Ziad Youssef Fazah, liberiano naturalizado brasileiro, fala 58 idiomas. Genial, mas bem distante dos cerca de sete mil conhecidos. Hoje, temos à disposição 38 milhões de páginas na Wikipédia, onde encontramos praticamente qualquer receita digitada no campo de pesquisa. Mas não todas. Os cosmos línguístico e gastronômico possuem várias coisas em comum, entre elas seu tamanho. São grandes demais, complexos demais para se assimilar numa vida só, numa bocada só.

O básico, dominamos. Inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, mandarim, russo, português, árabe. Similar acontece com os pratos mais famosos, mesmo que seja só de ouvir falar, mesmo sem ter provado. Guacamole, gazpacho, teriyaki, panna cotta, frango à Kiev, bouillabaisse. Mas é possível, sim, abrir dicionários e cozinhas para novas experiências, palavras e sabores. Sair um pouco do arroz com feijão, ainda que refinado. Outras culturas em verso e prosa, fogão e mesa. Que tal? Afinal de contas, vivemos a era do conteúdo, do redimensionamento do conhecimento humano. Sirva-se do novo.

Pode-se começar com um tira-gosto. O queijo mexicano “chihuahua”, de Chihuahua, o mesmo estado do cão do latido ardido. É um queijo branco de leite de vaca, leve, parecido com o cheddar e bom para derreter.

Agora, uma sopa, não uma corriqueira, uma de personalidade forte. Do Peru vem o “caucáu”, não o chocolate. Um rastro da influência da cozinha africana, que leva pequenos pedaços de barriga de carneiro mais batatas, às vezes acompanhado de arroz. O nome, dizem que pode ter nascido do fonema “caucau” dito pelos imigrantes chineses do século XIX, indicando que os ingredientes deviam ser picados em porções diminutas. Ou do quéchua “can” (miudeza) e “acacau” (quente).

sociedade-da-mesa

Ensopado assentado, o principal traz uma carne diferente: o “tasajo”, a tradicional carne-seca de cavalo de Cuba, originária da escola crioula no século XVIII; ou um prato do outro lado do mundo, da Lapônia, denominado “poronkäristys”. Escalopes de rena salteados com purê de batatas e arandos (uma baga vermelha da mesma família do mirtilo). O Papai Noel pode achar crueldade, mas a carne de rena é magra e saudável, rica em vitamina B-12, ômega-3 e ômega-6. Os finlandeses amam.

Hora de tirar o pé e dar um refresco para o estômago. Uma “saláta horiátiki” promove a limpeza e afaga o hálito. A salada caipira grega é popular e apreciada no Mediterrâneo. Vai tomate, pepino, queijo feta e azeitona. Seu toque rústico é intencional, para fazer jus à fama da generosa roça helênica. Prefere uma opção mais líquida? Prove a “raita” da Índia, com iogurte, alho, pepino, azeite, vinagre e especiarias (coentro, cominho, hortelã e pimenta-caiena ou pimenta-do-reino). É quase um molho, dos mais completos e usados nas refeições indianas para purificar o paladar.

No gran finale, algo simples e que faz sucesso desde o século IX, quando surgiu na Polônia e depois invadiu a Alemanha: o “streuselkuchen”, bolo-pão que traduzimos como “cuca-alemã” no sul do Brasil. Ao pé da letra, quer dizer “bolo granulado”, pois “kuchen” é bolo, e “streusel” (pronuncia-se “chtrrróisel”) é migalha, ou farofa. Uma farofa doce que cobre outras sobremesas também, preparada com um xícara e meia de farinha de trigo, o mesmo de açúcar, duas colheres (de sopa) de manteiga e uma (de chá) de canela em pó.

É novidade demais de uma só vez? Então, prove por capítulos. Se não gostar de alguma passagem, corte e reedite, de acordo com as preferências das suas papilas gustativas.

Texto: Fábio Angelini

Faça parte do nosso clube: vinhos selecionados por uma rede mundial de especialistas, entregues na porta de sua casa, por preços até 40% abaixo dos praticados no mercado! Associe-se!