No ambiente festivo do bar inundado pela luz negra, o coquetel cintila um hipnótico tom azul. A bebida contém água tônica. Talvez com gin. Um bitter lemon. O líquido brilha, misterioso e tecnológico, por causa de um componente presente na tônica: a quinina (ou quinino). É também o responsável pelo amarguinho peculiar que conhecemos, mas não se limita a embelezar coquetéis criativos. Basta dizer que, durante 4 séculos, foi o principal remédio antimalária da humanidade. Isso não é pouco.


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Fora do campo etílico ou refrigerante, sua história documental começou por volta de 1630, no Peru. É provável que os sul-americanos nativos já tratassem da febre terçã há muito tempo, com a poção chamada de “kina-kina”, preparada com a casca da árvore “kina”. O próprio termo vem do quéchua “kina” (casca, cortiça), língua falada na região central dos Andes antes do Império Inca.

E, de lá pra cá, presenciamos uma intrincada rede de viagens, descobertas e eventos, atrelados a momentos ímpares e avanços em diversos campos do conhecimento.

1638 – A condessa de Chinchón, esposa do vice-rei espanhol no Peru, contrai malária. A droga indígena fez a febre ceder, e o uso continuado a curou.

1633 – O padre jesuíta Calancha descreve as propriedades curativas da “árvore da febre”, cujo pó branco diluído realizava milagres em Lima.

1645 – Outro padre, Bartholomeu Tafur, leva algumas cascas para Roma. A novidade espalha-se entre os clérigos e a Europa começa a importação.

1679 – Mesmo com altas febres, o Rei Charles II da Inglaterra recusa-se a tomar o medicamento “católico”. Mas é ludibriado por Robert Talbor, boticário de Londres, que diz ser outra formulação. O rei fica bom e nomeia Talbor cavaleiro e médico real. Ele ainda salvaria o filho de Luís XIV, em sigilo. Também foi regiamente recompensado pelo monarca francês.

1735 – A classificação botânica da kina permanecia desconhecida, em função do acesso complicado às florestas tropicais andinas. Então, o cientista francês Joseph de Jussieu viaja à América do Sul e constata que a árvore pertence à família Rubiaceae, a mesma do café.

1742 – O taxonomista sueco Carl Linnaeus, pai da nomenclatura binomial, batiza a kina como Cinchona officinallis. Um anagrama de Chinchón, em homenagem à condessa espanhola curada cem anos antes. Vulgarmente, ela é a cinchona vermelha, casca peruana ou casca dos jesuítas.

1779 – O médico alemão Samuel Hahnemann fundamenta a homeopatia, graças, em grande parte, às suas observações e estudos sobre a farmacologia da quinina.

1820 – Os jovens químicos Pelletier e Caventou elucidam estruturalmente o eficaz pó contra a malária, e chamam o alcalóide de quinina. Começa uma corrida comercial. Sementes e mudas são plantadas em colônias da Ásia tropical: Índia, Sri Lanka, Indonésia. A sua extração, feita somente a partir da casca, não era tão rentável quanto obtê-la da árvore inteira.

1858 – A água tônica é patenteada em Londres.

1880 – A Colômbia, sozinha, exporta 3 mil toneladas de quinina para a Europa.

1930 – As plantações holandesas de Java produzem 97% da quinina mundial (10 mil toneladas).
Segunda Guerra Mundial – O exército alemão apodera-se das reservas de quinina europeias. Os Aliados ficam a ver navios, quando invadem a Indonésia.

1944 – Robert Woodward e William Doering sintetizam a quinina. Antimaláricos sintéticos, como a cloroquina, passam a ser mais utilizados no combate à doença.

Anos 1980 – O plasmódio (parasita causador da malária, transmitido pela picada da fêmea do mosquito Anopheles) torna-se resistente à cloroquina. Volta-se a usar o quinino, isolado ou associado a outras substâncias, como a primaquina.

Século XXI – Estudos apontam que a quinina reduz significativamente as câimbras noturnas nas pernas. Mas a FDA americana veta o uso terapêutico para esse fim.

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Fato é que a simples descoberta da quinina abriu as portas para sucessivos achados. Procurando a quinina no café, cientistas decobriram a cafeína; a nicotina, no fumo; a papaverina, no ópio; a efedrina, na Ma-Huang; a teofilina, no chá.
Transformada em personagem, a quinina certamente daria um filme dos mais movimentados e dramáticos. Ela teve papel de destaque no ciclo de colonização, esteve envolvida em disputas dogmáticas, desencadeou o contrabando de sementes e a exploração predatória, foi objeto de estratégia bélica, e a sua síntese em laborátorio fez a indústria química dar um salto qualitativo enorme.

Quanto à origem da tônica, data do fim do século XVIII, e ela chegou como um remédio que, pelas suas propriedades revigorantes, acabou recebendo esse seu nome “tonificante”. Diz-se que um tal de Schweppes, suíço morador da Inglaterra, foi quem criou a primeira bebida com características carbonatadas, em 1771. A ideia era vender a água tônica com quinino nos mercados africano e asiático, como profilático da malária. Atualmente, ainda cerca de 3 bilhões de pessoas vivem em áreas suscetíveis à transmissão da doença, cuja primeira vacina foi aprovada em julho de 2015.

Voltando para os nossos dias, vale a distinção entre o remédio e a água tônica: no primeiro, o quinino apresenta-se como sulfato ou cloridrato, e na segunda, como hidrocloreto de quinina, mais água gaseificada e açúcar. Além disso, a quantidade da substância na tônica é muito inferior à dose do fármaco: apenas 5mg por litro, contra 1,5g diários no tratamento.

Por sua vez, a gin tônica nasceu na Índia, ao fim do século XIX. Da mistura entre dois hábitos típicos dos oficiais britânicos colonizadores: tomar tônica com frequência (para combater a malária) e tomar gin (para celebrar as vitórias). Caiu bem, um melhorou o gosto do outro, virou um drink atemporal.

Há quem enxergue na gin tônica algo despretencioso e adolescente, uma simples fusão de gelo, refrigerante e destilado. Não é bem assim. Há múltiplas versões aromatizadas com rosas, pepino, alcaçuz, outras tantas de gin premium e muitas águas tônicas para se escolher. Como a Tônica 1724, que não veio ao mundo nesta data. A água provém de um manancial da Patagônia, e a quinina, da trilha Inca do Peru. Onde ainda cresce selvagem, 1724 metros acima do nível do mar.

Texto: Fábio Angelini

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