Underground over the table

Em 1969, a rede BBC cobriu a chegada do homem à Lua ao som de “Space Oddity”, o primeiro sucesso de David Bowie na Grã-Bretanha.

1-bowie-25Em 2013, a gravadora Sony abriu o “David Bowie Café” no seu prédio de Tóquio, para promover o lançamento do álbum “The Next Day”. Além de servir 3 coquetéis temáticos (“Cat People”, “The Man Who Fell To Earth” e “China Girl”), o menu trazia a comida preferida do astro: “shepherd’s pie”. Na tradução literal, “torta do pastor”. Preferência que, religiosamente, tinha pouco a ver com as décadas selvagens vividas pelo ícone do pop-rock, nos anos 1960 e 1970.

Independente da época, as canções dele compuseram boa parte da memória afetiva de muitos de nós. Nas semanas que se seguiram à morte do cantor, em janeiro de 2016, inventaram tudo que é homenagem: os órgãos das igrejas tocaram suas músicas, astrônomos batizaram com seu nome uma constelação, e o primeiro-ministro britânico deu seu testemunho na TV, desolado.

Bowie ficou preso a vícios, manchetes sexuais e megalomanias durante um tempo, só que nunca ficou preso a uma tendência. Ele mesmo lançava seus próprios estilos. Glam rock, new romantic, krautrock, dance music, alternative rock, jungle, soul, hard rock. Em paralelo, encarnou diversos personagens ao longo da trajetória musical, como Ziggy Stardust, Thin White Duke e Halloween Jack. Participou de dez bandas e invadiu o território do cinema, atuando nos filmes “Cristiane F,” (como ele mesmo); “Fome de Viver” (o vampiro-amante de Catherine Deneuve); “A Última Tentação de Cristo” (Pôncio Pilatus); “Labirinto” (o Rei dos Duendes); “O Grande Truque” (como Nikola Tesla).

Não à toa, David Bowie recebeu a alcunha de “camaleão”. Estrela na música, também desenhava, pintava, escrevia e esculpia. Gostava de Tintoretto e Picasso. William Burroughs, Michael Moorcok e Nietzsche, lia bastante com seus olhos azuis. O olho direito, dilatado permanentemente desde os 15 anos, após levar um soco do colega George Underwood. O que não afetou a pegada visionária, sempre afiada. Ele não era o mais famoso, suas letras não eram exatamente um primor poético, mas o artista tornou-se um dos ícones da inovação. How?

Porque essa figura andrógina era tão criativa quanto ambiciosa, tão rebelde quanto doce. E porque compreendia a cultura underground e o ramo fonográfico. Com inteligência, usou o talento para atropelar tabus. A força disruptiva, a flexibilidade inata, agradaram ao público e ao mercado, em tempos diferentes. Parecia adivinhar o tipo de subjetividade que a indústria cultural iria produzir e rentabilizar. Então quebrava as regras, não a cara. Assim, foi o primeiro cantor a transformar seu nome em ativo, na Bolsa de Valores. Lançou seu próprio provedor de internet, a Bowienet. E vendeu 140 milhões de álbuns na carreira.

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Aos poucos, David Bowie foi deixando para trás os trajes bizarros, sem perder a veia influente. Casou-se com a supermodel somali Ima, em 1992. Em 2003, recusou o título de cavaleiro inglês. Em 2004, fez uma cirurgia do coração às pressas e virou o disco, afastando-se dos holofotes para se concentrar mais nas refeições em família. Que, não raro, o colocavam frente a frente com seu hit culinário, a shepherd’s pie.

Receita clássica da ilha (possivelmente de origem escocesa), preparada com sobras festivas de carne de cordeiro, reavivadas com legumes temperados e cobertas com purê de batata. Após montada, vai para gratinar. É uma versão de escondidinho inglês. Nos Estados Unidos, usa carne de vaca moída, batatas fatiadas e o nome “cottage pie”. Torta bem flexível e versátil. Jamie Oliver já disse que praticamente toda casa inglesa tem a sua própria maneira de fazer a shepherd’s pie.
Torta campestre simples e gostosa, sem nada de extravagante. Ainda assim, uma torta-camaleão.

Shepherd’s Pie (Torta de Carne Inglesa)

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INGREDIENTES (PARA 4 PESSOAS)
• 1 kg de fraldinha moída (originalmente, é feita com carnes mais gordas como costela e cordeiro)
• 1 colher de sopa de azeite
• 1 xícara de chá de cebola picada em cubinhos
• 1/2 xícara de chá de cenoura picada em em cubinhos
• 1/2 xícara de chá de salsão picado em em cubinhos
• 1 colher de sopa de extrato de tomate
• 2 colheres de sopa de molho inglês
• 1/2 copo de vinho tinto
• 4 xícaras de chá de caldo de carne
• 1 ramo de tomilho
• 1 ramo de alecrim
• 1 folha de louro
• 1 pau de canela pequeno
• Salsinha picada a gosto
• Sal a gosto
• Purê de 5 batatas grandes

PREPARO
Aqueça uma caçarola com o azeite e frite os legumes (cebola, cenoura e salsão até murchar). Junte a carne e refogue incorporando bem os legumes.
Acrescente o extrato de tomate, as ervas, a canela e misture bem. Tempere com o molho inglês, o caldo de carne e o vinho. Deixe o molho apurar, sem que fique muito seco.
Se isso acontecer, coloque um pouco de água. Salpique a salsinha picada.

Monte a torta colocando a carne em um recipiente refratário (que possa ir ao forno). Sobre ela, coloque o purê. Para ficar decorativo, pode-se utilizar um saco de confeitar. Leve ao forno alto por 20 minutos até que doure. Sirva imediatamente. Os ingleses costumam fazer ervilhas e vagens como acompanhamento.

Texto: Fábio Angelini

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