Diz a lenda que Maria Antonieta pediu baba ao rum como maria-antonieta
sobremesa final. E diz a história que após sua execução, foi sepultada no Cemitério de Madeleine, em 1793. Ela, que também adorava madeleines. Mas a verdadeira paixão da rainha não era Luís XVI, nem o conde Hans Axel von Fersen, suposto amante, e nem a pátria. Eram os doces.

As más línguas do século XVIII espalharam entre o povo morto de fome que o comentário “se eles não têm pão, que
comam brioches”, saiu da boca de Maria Antonieta. Improvável, segundo os estudiosos. A burguesia francesa e iluminista é que ajudou a transformar a última Rainha da França em símbolo da cultura egoísta, leviana e perdulária. Rousseau chegou a escrever que ouviu a cruel frase de uma grande princesa, só não disse quem. A jovem austríaca de 14 anos casou-se em 1770 com Luís XVI de Bourbon, futuro rei da França.

A união entre os Habsburgos e os Bourbons foi planejada para arrefecer as pretensões políticas de Prússia e
Inglaterra. Sabe-se que Maria Antonieta, nascida na austera corte de Viena, ficou mesmo piradinha com as festas, corridas de cavalo, os bailes de máscara, teatros e a fartura de Versailles. E todos os doces que era capaz de devorar, pois não engordava. Inclusive os polêmicos e fofinhos brioches, seus prediletos na hora do chá. Não é de se admirar a fúria da plebe, obrigada a se contentar só com pães escuros e grosseiros, quando muito. Por viver enclausurada no palácio quase em período integral, vossa majestade não tinha a real noção da degradação econômica do país.

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E precisava lidar com a ausência do marido na cama, as acusações de esterilidade e a pressão de gerar um herdeiro. Só perdeu a virgindade e engravidou após sete anos do enlace. Luís XVI era devagar quase parando. Entediada e solitária, Maria Antonieta recorria frequentemente ao garfo. Aprimorou uma receita criada pela mãe, o “Bouchées à La Reine Aux Ris de Veau” (folhado de cogumelos, frango, vitela e presunto). Criou o cargo de “Chocolateiro da Rainha”. Para homenagear o Rei, infernizou os cozinheiros até que apresentassem a “Batata Dauphinoise” (ou “Duchesse”), um gratinado alusivo às suas perucas altas e onduladas. E, bem antes de Kate Moss servir Dom Pérignon no quadragésimo aniversário, dentro de taças moldadas em seu seio, a soberana já o havia feito, para que a corte brindasse em sua honra.

A cozinha não era a única válvula de escape de Maria Antonieta, que foi também pioneira no uso de trajes de montaria, gostava de atuar em óperas e revolucionou a moda de seu tempo. Com vestidos cravejados de brilhantes e modelos pastoris, uma coleção de sapatos infindável e penteados que alcançavam os céus. Os excessos não eram falta de senso ou civilidade, ela utilizava a moda como instrumento político, para sustentar sua autoridade e desfazer a aura sacra imperial. Até então, apenas as concubinas dos reis envergavam peças
luxuosas pra desfilar seu poder. Assim ela se impôs, refutando a imagem dócil e recatada de monarca.

Efeito colateral: acirrou os ânimos revolucionários da sociedade, habituada à rigidez cerimonial. Em parte, a imagem libertina e fútil que monopoliza o imaginário popular atenuou-se com a narrativa biográfica da inglesa Antonia Fraser, e o filme que inspirou (“Marie Antoinette”, de 2006), dirigido por Sofia Coppola. Com uma linguagem jovem, a trama explora a face intimista e humana de uma mulher à frente de sua época. Mistura tudo na medida certa: política, divertimentos, extravagâncias, paixões, frustrações, amigos, inimigos, intrigas, rebeliões. E muita moda, muitas iguarias e um arsenal ilimitado de bolos, tortas, camafeus, morangos com chantilly. E belos, deliciosos e coloridos macarons, esse doce de farinha de amêndoas, a guloseima preferida de Maria Antonieta.

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Por causa deles, os cenários e figurinos da película carregam os tons rosa e azul claro. A própria Ladurée, badalada pâtisserie parisiense e idealizadora do macaron moderno, entupiu os sets com a sua confeitaria alucinante. Pierre Desfontaines, o fundador, foi quem introduziu o recheio cremoso aos macarrons. De geleia de frutas, creme de manteiga, ganache. No término das filmagens, será que Kirsten Dunst ainda entrava na roupa?

Macaronsmacarons

Massa Básica
Ingredientes
• 280g de açúcar de confeiteiro
• 160g de farinha de amêndoas
• 130g de claras (aproximadamente claras de 4 ovos)
• 30g de açúcar comum

Preparo
Peneire juntos o açúcar de confeiteiro e a farinha de amêndoas. Bata as claras com o açúcar até obter um suspiro bem firme. Misture delicadamente o corante desejado: rosa para framboesa, verde para pistache e café líquido para o sabor café. Aos poucos, e com delicadeza, incorpore a mistura peneirada. Coloque uma folha de silpat sobre uma assadeira e a coloque dentro de outra assadeira.

Com um saco de confeitar de bico liso médio, pingue a massa com distância de 3 cm entre os macarons. Leve imediatamente ao forno preaquecido moderado (220ºC) durante 10 minutos. Retire a assadeira de baixo e asse por mais 5 minutos. Retire e deixe esfriar. Com uma espátula, retire os macarons da assadeira e recheie com o creme desejado. Os macarons já recheados poderão ser conservados no congelador pelo prazo de 1 semana.

Recheio de Chocolate
Ingredientes
• 260g de açúcar de confeiteiro
• 160g de farinha de amêndoas
• 20g de cacau em pó
• 130g de claras (aproximadamente claras de 4 ovos)
• 30g de açúcar

Preparo
Peneire juntos o açúcar de confeiteiro, a farinha de amêndoas e o cacau.
Repita o processo anterior (massa básica).

Recheio de Ganache
Ingredientes
• 200g de chocolate meio-amargo, bem picado
• 100g de creme de leite fresco

Preparo
Ferva o creme de leite, derrame sobre o chocolate picado e mexa até obter uma
mistura lisa, brilhante e  homogênea.

Texto: Fábio Angelini

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