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Multifacetado e com o tamanhão continental do nosso país, não é surpresa pra ninguém a variedade de influências que passa pela mesa brasileira século a século. Neste caldeirão cultural-gastronômico, os ingredientes estão sempre mudando o caldo. Lá dentro tem japonês, espanhol, tailandês, italiano, português, árabe, chinês, libanês, marroquino, alemão, francês, peruano, mexicano, argentino e por aí vai – e nem tente negar a importância de los hermanos no cardápio, principalmente se você é daquelas pessoas que pronuncia as palavras “parrilla argentina” lambendo os beiços.

Mas o que realmente surpreende é quantas dessas influências acabaram convertidas em “coisas nossas” mesmo. E muitas vezes, até melhor que as originais lá de fora. Quantas vezes você já ouviu alguém dizendo que nossa pizza supera a legítima pizza italiana? Verdade ou não, não são poucos os brasileiros que já experimentaram a pizza de lá, mas preferem a de cá. E, convenhamos, nossa pizza e sua variedade formam mesmo um autêntico show de sabores, que surpreende até mesmo os italianos que nos visitam.

Pulando do forno a lenha pra cumbuca, a feijoada é outro exemplo tipicamente brasileiro que “não é bem assim”. O prato, que tanto apetece e apaixona os gringos, tem paternidade duvidosa, por assim dizer. Muitos especialistas e historiadores, como Câmara Cascudo, defendem que esse tipo de refeição, a qual contém várias misturas de carnes, legumes e verduras, tem origem mediterrânea e milenar. Seguindo esse raciocínio, a feijoada não seria tão brasileira assim, afinal nosso país ainda é um jovenzinho de quinhentos e dezesseis anos. Também há quem atribua a origem da feijoada aos escravos africanos, que teriam criado o chamado “feijão gordo”, acompanhado de diversos cortes de carne de porco, como a linguiça, pés, orelhas etc.

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Isso é questionado por Câmara Cascudo, uma vez que, segundo ele, muitos africanos eram seguidores do islamismo e, como tal, não comeriam carne de porco. Polêmicas e hipóteses à parte, nosso objetivo aqui não é discutir de onde vieram os pratos, mas sim falar do quanto o brasileiro coloca sua personalidade neles, criando sua própria e deliciosa leitura, seja qual for a origem. Assim, não importa de quem é a origem, a feijoada definitivamente é coisa nossa. Da mesma forma que outras especialidades popularizadas Brasil afora.

A cozinha pode ser de fora, mas quem põe a mão na massa é daqui mesmo, sim senhor

Tem coisa mais brasileira que o pastel do japonês da feira? Como assim? Bem, muitas vezes, de asiático a barraquinha tem só isso e olhe lá. Aliás, se o pastel é coisa deles, também não dá pra ter muita certeza de quem são “eles”. Muitos acreditam que o pastel deriva do gyosa japonês e do rolinho primavera chinês, mas também há quem diga que o salgado, frito como se faz aqui, vem na verdade da Europa, no fim da Idade Média.

Pra completar, o sujeito ali atrás, passando calor com o óleo quente e fritando deliciosos pastéis, é paulistano. Ou carioca. Ou nordestino. Ou capixaba. Ou gaúcho… Muitas vezes a mão de obra que bota a mão na massa é a nossa. E a criatividade pasteleira verde e amarela levou o pastel muito além dos tradicionais de carne, queijo e palmito. Portanto, ninguém vai querer nos ver pelas costas se considerarmos o pastel como coisa nossa também.

Tem coisa mais brasileira que o pastel do japonês da feira?

Da mesma forma (ou na mesma fôrma), podemos colocar as esfihas. Se pensarmos nas décadas de 1960, 1970 e início dos anos 1980, iremos lembrar que, com poucas exceções, naquele tempo quem entendia mesmo de esfiha eram os árabes, turcos e libaneses, que muitas vezes mal falavam o nosso idioma e vendiam suas especialidades em pequenas lojinhas, onde todo mundo falava uma língua só: a do sabor. Estes pioneiros cresceram e passaram sua experiência à frente, ensinando funcionários (obviamente brasileiros), que acabaram abrindo suas próprias lojas e difundindo ainda mais a comida árabe ao redor do Brasil. Atualmente, além de gigantes do ramo como o Habib’s e o Almanara, vemos também diversas esfiharias e restaurantes árabes, com esfihas legitimamente árabes feitas por profissionais legitimamente brasileiros.

Além desses exemplos saborosos, não podemos deixar de lembrar da espanholíssima paella, preparada com maestria por brasileiríssimos chefs; dos tacos e paletas mexicanas que são vendidos por aqui como se aqui tivessem nascido; da baiana arretada que faz um senhor yakissoba; do bacalhau português que tem sotaque brasileiro; do ceviche peruano que virou queridinho da brasileirada; dos excelentes sushis preparados por sushimen negros ou nordestinos – inclusive, muita gente por aí afora diz que, no mundo, não tem melhor rodízio de comida japonesa do que o nosso. Nem no Japão.

A coisa parece não ter fim. E é bom que não tenha mesmo, cá entre nós. Porque, quando se trata de cozinha, a gente sabe que o brasileiro é caprichoso. Somos um povo que faz direitinho. Que se dedica e se supera. E isso ninguém tira da gente. É coisa nossa.

Texto: Paulo Samá

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