capa-faca-1Você conhece a cena: é madrugada. No canal de vendas da TV, a cena insólita é narrada, em off, por um locutor. Ele garante, convicto e messiânico, que as magníficas facas são “capazes de cortar esta chapa de aço de um metro de espessura e logo depois descascar batatas. E sem perder o fio! ”.

Chapas de aço cortadas como manteiga à parte, existem, todos sabemos, facas afiadíssimas, com capacidade de corte que beira o surreal. Os chefs de cozinha, exigentíssimos com suas ferramentas de trabalho, e os apaixonados em geral pelo assunto bem o sabem: a arte milenar da cutelaria, também chamada de armiaria ou armoaria, realiza façanhas que a imaginação leiga por vezes duvida.

Do preparo da comida, passando pela caça, pesca e por aquela pequena navalha que alguns levam no bolso (muitas vezes com objetivos nada nobres), a faca está presente no nosso dia a dia. O primeiro cuteleiro da humanidade surgiu há uns 2 milhões de anos e não tinha a menor ideia de que um dia seria chamado de cuteleiro. Tampouco imaginava que sua atividade com aquele instrumento intuitivamente fabricado com pedra lascada um dia pudesse ter status de arte. Na cabeça do homem pré-histórico, aquilo era útil para protegê-lo em combates e para auxiliá-lo no corte dos animais dos quais se alimentava. Ponto.

Com o tempo, os descendentes deste senhor da Idade da Pedra foram aperfeiçoando a ferramenta que ele criou. Entre 5000 e 2000 a.C., aprenderam a melhorar o corte e criar as empunhaduras, que eram feitas em couro de animais, ossos, madeira e outros materiais, para proteger suas mãos durante o uso.

Mais um pulinho na história e a família do homem descobre o fogo. E logo mais, os primórdios da metalurgia e da forja. Especula-se que o primeiro bocado de metal tenha sido produzido por acidente. Sabe-se lá por que, mas alguém jogou minérios (muito provavelmente de chumbo ou estanho) numa fogueira. E o calor de uma fogueira (cerca de 200ºC) junto ao carvão, é o mínimo que se precisa para derreter os minérios e chegar a um resultado assim.

Porém, estes metais eram molengas, não tinham boa consistência e se deformavam, o que gerou a necessidade de um metal mais duro, para ser usado como ferramenta de corte. A busca chegou a um ponto importante no período entre 3000 e 700 a.C., quando surgiram as primeiras facas de cobre e, mais tarde, as feitas em ferro ou bronze.

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Com a invasão romana na Gália bárbara, as lâminas começam a ser produzidas em larga escala, confeccionando armas como lanças, adagas, machadinhas (cutelos), espadas etc.. Tudo isso acabou dando origem, por volta do século XVII, à cutelaria de mesa. Nos banquetes galo-romanos, inclusive, eram utilizadas sofisticadas peças em bronze para cortar a carne (principal alimento naqueles eventos) e agradar aos exigentes convivas.

Quando falamos em sofisticação, não estamos exagerando. Até hoje os artesãos cuteleiros criam verdadeiras (e afiadas) obras de arte, comprovando suas habilidades únicas na milenar atividade manual. E ponha manual nisso! Muitos deles são cortantes em execrar os processos industriais e as produções em larga escala. Seus artefatos são únicos, tratados como artigos de luxo e podem ser caríssimos. Prova é que, na Antiguidade, eram privilégio dos nobres e chegavam a valores tão altos, que era bastante comum um figurão ser enterrado com suas facas de uso pessoal.

O artigo era tão raro e luxuoso que, ainda no período do Renascimento, quem organizava jantares e banquetes não tinha a mínima obrigação de oferecer seus talheres particulares. Cada um que se virasse e levasse os seus. Afinal, o anfitrião já estava oferecendo os pratos, a comida e a recepção em sua casa. Daí vem o fato curioso dos garfos e facas da época serem menores. Ficava mais cômodo para carregar no bolso ou na cintura – aliás, há muitas pinturas que retratam as festas da época onde vemos as pessoas com os talheres pendurados em volta do corpo. O que pode soar esquisito na moda de hoje, pelo jeito era ostentação na época.

Corta para o Brasil
Por aqui a cutelaria aportou pouco tempo após sermos descobertos. Nossa produção de facas se iniciou praticamente junto à colonização. Já no Século XVI surgiam as primeiras casas especializadas, nas regiões de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Com produção artesanal e excelente qualidade desde o início, pois, em sua maioria, pertenciam a famílias de italianos, alemães, espanhóis e portugueses. Que trouxeram o ofício de seus países de origem. Infelizmente, essas casas iniciais duraram pouco tempo, em média 50 anos. Entre os pouquíssimos rastros que deixaram, há peças belas e raras, que acabaram sendo documentadas apenas no Século XX.

faca-3-1Outra região brasileira que se destacou na cutelaria nacional foi o Rio Grande do Sul. Pelas influências argentina e uruguaia. Já o nosso Nordeste, apesar de não ter muita tradição, mostra influências da Cutelaria Mediterrânea em suas criações.

O ponto de virada, no entanto, ocorreu entre o fim do Século XIX e o início do XX. Com a Revolução Industrial, que chegou atrasada ao Brasil e à cutelaria tupiniquim. Esta começou a se desenvolver de forma mais industrializada com o surgimento de grandes fábricas, como Mundial, a Tramontina e Eberle.

Hoje o Brasil é a sede da Escola de Cutelaria da Universidade de Brasília (UnB). Considerada a segunda do mundo. A escola também oferece um curso de extensão em Cutelaria Artesanal. Também há diversas exposições de cutelaria pelo país, como os salões de Brasília e o de São Paulo, realizado anualmente. Apesar de ainda não ser uma arte tão popular, a cutelaria vem crescendo e conta com cada vez mais apaixonados, entre profissionais, diletantes e curiosos.

Quanto às facas poderosíssimas da abertura deste artigo, continuam sendo relembradas quando zapeamos pelos canais de comércio eletrônico. E ainda não se sabe se venceram o lendário confronto contra as meias que não rasgavam nunca, vendidas no mesmo canal.

Bolso afiado
A faca considerada a mais cara do mundo é um punhal de diamantes. Criado por Buster Warenski (lendário cuteleiro) para um cliente do Japão. O artefato demorou 10 anos para ficar pronto. Tem 790g de ouro, 9 diamantes e 153 esmeraldas. Vale a bagatela de R$ 6.650.000,00, conforme o site www.varievo.com.br

Texto: Paulo Samá

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