Imagine a situação: o sujeito está fazendo uma viagem detitanic
navio e, sem nenhum motivo lógico, guarda o cardápio do almoço no bolso (quem faz isso?) O navio afunda mas ele se salva, apesar do mar inclemente.Cento e poucos anos depois o tal cardápio é leiloado on-line pela casa de leilões Lion Heart Autographs por… 88 mil dólares!

E, claro, vira notícia no mundo todo. Parece filme. Para ficar com ainda mais cara de ficção, o sujeito que salvou o menu chamava-se Abraham Lincoln. Abraham Lincoln Salomon. Ele foi um dos passageiros que escaparam no chamado “barco do dinheiro”, um barco salva-vidas conhecido desse jeito porque, na hora do sufoco, foi ocupado arbitrariamente somente por milionários.

Toda essa história teve seu primeiro capítulo escrito pelo acaso no dia 10 de abril de 1912, quando o RMS Titanic partiu festivamente de Southampton, na Inglaterra, em direção a Nova Iorque sem saber que seria protagonista de uma grande tragédia. Não sabia mesmo? A julgar pelo cardápio, sabia sim. Foi tudo premeditado. Um cardápio tão esplêndido só pode ter sido montado com fins divinos, ou seja, para ser a última e uma das melhores lembranças que os passageiros teriam da vida.

O fato é que até as 23h40 do dia 14 de abril, momento exato da colisão com o iceberg, quem estava no navio mais luxuoso da época esbaldouse a valer. Se fosse hoje, selfies e mais selfies no convés e nos salões nobres dominariam as timelines mais abonadas.Com o logo da companhia White Star estampado no alto, o menu de almoço do Salão da Primeira Classe anunciava em letras maiúsculas os pratos principais e opções do buffet: ovos à L’Argenteuil, anchovas norueguesas, maionese de salmão, vegetais, rosbife, batatas assadas e filé do feio, estrábico e delicioso peixe que conhecemos por rodovalho.

sociedade-da-mesa

Os felizardos (ao menos naquele momento eles eram felizardos) se banquetearam também com as seguintes iguarias: sopa cremosa de cevada temperada com uísque (na Inglaterra é comum), sopa Fermier, sopa escocesa “Cookie-a-leekie”, costeletas de carneiro grelhadas, torta de vitela e presunto (figurinha fácil nos tradicionais piqueniques ingleses) e Chicken Lyonnaise, um saboroso frango cozido em molho de cebola, alho, vinho branco e tomilho. O cardápio era incrementado por geladíssimas cervejas alemãs, pastéis de maçã com merengue e uma seleção de oito queijos. Nos salões do Titanic, os garçons serviam como manda o figurino, em fina louça e com pesados talheres de prata.

A decoração do restaurante não deixava a peteca cair: as paredes eram formadas por painéis de nogueira ornados com molduras e detalhes dourados esculpidos, que imitavam laços de fita. No teto, lustres de cristal. O mais autêntico estilo francês Luís XV em uma viagem que prometia ser irretocável. Infelizmente o Titanic ganhou fama por vias não muito felizes. Porém grandiosa. Como sabemos, inspirou filme, documentários, livros e mil histórias contadas pelos mais antigos da família. E ainda nos deixou de herança um cardápio cheio de personalidade.

Texto: Ricardo Mattos

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