A arte de comer bem já foi teorizada em milhões de publicações e praticada em outro tanto de pratos. Muitos deles só conquistaram a excelência, o gosto popular e o gourmet, após testes, testes e mais testes que resultaram na alquimia desejada. E praticamente, sem nenhuma tecnologia embutida. Eram tempos em que certos utensílios ainda nem haviam sido imaginados, dava bem mais trabalho.

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Nós mesmos, quantas vezes tentamos decodificar o significado e o papel de um item completamente obscuro do caderninho de receitas? Almofariz, noiseteira, ramequin?
Retrocendo algumas migalhas no tempo, fica a curiosidade: como é que se fazia para obter claras em neve na consistência ideal, sem um fouet? Embora o clássico batedor de arames já existisse na China para bater chá, caiu como uma luva na confeitaria fundamental da França. O nome – que significa chicote, açoite – está relacionado ao conceito de impulso forte e veloz, necessário para misturar determinados líquidos, cremes, molhos e massas. Abrasileirado: fuê.

Outro apressadinho da cozinha é o passe-vite (“passar rápido”). Tem gente que prefere “moinho de legumes”. Ele serve para preparar purês e extrair o suco dos tomates. É de uso manual como o fouet, mas lembra mais uma batedeira. Dentro do mesmo tema, encontramos o chinois. Um tipo de peneira (geralmente de inox) que separa e armazena o caldo de frutas e legumes, depois de cozidos. Chinois é a palavra francesa para chinês. Por causa do seu formato em cone, semelhante ao tradicional chapéu triangular oriental.

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Com a sofisticação da culinária e a elevação do grau de exigência dos consumidores, e da sociedade como um todo – glutão, gourmand ou geração saúde –, novos aparatos com denominações estranhas chegaram para engrossar o universo das utilidades. Zester (que também vem da terra de Olivier Anquier e do ratatouille) nasceu de “zestes”, ou raspas. Por lá, o pessoal chama este ralador fino de cascas de cítricos, de “râpe à zeste” ou “zeuster”. Deixa as raspinhas de limão e laranja perfeitas. Talvez você o conheça ainda como microplane.

Nem tudo tem origem no francês, claro. Eis um objeto mais habitual, a escumadeira. Você já ouviu uma titia ou quituteira dizendo “espumadeira” e caiu na risada? Não está errado, não. “Escuma” é uma versão mais antiga do termo “espuma”, provém do cruzamento entre o germânico “skum” e o latim medieval “schuma”. No caso, espuma é sinônimo de líquido quente, óleo, o excesso de fritura que a colher achatada e furadinha separa dos alimentos e escorre.

E o brasileiro, como sempre, contribui com a sua criatividade e desenvoltura, inclusive nos domínios da gastronomia. Foi assim com a espátula de silicone e ponta flexível, que raspa as sobras dos recipientes, aproveitando todo o seu conteúdo e evitando o desperdício. Recebeu o apelido de pão-duro. Um pequeno instrumento do mundo sustentável, oportuna e economicamente mais atual do que nunca. O pão-duro nosso de cada dia.

Texto: Fábio Angelini

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