Assim como o grande intérprete de tango da Argentina era uruguaio, a artista brasileira de maior sucesso e prestígio internacional nasceu em Portugal: Carmen Miranda. Só que ela chegou ao Rio com meses de idade. De origem humilde, moldada pela malandragem, ginga e boemia da Lapa, desde cedo mostrou inclinação para o show business. Queria ser atriz ou cantora.

Adolescente, trabalhou em loja de gravatas e chapelaria. Tinha lá sua queda também pelo mundo da moda (seria colaboradora de Salvatore Ferragamo). E cantava em festas. Numa delas, em 1928, enquanto entoava um tango – seu ritmo preferido –, o músico Josué de Barros, fascinado, a descobriu.

Passou a promovê-la, então, e o sucesso não tardou: já em 1930, a “pequena notável” estourou com a marchinha “Pra Você Gostar de Mim” (“Taí”), de Joubert de Carvalho. Vendeu horrores. Dois anos depois, estrelou seu primeiro filme, “O Carnaval Cantado”, tema que seria replicado na comédia musical “Alô, Alô, Carnaval”, de 1936, com Oscarito, Lamartine Babo e Aurora Miranda, sua irmã. Logo na sequência, as duas foram contratadas para o elenco permanente do Cassino da Urca, point carioca mais badalado da década de 1930.

Mulher adiantada no tempo, Carmen se apresentava com as pernas e a barriguinha de fora, quando chegou o emblemático ano de 1939, e a hora de rodar “Banana da Terra”. Uma das canções do filme, composta por Dorival Caymmi, nada mais, nada menos do que a famosa “O Que é Que a Baiana Tem?”. Foi a primeira vez em que Carmen assumiu o exótico e eterno traje tropicaliente, inspirado nas vendedoras de frutas da Bahia, com seus balangandãs, turbante multicolorido e visual tutti-frutti. Tornou-se, digamos assim, uma “baiana estilizada”. E criou um estereótipo forte e único, que incorporaria até o fim da carreira e da vida, ultrapassaria fronteiras e se insinuaria no imaginário popular – especialmente dos americanos.

INDIGESTA NÃO, MITO
A baixinha de olhos vwerdes logo se mudou para os Estados Unidos e virou fenômeno da cultura de massa. Estava na TV, no rádio, em Hollywood e na Broadway. Ninguém entendia uma palavra do que ela cantava, mas todos a adoravam. Talvez os yankees a assistissem para esquecer da guerra, mas provavelmente era algo a mais que isso.

E assim, a “brazilian bombshell” encarou longas temporadas, chegou a emendar meia dúzia de apresentações num só dia, fez show na Casa Branca e atuou em 14 filmes. Às vezes, só parava ao final da madrugada, após conceder autógrafos e se livrar do figurino e da maquiagem. Era de se esperar que Carmen repusesse as energias como gostava. Devorava salada de camarão, um bife com nove centímetros de altura, mais cinco acompanhamentos e duas sobremesas, sem a menor cerimônia, na frente dos companheiros de estúdio.

Dinheiro nunca foi problema: Carmen Miranda teve, durante um bom tempo, o melhor salário pago a uma mulher nos EUA. Ao longo de décadas, foi a única latino-americana impressa na calçada da fama de Los Angeles. A dificuldade vinha da sua guerra pessoal contra a balança, da sua tendência a engordar. Via-se obrigada, às vésperas de compromissos importantes, a recorrer a dietas insanas depois de degustar as comidas amadas. Feijoada, rabada, farinha, arroz de forno, asa de frango, presunto, café com leite, maçã, peixe com leite de coco e ovo cozido.

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Carmen Miranda não cansou de exaltar, em notas e tons hipnóticos, elementos da culinária brasileira e hábitos de consumo. Frutas, tutu de feijão, vatapá, acarajé, cocada, cachaça e chope compõem letras graciosamente executadas e gravadas pela atriz, cantora e dançarina.

Agora, imagine. Uma mulher branca de ascendência europeia, que se apropriou do samba, o gênero-símbolo da periferia e dos negros. Óbvio que choveram críticas e acusações, que ela havia vendido a alma ao “Tio Sam”, que havia “embranquecido o samba”, e coisa e tal. Ao ver questionados o seu trabalho e a sua brasilidade, em 1940 voltou temporariamente ao Brasil, com a canção “Dizem que Eu Voltei Americanizada”. Não só deu o seu recado, como revelou o prato do coração: camarão com chuchu.

Até hoje, o camarão ensopadinho com chuchu é um clássico do Rio, terra natal da criação, mas não tão apreciado pelo resto do país. Muitos ainda desprezam o “insosso” chuchu. Talvez, uma questão de saber explorar a sua neutralidade. Não pode estar cozido demais, e sim tenro e macio, acompanhando o camarão no ponto e o catupiry original. Não é exclusividade nossa. Na América Central (berço do chuchu), há uma receita de “camarones com chayotes”, e boa pra chuchu, pelo que dizem.

Além do estilo melódico copiado até hoje, e ainda reverenciado, esta embaixadora não-oficial do Brasil deixou como legado o “Miranda look”, profunda influência sobre o mundo fashion: o uso de turbantes e do salto plataforma, dos quais foi a precursora. E uma infinidade de solicitações e propostas de uso de imagem, que os herdeiros rebolam para administrar. Os pedidos vão desde chinelos e joias até livros infantis e geladeiras. Pelo potencial comercial da estampa “Carmen Miranda”, capaz de diferenciar e temperar qualquer marca, em qualquer lugar, em qualquer tempo.

Camarão com chuchu e catupiry

INGREDIENTES
– 500g de camarão pequeno limpo (sem cabeça e cascas)
– 3 chuchus pequenos (verdes escuros, mais novos)
– 1 cebola grande ralada ou bem picadinha
– 1 tomate médio sem pele e sementes, bem picadinho
– 3 dentes de alho
– 3 colheres (sopa) de azeite
– 1 copo de requeijão Catupiry
– Sal e pimenta-do-reino a gosto
– 4 colheres (sopa) de cheiro-verde
– 1 colher (sopa) de coentro (opcional)

PREPARO
Lave e tempere os camarões com duas colheres (sopa) de suco de limão, sal e pimentado- reino a gosto, e reserve. Numa panela em fogo médio, aqueça três colheres (sopa) de azeite. Refogue a cebola e o alho. Junte o camarão temperado e refogue por mais 2 minutos. Retire o camarão da panela, para que não emborrache, e reserve. Na mesma panela, e com o caldo do camarão que se formou em fogo médio, junte o tomate e o chuchu. Acerte o sal. Tampe a panela e cozinhe em fogo baixo até o chuchu amolecer um pouco (se necessário, vá pingando água quente aos poucos para não queimar o chuchu). Ele deve continuar tenro ao morder. Acrescente o camarão refogado reservado, o cheiro-verde e o coentro. Por último, coloque o requeijão Catupiry. Sirva a seguir.

ACOMPANHAMENTOS:
Arroz branco, salada mista de folhas verdes, vinho branco seco.

Texto: Fábio Angelini

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