Ano de 1982. Em férias no litoral, a família volta da praia. A manhã ensolarada, os petiscos do quiosque, as caipirinhas, as brincadeiras, tudo contribuiu para abrir o apetite. É hora de um bom almoço. E logo após, é a vez daquele olhar irresistível pessoa-sofá­-sofá-pessoa, que termina inevitavelmente em um gostoso cochilo.

Ok, mas antes tem a questão… quem vai encostar a barriga no fogão?

Uma mente iluminada salva a pátria e lembra da comida caseira que a pensão da esquina entrega na marmita. É só ligar e, em pouco tempo, chega à por­ta aquela tradicional “torre” de panelas, onde cada uma guarda uma surpresa apetitosa. Tudo quenti­nho e pronto pra comer.

Esta cena, assim como a palavra “pensão”, não é muito comum hoje, mas era corriqueira até o início dos anos 1990. Assim como também era costumeiro levar comida para o trabalho, por questões financeiras, práticas e até sentimentais, como o amor pela cozinha caseira. Leia-se comida de mãe, de avó, de tia…

MARMITA É TRADIÇÃO
Mas não é só isso. É também praticidade, quando não há um restaurante por perto. Ou mesmo quando não estamos com a mínima vontade de sair do escritório. Chega mesmo a ser uma questão de sobrevivência e produtividade, principalmente pra quem precisa manter uma agenda apertada. Sem falar que hoje em dia também tem um quê de elegância (inclusive, nesta edição nosso objeto de desejo foi escolhido a dedo para os “marmitófilos”).

Além disso, seria injusto deixarmos de citar o lado, digamos, familiar, da coisa. Quem usa ou leva marmita para o trabalho, sem querer ou perceber, reverencia tradições familiares. A imagem mental do utensílio evoca gente que cozinha em casa, que põe esmero no preparo e tem prazer em ver a família feliz e satisfeita à mesa. Assim, levar a marmita ao trabalho é como levar junto esta sensação caseira para um ambiente diferente.

No entanto; como o mundo gira (cada vez mais rápido aliás). Muito disso se perdeu no caminho. Em parte pela profusão de opções de alimentação que surgiram através dos anos, como o fast-food, os restaurantes self-service por quilo e os serviços de delivery, e em parte por motivos como preguiça e até vergonha de levar comida para o trabalho.

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RETORNO TRIUNFAL
Mas o ser humano, essa figura tão peculiar, é inteligente. E sabe intuitivamente, que só acelerar, acelerar e acelerar não faz lá muito bem. Pé no freio, uma boa respirada e surgem novas tendências, como o slow-food; o comfort-food e a onda de alimentação saudável que cresce a cada dia e parece não ter data pra terminar. Até porque, sem saúde; não há como segurar o ritmo alucinante em que muita gente vive.

Eis que, então, a marmita volta do exílio, pronta pra recuperar seu merecido espaço. Se antes levar a popular “quentinha” para o trabalho podia soar como “falta de dinheiro para almoçar” ou “nível baixo de hierarquia”, hoje é “cool”. De repente, nos demos conta de que aquele utensílio que ficou meio empoeirado nas prateleiras da mente permite que a gente escolha nosso próprio cardápio diário, de uma forma um tanto diferente dos restaurantes. Com a marmita podemos preparar refeições com ingredientes melhores e por vezes mais baratos, seguindo os gostos das pessoas mais importantes: nós mesmos. Afinal, ninguém melhor para saber a dose certa dos temperos e, principalmente, nossas restrições alimentares. A marmita hoje mostra que a pessoa se preocupa com a própria saúde, que prefere uma alimentação mais bem pensada, que escolhe a dedo os ingredientes que consome.

Não que aquele quilinho ao lado do escritório seja um inimigo mortal, mas, em geral, os temperos dos restaurantes são mais fortes e as opções de pratos mais variadas e pesadas. Assim, o risco de comer mais do que o necessário é maior.

É COOL, MAS PODE SER UM PRATO CHEIO PRA CORRERIA
Diferente do que se pensava antes, hoje em dia, levar marmita para o trabalho também denota uma simpatia diletante pela cozinha. Num mundo onde tudo que parece ser gourmet ou feito de forma artesanal é altamente valorizado, é chique e até terapêutico preparar a própria comida. Levar esse lado para o trabalho pode fazer com que a pessoa fique ainda mais bem vista entre os colegas. Sempre lembrando do bom senso como regra primária para as práticas de “boa vizinhança corporativa”, é claro. Mesmo que haja uma copa ou espaço destinado às refeições no ambiente de trabalho, é importante que os feitos gastronômicos sejam práticos e evitem formar fila no micro-ondas. Ah, sim! Nada com cheiro muito forte, por favor. Não é muito agradável comer filé de frango com cheiro de peixe do prato ao lado e vice-versa.

Por fim, também é de bom tom ficar atento ao tempo da refeição: se por um lado a saúde está a favor do uso da marmita, por outro, o utensílio pode dar uma boa contribuída pra diminuir o seu horário de almoço. Por mais retrô que pareça, a marmita combina direitinho com fenômenos culturais como internet, redes sociais e a “praticidade” dos computadores, laptops, tablets e smartphones. Ou seja, quando menos esperar, você estará comendo e lendo as notícias do dia, conversando (digitalmente, é claro. Pois papear ao vivo está cada vez mais “old school”) e até finalizando um trabalhinho aqui e outro ali. Portanto, use sua marmita com moderação.

Texto: Paulo Samá

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