Em 1954, Ramón Marrero (barman do Hotel Caribe, em leite-de-coco
Porto Rico),teve como missão criar um coquetel que deixasse de queixo caído os hóspedes da high society. Testou, misturou, experimentou por meses. Até que um dia adicionou leite de coco ao rum e suco de abacaxi. Eureca! Piña colada! Muchas gracias, Señor Marrero. Por muitas vezes mais, a inspiração se repetiria ao longo dos anos e das receitas: alguém sentia que faltava alguma coisa, e essa coisa, não raro, era o leite de coco.

A bebida que já transformou inúmeros pratos simples, doces ou salgados, em iguarias superiores. Já experimentou o “feijão de leite”? Esquisito não, surpreendente. Agradeçamos ao coqueiro. Não porque ele vive até 150 anos, e sim porque dele se aproveita tudo. Raiz, estipe, inflorescência, folhas, palmito e fruto. Tem múltiplos usos na culinária e alimentação, como sabemos, e finalidades industriais na habitação, cosmética, artesanato, movelaria, química. Existem fósseis de coco de dezenas de milhões de anos, pois ele agarrou-se à terra há bem mais tempo do que nós. Acredita-se que América Central, Sudeste Asiático e Ilhas Polinésias foram os primeiros lares da “Cocos nucifera”.

No Brasil, só aportou em 1553, vindo de Cabo Verde, aclimatou-se, virou o “coco da baía” e espalhou-se pela costa a partir do recôncavo. Quanto ao leite de coco, ninguém sabe quem teve a luminosa ideia de triturar e amassar a polpa branca do coco maduro, misturando com um pouco de água. Mas há relatos da sua presença num quitute moçambicano, o arroz-de-coco, desde o século XVI. E as mamães havaianas? Dão leite de coco para os seus bebês há incontáveis marés. Talvez já intuíssem que é a melhor alternativa ao leite  animal e que contém o mesmo ácido láurico do leite materno. Além de reforçar a imunidade, supre os
intolerantes à lactose e os veganos.

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Por aqui, de acordo com o historiador Câmara Cascudo, foram os escravos que introduziram o leite de coco, elemento inestimável da comida baiana. Entra em bobós, moquecas, mungunzás, vatapás e ensopados. Também na canjica e na baba-de-moça. Umedece o cuscuz de milho nordestino, enriquece o beijinho, o bolo de fubá e o catado de siri. Doces e salgados. Poucos ingredientes combinam tão bem com os peixes. É um condimento e patrimônio brasileiro simples e versátil na sua essência. Suave, gostoso e barato, valoriza receitas populares e diferencia menus sofisticados. Não faltam adjetivos nem apreciadores, que se espalham pela Ásia, Indonésia, Caribe e Pacífico.

Nutricionalmente, o leite de coco é um alimento proteico e completo, ótimo substituto da carne, do ovo, leite e derivados, com farta quantidade de minerais (magnésio, fósforo, ferro, zinco, manganês, potássio) e vitaminas (A, complexo B, C e E). Tem alto teor de carboidratos, e sua gordura é uma das mais benéficas. Possui, além de ação antimicrobiana e antifúngica, propriedades termogênicas que aceleram o metabolismo e ajudam a perder peso. Combate a anemia, a hipertensão e as inflamações articulares; ajuda a fortalecer os ossos, a capacidade cognitiva e as defesas do organismo; favorece a pele e os cabelos.

Tudo isso parece justificar a aura miraculosa que envolve o líquido branco leitoso. E nos ajuda a entender porque “coqueiro”, em sânscrito, significa “árvore que fornece todas as necessidades da vida”. Então, que tal curtir melhor os dias frios, preparando um espaguete picante ou cacau em pó com leite de coco? Prefere uma entrada, um petisco, uma sobremesa, um drink? Sem problema, ele encorpa, ele dá o toque. Certifique-se apenas de que seu aroma não está exagerado, para não competir com os sabores dominantes do prato.
Este é o leite de coco, um monstro na cozinha e na saúde. Aliás, o nome “coco” nasceu de um monstro imaginário lusitano, de carranca semelhante ao fruto: os três poros de germinação formam os olhos e a boca do temível ogro de além-mar.

Texto: Fábio Angelini

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