No Século XIII, uma cozinheira, um serviçal ou algum outro nativo anônimo da Idade Média, veio com a sugestão de colocar placas de madeira embaixo dos pratos. Que vinham carregados de comidas fumegantes, pelando, recém-saídas de lareiras e fogueiras. A principal função do objeto, então batizado “charger” (“carregador”, “portador”), era proteger os comensais do calor, possibilitando que se arrastasse a tal prancha sem queimar as mãos. Além de preservar o tampo do móvel e a toalha, se houvesse uma.

A rústica peça foi precursora do que conhecemos como sousplat (“sob o prato”, em francês). É o prato de baixo largo, ornamental, sobre o qual repousam os pratos que serão usados na refeição. Ele resguarda a toalha dos respingos de sopas, farelos, grãos fugitivos e demais elementos escorregadios. O utensílio ganhou notoriedade a partir do Século XIX, e ao contrário do ancestral “charger”, servia para evitar que o prato deslizasse na mesa. É o “bajoplato” espanhol, o “service plate” americano e inglês. Socialmente, foi adotado para impor protocolos e integrar refinadas regras de mesa, separando a nobreza legítima dos novos burqueses ricos. Uma extensão do conceito de “etiqueta”, lançado e apreciado na corte do Rei Sol, Luís XIV.

Com cerca de 35cm de diâmetro, a base redonda seria empregada somente em refeições completas, com entrada e prato principal, mas sempre deveria ser retirada antes da sobremesa (costume seguido até hoje). Isso, independentemente do tipo de serviço, “à la française” ou “à la russe”. Esta, aliás, foi uma das maiores guerras já travadas às távolas: entre o modo francês e o estilo russo. A grande diferença é que, no primeiro, todas as iguarias são apresentadas e oferecidas de uma só vez; e no segundo, os itens são servidos em sequência. Como quase ninguém gosta de comida fria, este último venceu a batalha, no mundo e na França também.

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Em comum, os dois serviços têm o sousplat. Obrigatoriamente posicionado antes que os convivas deem o ar da graça. Serve para demarcar os lugares e preencher o espaço que nunca pode ficar vazio. Afinal, não é de bom tom deixar a pessoa que chega fitando aquela mesa desnuda, fria e sem vida. E o sousplat permanece ali a cada troca de prato, fiel, jamais deixando a área desguarnecida. Isso, evidentemente, acabou por transformá-lo numa espécie de centro das atenções, de ponto focal do ambiente da refeição.

A NOVA ETIQUETA: SER FELIZ.
Não é à toa que o apetrecho chamou para si o papel decorativo em acontecimentos especiais, com seu toque de classe moldado nas mais diversas matérias-primas e cores. Madeira, porcelana, palha, plástico, rattan, mdf, vidro, resina, crochê. A escolha depende da categoria do evento, local e nível de formalidade desejado.

Ao ar livre, recomendam-se os confeccionados com elementos mais leves e rústicos, em sintonia com a natureza; para as reuniões mais pomposas, prata ou inox; sousplats mais delicados e vulneráveis, devem repousar sobre uma malha de renda, para não saírem deslizando, chocando-se com os vizinhos; e podem, ainda, combinar com os outros acessórios e enfeites da mesa.

Um belo sousplat, e uma mesa bem posta, fazem toda a diferença na festa, no jantar, contribuem para o sucesso do evento. E a finalidade deste artigo requintado e versátil no dia a dia doméstico, como é que fica?

Bem, a etiqueta já não tem um peso tão grande na sociedade contemporânea. Desde mais ou menos os anos 1990, o prato de baixo vem ganhando mais popularidade e menos cerimônia. Em tempos de “slow food” e “comfort food”, da valorização da essência, o sousplat entra como aquele componente de bom gosto que ajuda a promover a harmonia da roda e o bem-estar do momento. Numa reunião de amigos, numa hora reservada a dois, até num lanche sozinho. Basta a toalha de mesa em tom neutro, e tudo certo, equilibrado, lindo.

Só que, em vez do sousplat de âmbar, será um outro, feito de vime ou disco de vinil reaproveitado.

Texto: Fábio Angelini

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