“Geralmente, eu côo o suco do bebê”. Ops, desculpem, o hiato “oo” não é mais acentuado. O correto é “coo”. Assim como nenhum tipo de excesso alimentar ou indisposição estomacal causam enjôo. Causam enjoo. Adeus, chapéuzinho.

O novo acordo ortográfico da língua portuguesa já vigora desde 2009, quando o trema da linguiça, o acento das europeias e o hífen do dia a dia desapareceram. No entanto, só a partir de 2016 ele passou a ser reconhecido como o único formato da língua no Brasil. E em Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Países cuja gastronomia é impressa com pratos ricos, denominações exóticas e ditados populares. Como aquele que diz que em Portugal há mais receitas de
bacalhau do que dias no ano.

De Moçambique vem o badjas, feito com feijão nhemba (fradinho) comido com pão, e o ushwa, uma massa preparada à base de milho. Nomes que não negam a influência das escolas indiana e chinesa. A farinha de milho também está no cardápio angolano, é usada para fazer um prato típico semelhante à polenta, chamado funge. Outra iguaria de Angola é a muamba, que leva carne vermelha, de galinha ou peixe, mais quiabo e óleo de palma.

Não é necessário contrabandear nenhum ingrediente, temos todos aqui. O mesmo quiabo e o óleo de palma
compõem, ao lado de batata-doce, alho, tomate, espinafre e abobrinha, uma comida famosa de São Tomé e Príncipe, o calulu de peixe (seco e fresco). E se liga num dos pratos usuais da Guiné-Bissau: o le siga (ou sigá), um cozido de camarões descascados, cebola, candja (quiabo), djagatu em rodelas (semelhante ao tomate-verde, de sabor mais amargo) e citi (o óleo de palma dos guineenses).

sociedade-da-mesa

Apesar dos vocábulos estranhos a nós, é importante lembrar que o idioma falado não se altera, o acordo modificou apenas a escrita. José Saramago disse em certa ocasião que não havia uma língua portuguesa, havia línguas em português. Pois é, ela enfim deixou de ser a única com duas grafias oficiais. A pera perdeu o acento diferencial, não o sabor e a textura suculenta, e o filé ensanguentado perdeu o trema, não os apreciadores.O sinal só vale para termos estrangeiros e seus derivados, como o sülze alemão, um tipo de gelatina com carnes prensadas de cabeça de porco.

O gourmand “super exigente” à mesa, este sim foi extinto. Agora ele é superexigente. “Geléia” mudou para geleia, “microondas” virou micro-ondas, mas couveflor permanece couve-flor, pois as palavras que designam espécies botânicas e vegetais mantêm o hífen. Feijão-de-corda, batata-da-terra, fruta-do-conde, alho-poró. Claro que sobraram casos ambíguos na raspa do tacho. Afinal, estamos falando de um dos idiomas mais
fartos e complicados da Terra. Você ainda vai bater de frente com dicionários respeitados e a Academia Brasileira de Letras se degladiando, grafando distintamente a mesma exata palavra.

Sem estresse. Se assim for, apenas escolha uma das ortografias e a mantenha até o final do texto. Por exemplo, o uso do acento circunflexo é ora facultativo, ora inevitável. Dependendo da frase e do contexto, ele é adicionado ou não para a adequada compreensão da mensagem. “Qual é a forma da fôrma do bolo?” Sem sinalizar, a leitura torna-se indigesta. Coerência é a melhor receita.

Texto: Fábio Angelini

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Vinho RoséPowered by Rock Convert