“Tudo o que você vê, eu devo ao espaguete”
Sophia Loren e Cary Grant em um restaurante, tensos, à mesa. Ela noiva, ele casado. O galã, completamente transtornado, declara-se aos lábios rubros carnudos e olhos amendoados, à personalidade e elegância da diva. O que decorava os pratos de ambos, pouco importava. Sophia hesita, precisa de um dia para pensar. Nem foi necessário. O gentleman antecipa-se e pede desculpas pela impetuosidade apaixonada. Tudo certo então. Amigos. No mesmo ano, 1957, ela casa-se com o diretor de cinema Carlo Ponti, 22 anos mais velho. Ficaram juntos até ele morrer, dois filhos e 50 anos depois.1-sophia-loren-closeup 1

No cinquentenário, as formas da atriz permaneciam intactas: 96 cm de busto, 64 de cintura e 97 de quadril. Na opinião de Sophia, o segredo é a dieta mediterrânea. Consumir duas colheres de sopa de azeite por dia (azeite que vai bem até no banho, porque hidrata a pele). Além disso, um jantar leve, muita água, boca fechada entre as refeições e dormir bem.

Outra fórmula famosa da musa – testada por colegas e jornalistas – é comer porções bem pequenas de macarrão durante o dia. Sua justificativa: a limpeza promovida pelas fibras, a ação rejuvenescedora dos antioxidantes, e a reparação celular acionada por minerais, como manganês e selênio. Ela parece dominar o assunto desde criança, quando aprendeu a cozinhar com a mãe e se aperfeiçoou com a nonna Luisa, na periferia de Nápoles. “Minha avó era um gênio do fogão, ainda que pobre e trabalhando com ingredientes simples”.

E quem disse que beleza não põe a mesa? Nossa Sofia Villani Scicolone, a mulher mais bonita do século XX, tem pomodoro nas veias. Além de Oscar, Globo de Ouro, Urso de Ouro e César na prateleira, coleciona vários prêmios culinários e até o título de “madrinha da mortadela”. É que, em 1971, estrelou “La Mortadella”, de Mario Monicelli. No filme, sua personagem napolitana é retida na alfândega do aeroporto americano por carregar o embutido nas mãos.

Longe das câmeras, Sophia Loren sempre atuou de forma impecável na cozinha, fosse preparando a receita de molho de tomate na massa de fio longo, ensinada pela avó, ou uma refeição para os amigos dos filhos, de vez em quando.

Nascida em Roma e crescida em Nápoles, a bela Sophia vai deixar para a posteridade não só uma centena de filmes e seriados de TV, mas também dois apetitosos livros de culinária. O primeiro, “In Cucina con Amore”, foi escrito em 1968 na cama, grávida e de repouso para não perder o primeiro filho. Receitas, todas ditadas e comentadas por ela, da sardinha “azurra”, prato siciliano que ama, às barquinhas de aipo com roquefort. E camponata, polpette, polentas, pastas, sopas e até feijão. Doces, são mais de 30 (como o gelo de melancia ao zabaione), e, claro, umas 10 versões só de espaguete. No segundo título (“Sophia Loren’s Recipes and Memories”, de 1998), a atriz-quituteira foi mais comedida: só umas 5 receitas de espaguete.

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Quando passou pelo Brasil em 2012, aos 78 anos, ela se entreteve com um filé mignon recheado com presunto pata negra, regado a cachaça. Dizem que apreciou a companhia de Lula à mesa, mas também que estava um tanto aérea. Sonhando com vôngole, talvez.

O “spaghetti alle vongole” era e é o protagonista dos seus desejos sensoriais. Este clássico da culinária italiana usa o marisco bivalve de águas frias, que vai bem em entradas, molhos leves e refeições principais, especialmente aquelas com massas. Na versão “in bianco”, um toque de vinho branco e pimentinha, mais azeite, alho e salsinha. As conchinhas e os verdinhos se destacando sobre o espaguete (pode ser talharim ou linguini), um visual clean e simples, equilibrado no prato e na boca. Ou então “in rosso”, com acréscimo de tomate e manjericão.

Mesmo no auge da carreira, após receber 1 milhão de dólares pela aparição na película “A Queda do Império Romano”, de 1964 (ou mesmo após passar 18 dias na prisão de Caserta, por sonegação fiscal, em 1982), a atriz jamais perdeu a mão ou deixou de lado as panelas e anotações. Nas suas próprias palavras, “prefiro estar presa, comendo macarrão na Itália, a estar livre na Suíça”. Você sabe, comer é sacrossanto para os fratelli.

Spaghetti alla Sofia
(Spaghetti alle vongole)

Receita original da atriz Sophia Loren, publicada pela revista Gula em sua edição número 5, de 1993

RENDIMENTO: 4 porções.shutterstock_369535346

INGREDIENTES
• ½ kg de spaghetti
• 1 kg de vôngoles (nas conchas)
• 2 xícaras de vinho branco seco
• 2 dentes de alho
• 2 colheres (sopa) de salsa picada
• 6 colheres (sopa) de azeite de oliva
• Sal e pimenta vermelha seca a gosto (pode usar pimenta-do-reino moída na hora)

PREPARO
Coloque os vôngoles de molho, em um recipiente que contenha muita água fria e bastante sal. Deixe-os de molho durante uma hora.Jogue fora a água, lave-os em água corrente, para que percam o sal e a areia que ainda continue entranhada nas conchas.

Coloque-os novamente de molho em água com sal, por mais meia hora. Torne a lavar os vôngoles em água corrente. Jogue fora as conchas que estejam abertas e não se fechem quando tocadas. Faça a mesma coisa com as conchas quebradas ou pesadas demais – elas podem conter lama do mar. Deixe os vôngoles escorrendo.

Aqueça o azeite de oliva numa panela grande. Acrescente o alho picado e cozinhe por um a dois minutos em fogo baixo, mexendo sempre. Adicione os vôngoles (com as conchas), a pimenta, a salsinha e o vinho branco. Aumente o fogo e deixe cozinhar por 5 minutos, agitando a panela, tampada, para que as conchas se abram normalmente.

Enquanto o molho é preparado, cozinhe em fogo alto os spaghetti, em muita água fervente, com sal a gosto (conforme as recomendações da embalagem). Retire-os quando estiverem al dente.
Escorra os spaghetti e misture-os ao molho. Leve tudo ao fogo alto, rapidamente, apenas para a massa incorporar o sabor e o aroma dos vôngoles.
Sirva imediatamente, tendo o cuidado para que os vôngoles, sempre com as conchas, fiquem em cima dos spaghetti (descarte os que não abrirem).

Texto: Fábio Angelini

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