Sommelière, entusiasta, estudiosa, proprietária da escola e livraria Ciclo das Vinhas, comentarista de vinhos em revista e rádio, mãe… Ufa! Como Alexandra Corvo dá conta de tanta coisa e ainda tem fôlego e paciência para nos atender ao telefone para uma entrevista no final do dia? Segundo ela mesma diz, “vou encaixando”. E vai mesmo. Apesar das várias atividades, a conversa com a sommelière foi pontuada pelo bom-humor e por uma franqueza única em todas as perguntas, onde falou da própria carreira, do reconhecimento do sommelier no Brasil e fora dele, de vinhos brasileiros, donos de restaurantes que colocam o nariz em tudo e muito mais. Abra uma de nossas seleções e deguste esta deliciosa entrevista.

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Onde começa a tua história com o vinho? Imagino que seja saborosa…
Começa mais ou menos com o meu primeiro emprego, que foi num barzinho, que eu acho que ainda existe… O Willi Willie, um bar de arco e flecha. Eu era garçonete lá nos finais de semana. Eles tinham um bar, com uns coquetéis malucos na época. E eu achava o máximo a mistura de sabores. Então comecei a me interessar um pouco pelo serviço de bebidas. E também tem, por exemplo, as influências… meus pais tomavam vinho, minha avó me dava vinho quando eu era pequena (risos).

Aí, quando eu terminei o colegial, na época eu dançava flamenco, e fui fazer um curso de flamenco em Madri. E como eu ainda não tinha prestado vestibular – na verdade eu ainda nem sabia o que eu queria fazer – eu acabei entrando numa escola de hotelaria por lá. E aí já tem toda a parte de serviços, de salão e tudo mais. Na verdade, era de hosteleria, que tem a ver com cozinha, sala, restaurante, a parte das camareiras, e a parte de turismo. Eu me especializei no serviço de sala. Quando eu estava terminando esse período na Espanha, acabei fazendo meu estágio na Suíça. Lá, eu fui estudar num centro de pesquisas agronômicas que tinha uma escola de sommelier dentro. E foi lá que eu me especializei em vinhos, viticultura e enologia. Foi mais ou menos assim. Do Willi Willie pro flamenco, do flamenco pra Espanha, Suíça e… vinho.

Quando você voltou para o Brasil, por onde você passou, já como sommelière?
Quando cheguei aqui no Brasil, eu fui direto pro Figueira, pra inaugurar aquela adega deles, grandona. Saí de lá e fui pro D.O.M.. Depois, se não me engano, fui para o Le Vin… E de lá fui pra um outro restaurante que era do mesmo dono. Na verdade eu fui pro Le Vin pra esperar abrir esse outro, onde eu ia coordenar a carta de vinhos. Era um restaurante na Rua Amauri, que já fechou.

E foi nessa época que eu comecei a mudar um pouquinho o foco do meu trabalho, que era em salão, como sommelière. Fui convidada pra escrever uma coluna sobre vinhos na Veja São Paulo on-line. Aí começou a mudar o meu público também. Antes era só um público de restaurante, mas aí ficou mais amplo, mais leigo e tudo mais… E assim foi… O meu foco de trabalho mudando até eu abrir a minha escola, em 2007.

Falando na escola, pode nos contar um pouco sobre ela? Que cursos você oferece lá?
O ponto central da escola, quando estávamos pra inaugurar, é que eu queria que fossem salas pequenas, pra gente fazer um trabalho que se pode chamar de “quase artesanal”. São 12 pessoas ou um pouco mais na sala de aula, mas nunca passa de 18 pessoas. A gente tenta um ensino muito focado, onde as pessoas possam ter liberdade pra perguntar, conhecer. E a gente tem todo nível de informação…
Desde informação profissional, pra quem quer trabalhar na área – pode ser loja, restaurante, importadora, até um café… Quer dizer, o cara tem que ter conhecimento pra entender o vinho, pra degustar, pra fazer uma adega, uma carta, um serviço, até pra saber limpar uma taça… ou coordenar quem faz isso.

Depois, a gente tem informações pra leigos, que adoram vinho, mas não entendem certas coisas, como entender um rótulo, o que define um vinho, qual é o estilo dele… Ou seja, a gente tem curso pra profissionais e pra pessoas que curtem vinho, mas não são supernerds enófilas. A gente até tem alunos assim, mas a maioria são aqueles que querem entender um pouquinho mais sobre o vinho, sobre o próprio paladar.

Na sua opinião, a profissão de sommelier é um dom ou qualquer um que goste de vinhos pode ser um?
Eu acho que não tem dom, não. É trabalho mesmo, como qualquer profissão. Esse negócio de achar que a gente fica bebendo vinho e dando risada o dia inteiro… não é assim. É um saco às vezes, porque tem dias que você não quer degustar vinho, você não quer beber, você não está com vontade de nada e tem que degustar. Mas mesmo assim, degustar vinho é uma técnica que qualquer um desenvolve.

O difícil não é degustar, é comunicar para o cliente. Lidar com pessoas, explicar para o cliente por que aquele vinho é bom pra ele naquele momento. Aí já requer… não sei se é um dom, mas uma simpatia, uma vontade, você não pode ser tímido. Inclusive um dos melhores sommeliers de São Paulo é uma pessoa que conhece muito, mas é muito tímido. Eu daria um ponto negativo pra ele por causa da timidez, ele não consegue falar, se expressar bem, fica vermelho… Então, amigo, se você está conversando com o público, não pode tremer. Ele é um doce, um amado, mas como sommelier, eu acho que fica faltando um pedaço. Se eu fosse avaliar o trabalho dele, faltaria um pedaço, entendeu? Mas continuo achando que não precisa ter dom, não.

Quanto de influência têm o dono do restaurante e o sommelier ao montar uma adega? Tem gente que te contrata, mas no fundo quer mesmo é fazer o seu trabalho?
Sim, tem. É bastante difícil trabalhar. Aqui em São Paulo é superlimitante. Isso vai soar superarrogante, mas também não me preocupa tanto… Eu estudei na Europa, onde o profissional é muito respeitado (pelo menos eu fui muito respeitada lá) e aí você chega aqui no Brasil… Eu quando voltei tinha 26 anos… Era muito jovem, entendeu? Eu até entendo hoje, não sei se eu confiaria num sommelier de 26 anos (risos). Brincadeira, a gente tem um professor aqui que tem 24 e é sensacional.

Mas eu sentia muito isso, sabe? Os donos de restaurante se metiam demais no meu trabalho. E não era só no meu… Se metiam no trabalho do chef, no trabalho do mâitre… Eles não delegavam de fato, não confiavam totalmente, então isso acabava amarrando um pouco. E tem outra coisa: acordo comercial, né? “Ahh, o cara de tal importadora me deu uma adega, então eu tenho que comprar os vinhos dele”. Aí eu dizia: “mas eles não têm vinhos que têm a ver…”. Mas o cara virava pra mim e dizia: “Se vira! Você vai ter que pôr vinhos dele…”. Então, sim, sempre tem um pitaco, com certeza.

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Como começou o trabalho com o jornalismo especializado?
A rádio veio logo na sequência da Veja São Paulo. Eu estava trabalhando num restaurante, aí atendi o diretor da revista e comecei a conversar com ele sobre escrever, falei que estava pensando em prestar Jornalismo, e ele disse que não precisava prestar Jornalismo pra escrever. Isso foi em 2004… Ele me pediu pra mandar um texto pra ele. Mandei, ele me convidou pra escrever lá, foi muito legal. Aí, na sequência, em 2005, depois de lerem meus textos na Veja, me chamaram pra BandNews FM. E eu já estou há 11 anos lá.

Ouvindo você no rádio, a experiência me parece bastante prazerosa, não?
Eu amo rádio. Amo. Porque hoje eu escrevo pra Folha, e pra mim, cada texto que tem que fazer é um parto (risos). É um negócio difícil, eu acho complicado, sou muito crítica, assim, sempre acho que o texto podia ficar melhor. Mas falar na rádio… falar é comigo, né? Eu adoro falar na rádio, adoro entrar ao vivo. Eu gostaria de fazer até mais rádio.

Muito bacana a iniciativa do APP Vini Fera. De onde veio a ideia? Como ele facilita a vida da gente?
O aplicativo é muito legal! Ele é quase paulistano, entendeu? Porque são os estabelecimentos que eu tenho acesso, e a principal característica dele, o principal feature, é esse: você está no local, ali no Pão de Açúcar, por exemplo, na frente da prateleira, vendo os vinhos. Você abre o aplicativo e ele te pergunta onde você está. Você clica no nome do estabelecimento e todos os vinhos dele que eu avaliei estão lá, com os tipos de vinho, as harmonizações, as informações sobre o vinho etc.

Você também pode procurar pelo tipo de vinho: “ah, eu quero um Malbec. Aí aparecem todos os Malbec que eu avaliei. Aí você vê o que tem mais próximo da sua casa, e vai buscar… A ideia é essa. Na verdade, tudo surgiu com a minha irmã, que não entende lhufas e mal bebe vinho, quando me falou assim: “Meu, fico muito perdida, você precisaria ter um 0800 para as pessoas te ligarem…”. Aí eu falei: “Ah, claro, né? Assim eu não vou fazer mais nada, vou ficar no telefone o tempo todo”. (Risos). Então ela sugeriu que eu fizesse um aplicativo, e eu achei a ideia boa. É difícil de manter atualizado, mas é uma ferramenta muito legal. ”

Quanto do mundo você já viajou a trabalho?
Na França eu já passei por quase todas as regiões vinícolas: Champagne, Borgonha, Bordeaux. No sul da França Provence, um pedaço do Rhöne… Na Itália, a região da Ligúria, Piemonte, Toscana, Veneto, onde fica a Vinitaly. Depois Portugal inteiro, de cabo a rabo, e Espanha, médio… apesar de eu ter morado lá, na época eu era estudante, era extremamente “dura”, então não dava pra fazer muita coisa. Mas eu conheço bem as regiões vinícolas…

Conheço bem a Rioja, a Ribera del Duero, as regiões do sul de Madri, conheço Rueda… A parte central, principalmente, eu conheço bem. Aqui da América conheço Chile e Argentina, obviamente, Uruguai; Estados Unidos bastante, também, a Costa Oeste, Pacífico… acho que é isso. Ah, não, também tem a Grécia… Israel, onde a uva é um fruto sagrado, muito importante pra eles.

Como você classifica o vinho brasileiro? Dá pra generalizar ou cada caso é um caso?
Cada caso é um caso. Tem um monte de produtor pequenininho fazendo um bom trabalho. Mas a grande questão do vinho no Brasil ainda é localizar regiões que tenham mesmo potencial climático pra produzir. Nosso clima é tropical, então a gente tem que localizar regiões que têm menos influência tropical, que têm menos umidade no verão, que sejam menos problemáticas, por exemplo, que as regiões tradicionais, como a própria Serra Gaúcha, que é uma região muito úmida…

Então acho que ainda falta muito tempo pra gente chegar numa condição estabelecida pra generalizar bom ou ruim, entendeu? O problema, de fato, é que a variação e a inconsistência na qualidade são muito grandes. Não é que não tenha vinho bom, mas tem num ano e não tem no outro, a diferença é muito grande, então não dá realmente pra generalizar nem pra bom nem pra ruim.

Livraria, escola, blog, revista, rádio e beber vinho… Como a Alexandra lida com tudo isso? Quantas horas tem o seu dia?
(Muitas risadas) Pra mim, exclusivamente?

Não, total, pra fazer tudo isso…
Ahhh, eu vou encaixando. Mas tem que correr, ser rápida.

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PINGUE-PONGUE

Vinho combina com…
Tudo.

Um país?
Ai, que difícil! (Pensa alguns segundos. Às vezes o pingue é rápido e o pongue nem tanto). Bom, a Nova Zelândia!

Prato preferido?
Nossa, que difícil! Eu fico entre batata frita e sushi, entendeu? E tudo que tem entre uma coisa e outra. Eu adoro comer (risos). Tá, vai, então põe aí… ostra!

Um hobby (vinho não vale – risos)
Boxe.

Um desejo?
Mais uma díficil… Deixa pensar… Ficar sozinha! (gargalhadas. O entrevistador pergunta se ele está incomodando…). É que vejo muita gente o dia todo. No fim do dia eu gosto de ficar sozinha.

Degustar um vinho é…
Entender a origem dele.

O melhor vinho que você já tomou?
Eu não sei, mas era um champanhe quando eu estava na sala de parto do meu filho. Meu marido entrou esquivadinho de todo mundo e passou a taça pra mim. Estava bem bom!

Texto: Paulo samá

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