A trilha sonora é de estádio em dia de clássico ou de liquidação em sábado de manhã. Um zumbido penetra nos ouvidos e você não entende nada. Muita gente falando, não, gritando ao mesmo tempo. Um mais alto que o outro.

Você afia um pouco a audição e consegue distinguir uma frase; “Hoje tem promoção dos Beatles… hoje tem promoção dos Beatles!”. Aproxima-se da barraquinha e o rapaz de cara redonda e bochechas vermelhas lhe lasca uma serenata; “Shimeji óóuu dã pipol…”*.

O equívoco musical a gente nem comenta**, mas a cara de pau e desenvoltura são daquelas que só brasileiro tem – geniais. E, é claro, você compra o shimeji na barraquinha do feirante “beatlemaníaco”.

Sim, você já deve ter percebido que estamos falando da feira livre e de suas figuras peculiares. Tem o feirante engraçado; tem o mau-humorado; tem o gentil; o malucão e até o poliglota, que fala “oi” em diversas línguas e atende você com muita pompa, dizendo “May I help you, meu amor?” A feira é um universo de gente criativa fazendo de tudo pra vender seu peixe. E por peixe, entenda-se tomate, frango, uva, bucho, alface, melão, mandioca, kiwi, biscoito de vento, carrinho de plástico, boneca, chinelo, blusinha… e até peixe.

Feira é muito mais que burburinho generalizado e busca por preço baixo. (Aliás, para ter certeza deste último, é sempre bom ir até o final da feira e voltar, antes de colocar a mão no bolso). Feira é puro folclore. É uma confusão que – confesse – você até gosta. É o senhorzinho que conserta cabo de panela, é o ruído insistente do amolador de facas. Feira é passeio pra desligar do mundo e se ligar na geladeira, na mesa, no sabor. É degustação ao ar livre, tradição, convivência. É jogar conversa fora com a vizinha, é ver as crianças fazendo contato com o mundo da comida, das frutas e dos vegetais que vão pra casa. Feira é o garoto que carrega a sacola pra madame em troca de um troco. É comer pastel (de vento ou recheado) no japonês que não é japonês e colocar moeda na caneca do ceguinho – que também às vezes não é ceguinho e a gente sabe há anos, mas continua colocando.

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TEM BURGUÊS NESSA HISTÓRIA
Não se sabe ao certo quando surgiram as feiras, alguns historiadores dizem que foi em torno do ano 500 a.C. em civilizações como a árabe, romana, fenícia e grega. Mas também faz sentido pensar que esses aglomerados nasceram antes mesmo de saber que nasceram, provavelmente quando as primeiras tribos começaram a fazer escambos. Outra razão para o surgimento dessas áreas de livre comércio, por assim dizer, foi a necessidade de levar alguma vantagem com o excedente de produção, que justifica a ideia de troca. As partes barganhavam o que tinham sobrando pelo que não conseguiam produzir.

A Bíblia também faz referência às feiras. Notadamente no episódio de Jesus Cristo expulsando os vendilhões do templo em Jerusalém, narrado por Marcos (11:17). Trata-se de uma rara passagem onde o Filho de Deus é relatado em um acesso de fúria contra os comerciantes de então, que se dirigiam aos templos para vender seus produtos, aproveitando o grande fluxo de pessoas.

Quanto a nós, para fixar um ponto no tempo e espaço, vamos seguir a corrente que atribui a oficialização das feiras aos séculos finais da Idade Média (entre XI e XIV), quando elas se tornaram populares nas cidades envolvidas por muralhas, que os livros de história nos apresentaram como burgos. Anteriormente caracterizados como domínios dos senhores feudais, onde a produção era basicamente dirigida à subsistência, os burgos viram o nascimento das feiras a partir do comércio que ganhou corpo ainda maior no século XI, junto ao crescimento demográfico e ao surgimento da burguesia.

Daí pra frente, e com o surgimento do Capitalismo, não foi surpresa que o comércio se fortalecesse cada vez mais. E com ele, as feiras, que se tornaram imensos mercados ao ar livre, com produtos vindos de todos os cantos do mundo, principalmente graças ao impulso da expansão marítima dos séculos XV e XVI. As colônias europeias também começaram a receber as feiras livres por força dos movimentos de imigração, ganhando grande importância no crescimento e desenvolvimento das cidades, por conta não apenas da troca, compra e venda de mercadorias, mas também por ser um ponto de encontro, onde as pessoas das diversas comunidades e cidades próximas encontravam-se e confraternizavam em torno de interesses comuns, favorecendo a troca de culturas e experiências.

E POR AQUI…
…não foi diferente, uma vez que as feiras brasileiras também despontaram no período colonial. Apesar de não haver uma data cravada para a primeira feira estabelecida em solo brasileiro, há registros que dão conta do interesse de D. João III (então rei de Portugal) pelo assunto, através de ordens para a criação de feiras no ano de 1548, fomentando o comércio entre os portugueses aqui fixados e o povo. De início a ideia não vingou: todos já estavam mais do que acostumados a levar seus objetos e mercadorias para a praia, onde as negociações corriam soltas à luz do sol. Ninguém, portanto, deu muita trela para as ordens do monarca d’além mar. A coisa foi se intensificar mesmo no Século XVII, quando surgiram as feiras de gado e as chamadas Feiras de Mercado, semanais e bem parecidas com o modelo que temos hoje. E, dois séculos depois, já haviam se tornado patrimônio cultural brasileiro, instalando-se nas ruas das mais diversas cidades brasileiras, escrevendo sua história em milhares de barraquinhas.

COMO É HOJE
Nos dias atuais, as feiras mais famosas do Brasil são o Mercado-Ver-o-Peso, de Belém do Pará, conhecido como a maior feira livre não só do Brasil, mas também da América Latina; a Feira de Caruaru, em Pernambuco, ponto de forte atração turística; a do Pacaembu, na Praça Charles Miller, em São Paulo, conhecida pelas centenas de vagas de estacionamento, por ter barracas de pastéis premiadas entre as melhores da cidade e, curiosamente, por ser uma “feira silenciosa” (lá não tem gritaria); a de Arapiraca, tradicionalíssima em Alagoas desde a década de 1880; a feira do bairro Rebouças, em Curitiba, criada no Século XIX, e a Feira de São Joaquim, em Salvador (BA), a maior da cidade, com mais de 30 mil metros quadrados.

Além delas, como sabemos, existem milhares de feiras livres Brasil afora, que fazem as honras de dar continuidade à tradição e herança cultural. Mesmo competindo com lojas de rua, supermercados e shopping-centers, elas seguem mais vivas do que nunca, a despeito da concorrência, inclusive em bairros residenciais, onde os moradores convivem pacificamente com a barulheira que se inicia já na madrugada com a montagem das barracas e é coroada com ruas inteiras e garagens bloqueadas para o evento. A feira, esse caos saboroso, faz parte da vida da gente.

BARRAQUINHA DE CURIOSIDADES
• A origem da palavra feira vem do latim “feria”, que significa feriado, dia santo, e tem a ver com o episódio da Bíblia citado lá atrás. Como dissemos, os comerciantes aproveitavam o dia em que as pessoas iam à igreja para negociar o excedente da produção.

• Feirante tem dia, patrão? Tem, sim. O 25 de agosto foi escolhido por ser o dia da primeira feira “oficial” a ser realizada no Brasil. Em 1914, no Largo General Osório, em São Paulo. A data comemorativa foi estabelecida pelo prefeito da cidade à época, Washington Luis, que “instituiu” a feira naquele dia, através do Ato 625.

FEIRANTES FALANTES
Todos os feirantes são, por essência, criativos, e têm um vocabulário particular, composto de frases e palavras que às vezes até se tornam clássicas. Separamos algumas para você.

• Fim de Feira; horário em que os preços despencam. Línguas maldosas associam a expressão a coisas que passaram do ponto, o que não é necessariamente verdade.

• Xepa; a sobra que é vendida no Fim de Feira. Também serve para refeição (“bater uma xepa” significa comer) e já foi nome de novela. “Dona Xepa” foi sucesso da TV, com a personagem feirante vivida por Yara Cortes na década de 1970.

• Pode levar, que tá doce; se a expressão é clara, a intenção às vezes é escusa. Alguns feirantes passam água com açúcar e até adoçante na faca que corta a fruta que você experimenta.

• Isso aqui tá um açúcar, meu bem; geralmente a fruta muito doce (e às vezes aquela que o feirante passou a faca adocicada).

• É dez, é dez; serve tanto para preço do quilo de algum produto, quanto pra exaltar a qualidade do artigo. Tudo isso soma-se a expressões das mais variadas, usadas para atrair os passantes, inclusive usando o popular “xaveco”: “Meu amor, vai levar o quê, hoje?”; “Pode chegar, madame, olhar não paga”; “Esse tá fresco, mozão”; “Barato, barato, freguesa”; “Vem, que tá fresquinho”; “Pega no melão, que aqui ele tá bom”; “Aqui é barato, o marido da barata”, “Tem promoção e pra mocinha” e muitas outras.

* “IMAGINE ALL THE PEOPLE” – TRECHO DE IMAGINE, DE JOHN LENNON (MAS ACHAMOS QUE VOCÊ JÁ SABE)
** “IMAGINE”, COMO DITO ACIMA, FOI COMPOSTA POR JOHN LENNON EM CARREIRA SOLO E NÃO NOS BEATLES.

Texto: Paulo Samá

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