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Uma experiência é corrente entre os estudantes de física: enrolar o celular com papel-alumínio para bloquear o sinal. As cargas elétricas do meio externo opõem-se aos campos elétricos internos, barrando o efeito das ondas eletromagnéticas. O fenômeno, chamado de Gaiola de Faraday, justificaria até o uso de chapéus do metal para proteger nossa mente de manipulações telepáticas, segundo os teóricos da conspiração. Ao invés de transformar o papel-alumínio em turbante, o que costumamos fazer mesmo é enrolar carnes para assar, cobrir sobras de comida para o dia seguinte e embalar sanduíches de merenda.

Quase 100% dos lares usam e abusam do papel-alumínio na culinária, pelas suas propriedades termoisolantes, que proporcionam um alimento assado por igual. O calor concentrado cozinha o item embrulhado de maneira homogênea, sem ressecá-lo, porque a evaporação é lenta. Também faz a alegria de cozinheiros profissionais e amadores, por manter a comida quente por mais tempo, forrar formas e reduzir a sujeira.

Na Antiguidade, o sulfato de alumínio (do latim “alumen”) era utilizado como fixador de corantes em objetos de couro, papel e tecido. Somente em 1825, o dinamarquês Hans Christian Øersted isolou o alumínio na forma como ele é conhecido atualmente. Pois o metal não ferroso mais abundante do planeta – e mais empregado pelo homem – não se apresenta na forma metálica natural, ele é extraído pelo refino da bauxita. Dela, resulta um pó branco parecido com açúcar, a alumina, que vira alumínio após um procedimento eletroquímico. No início, os métodos de obtenção do alumínio eram caros e ineficientes. Só a partir do surgimento do processo de Hall-Héroult, em 1886, abriu-se caminho para esquadrias, panelas, eletrodomésticos, talheres, carrocerias de veículos, cosméticos, mesas, tampas de iogurte, latas e tantos outros artefatos do cotidiano.

Logo, o incrível metal multiúso assumiria a espessura do papel. Em 1910, Estados Unidos e Reino Unido começaram a produzir o papel-alumínio, mas há indicações de que ele foi comercializado pela primeira vez por uma fábrica suíça. É bem possível, pois no ano seguinte, a Tobler lançou suas famosas barras de chocolate embaladas em papel-alumínio. Em 1912, chegou a vez da Maggi adotar o material nos envoltórios de sopas e cubos de tempero. Poder conservar os produtos por mais tempo era um avanço e tanto, revolucionou todo o universo das embalagens. Elas ganharam mais resistência, quando os laminados combinaram-se ao plástico, papel e papelão. Em 1963, a sueca Tetra Pak lançou a Tetra Brik, dando origem a uma extensa saga de volumes longa vida.

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Hoje, cozinha sem papel alumínio é quase impensável. Novos hábitos nasceram e antigas receitas evoluíram, graças à sua existência. O bom e simples frango na cerveja. O cupim, o pernil e a costela, assados. O robalo, linguado ou salmão, com ou sem aspargos. Aliás, legume assado no papel-alumínio é mais limpo e saudável. E as batatas “Asterix” assim, enroladas, e assadas a 200ºC, rendem um nhoque mais leve, que requer menos farinha. O papel-alumínio mantém o pão quente e a umidade natural das frutas, fora da geladeira.

Substitui sacos de confeiteiro. Limpa resíduos grudados no fundo da panela, assadeira ou grill. E deixa a massa da torta mais crocante e sem queimar: é só retirá-la do forno um pouco depois da metade do cozimento, e cobri-la com papel-alumínio.
É usado, ainda, para arrastar móveis pesados com facilidade, passar tecidos delicados, afiar tesouras e facas, remover esmalte, fazer cachinhos nos cabelos e estender a duração do sabão.

No âmbito terapêutico, há aplicações que a maioria desconhece. Tratar queimaduras recentes. Colocar tiras de papel-alumínio nas bochechas e pálpebras, para ganhar disposição. Aliviar os sintomas da gripe, as artrites, gotas e dores no ciático. Discussão antiga é a possível relação do metal com o Mal de Alzheimer: o calor solta partículas de alumínio na comida, o que poderia servir de gatilho para quem já tem predisposição genética. Não há estudos conclusivos, e segundo a ANVISA, a quantidade de metal liberada é muito baixa. Mesma opinião tem a Academia Brasileira de Neurologia. Entretanto, há quem prefira o papel-celofane. Só é preciso se acostumar ao vazamento de líquidos durante o cozimento.

Mais uma polêmica: que lado do papel-alumínio deve ficar voltado para fora ou para dentro? Os chefs dizem que a parte mais lisa deve ficar interna, junto ao alimento, porque gruda menos. Também há uma diferença em termos de reflexão entre as superfícies brilhante ou opaca, mas ela é desprezível. Porém, se o forno estiver quente além da conta, seja o que for que estiver encapado, seja com a quantidade que for do poderoso papel-alumínio, vai acabar queimando.

Texto: Fábio Angelini

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