Em setembro passado estivemos no Taste SP. Experimentando comidinhas, aprendendo a fazer coquetéis e fazendo contatos para futuras matérias e entrevistas que pudessem interessar a nossos associados. Entre eles, um dos mais preciosos foi Romeu Habib Ghattas, do Rei da Cutelaria. O simpático ex-levantador de peso entrou nessa, segundo suas próprias palavras, convocado pelo pai, Edmond Habib Ghattas, fundador da loja e, em mais de vinte anos na profissão, apaixonou-se pelo negócio das afiadas lâminas. Entre facas, espadas e até armaduras que existem na loja, descobrimos que Romeu tem muito a dizer, seja sobre a história da cutelaria, que abordamos no Almanaque de dezembro, seja sobre a atividade no Brasil, facas colecionáveis e muito mais. Confira.

dscf2122a-3-1Qual foi a sua trajetória até o Rei da Cutelaria?
Quando fazia faculdade de direito, iniciei na prática esportiva de Levantamento de Peso, atividade esta pela qual me apaixonei. Por isso, tranquei a faculdade no 4º ano e comecei a estudar Educação Física, que acabou sendo minha formação acadêmica final. A partir daí, fui me especializando no esporte de Levantamento de Peso e passei aproximadamente 9 anos viajando e participando de campeonatos nacionais e internacionais, dos quais me orgulho de ter sido Campeão Mundial em uma das modalidades. Após ser convocado por meu pai – Edmond Habib Ghattas, o fundador do Rei da Cutelaria – fui deixando de lado minhas práticas esportivas para me dedicar mais à administração do negócio.

Fale um pouco sobre cutelaria. Isso é milenar, não? Onde começou?
Cutelaria é a arte do Cuteleiro, que fabrica e muitas vezes vende instrumentos de corte. Facas, facões, canivetes, punhais, adagas, espadas, tesouras e outros instrumentos cortantes. A história começa lá no Paleolítico, na Idade da Pedra Lascada. É daquela época que vêm os primeiros artefatos cortantes encontrados, que eram feitos pelos homens das cavernas com ossos e pedras. Depois de vários períodos, onde o homem aprendeu a usar metais como cobre e o bronze, chegou-se ao ferro, há uns 3.500 anos. Em 900 a.C., os egípcios já usavam o tratamento térmico nas espadas e com o tempo, foi-se aperfeiçoando a arte, o que trouxe muitos benefícios à humanidade. Porém, o avanço só veio mesmo em meados do século XIX, com a Revolução Industrial. O aço foi inventado e começou então a produção industrial, feita em série.

Mercado pra cutelaria no Brasil, a gente imagina que exista. Mas é um mercado grande? Qual é o tamanho disso?
Como eu disse na questão anterior, a arte da Cutelaria existe há séculos. O mercado de Cutelaria no Brasil acompanhou esta evolução e atualmente é bastante abrangente. Principalmente com o surgimento da Cutelaria Industrial, que atinge larga escala de produção, utilizando métodos e máquinas com automação e produção seriada. No Brasil, é possível encontrarmos algumas marcas famosas e centenárias como a Mundial, com 120 anos e a Tramontina, com 105 anos, ambas pioneiras no ramo de Cutelaria. Vale salientar também que na Europa e E.U.A. existem fábricas renomadas há mais de 250 anos, a exemplo da Zwilling, que está completando 285 anos de existência.

shutterstock_479978260-1Há quanto tempo surgiu o Rei da Cutelaria?
No início dos anos 1950, meu pai, o libanês Edmond Habib Ghattas – falecido no ano passado – chegou ao Brasil e, como diz sua história em nosso site, “como tantos outros imigrantes, tinha como único objetivo fazer a América”. Ele começou aqui mesmo, na Rua Carlos de Souza Nazareth (travessa da famosíssima Rua 25 de Março), com uma pequena loja. Em 1963, ele criou o Rei da Cutelaria e, desde aquela época, nossa marca vem se perpetuando. E lá se vai mais de meio século, onde nossa experiência e tradição é oferecida no mercado atacadista e também no varejo. Oferecemos produtos de grandes marcas para o público final e para empresas de diversos segmentos em todo o Brasil.

Os produtos são na maioria nacionais ou importados?
No início nossos produtos eram 100% nacionais, devido às dificuldades de importação. Depois, com a abertura de mercado para os importados, começamos a trabalhar com equipamentos e materiais estrangeiros também. Hoje, temos uma quantidade considerável de produtos importados.

Cutelaria artesanal vende bem? Por quê?
Na cutelaria, como nas artes, a produção artesanal é artigo de luxo, direcionado a públicos específicos que são amantes desta arte. Isso fez com que surgissem até eventos de cutelaria, como o Salão Paulista de Cutelaria, do qual somos patrocinadores, e que teve sua oitava edição em novembro do ano passado.

Existem clientes de segmentos específicos que compram de vocês? Quais são esses segmentos?
O Rei da Cutelaria abre espaço para diversos segmentos, desde os colecionadores da cutelaria artesanal, aos que utilizam para hobby, revenda e até os profissionais para consumo e uso doméstico.

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Que tipo de facas vocês vendem? Que modelos têm mais saída? E quais os valores?
Há uma diversidade muito grande de facas no Rei da Cutelaria. É inviável até descrever cada uma. Mas podemos reduzir dizendo que temos opções que vão de facas peixeira a facas históricas e colecionáveis, que chegam a custar em média R$ 20.000,00.

Você me falou, ao telefone, sobre uma faca que custa 8 mil reais.
Pode me contar mais um pouco disso

Falamos sobre a Faca Chef Müngsten Damast Edição Comemorativa de 285 anos da marca alemã Zwilling.

(N. da R.: para ilustrar melhor sua resposta, Romeu nos enviou a história completa da faca, produzida através da tecnologia SIGMAFORGE, onde vêm soldados e forjados na mesma peça, o aço antigo usado na centenária ponte Müngsten, a maior ponte ferroviária da Alemanha, com o aço inoxidável moderno. O resultado é uma obra-prima da cutelaria, em uma edição limitada de apenas 285 unidades, com 107 camadas de aço-damasco, empunhadura em madeira Grenadill (jacarandá africano) e rebites em aço inoxidável. Além da Faca Chef Müngsten Damast, a Zwilling criou também a linha Twin 1731, em comemoração aos seus 280 anos de existência. Esta foi feita no mesmo material utilizado na construção dos ônibus espaciais da Nasa).

dscf2138a-2Agora uma pergunta direta a você: todo mundo tem uma motivação que leva para cá ou para lá, a fim de seguir uma carreira. Qual é o estímulo, o start, essa motivação que te fez optar por trabalhar com cutelaria?
Inicialmente não tive nenhuma motivação, o que me impulsionou a trabalhar no Rei da Cutelaria foi um convite / convocação do meu pai, para ajudar na administração da empresa. Hoje estou aqui, há mais de 30 anos seguindo com este legado. O tempo foi passando e fui me apaixonando pela oportunidade de administrar o negócio, adquirindo conhecimentos e experiências acerca da arte e história da Cutelaria, além de conceitos básicos de negociação.

Em setembro do ano passado, vocês estiveram no Taste SP. Qual é o nível de proximidade entre cutelaria e gastronomia?
Do mesmo jeito que a descoberta do fogo, da roda, da escrita e a habilidade do homem falar, as facas também ajudaram muito no desenvolvimento humano. E vão continuar presentes em nosso cotidiano. Seja como instrumentos de sobrevivência ou de forma utilitária, no preparo das refeições. E os profissionais mais especializados da gastronomia, os chefs, são grandes fãs da qualidade das facas. Tanto das feitas de forma industrial, quanto das feitas por mestres cuteleiros especialmente para eles. Afinal, as facas são utensílios imprescindíveis para estes profissionais realizarem suas atividades com maestria.

PINGUE-PONGUE

Vinho combina com:
Amigos
Um país:
Pode ser cidade? Rio de Janeiro
Um prato:
Charutinho de folha de uva feito pela mamãe
Um hobby:
Visitar restaurantes famosos
Um desejo:
Saúde, paz e amor
Você mesmo, em uma palavra:
Perseverante

Texto: Paulo Samá

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