mais que a carne-seca. Veja só como é difícil a vida de linguista. Tão difícil quanto, pode ser a vida do turista. Como aquele que veio à última Copa do Mundo e queimou os  neurônios, tentando decifrar as versões surreais que leu nos cardápios. Pão com frios virou “bread with cold”.

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Nada saudável, um pãozinho gripado. “Termite the orange sauce”, nosso cupim ao molho de laranja, pro mundo inteiro pensar que curtimos insetos no prato, como os chineses. Essa aqui é de matar: na lista de bebidas, o mate (chá) aparecia como “kill”. E o contra-filé à campanha foi transformado em “against the filet campaign. Todos contra o filé. Parece grito de guerra de vegano.

Texto: Fábio Angelini