A unificação da Língua Portuguesa já foi oficialmente sacramentada e está em vigor, para todos os efeitos. Mas como eliminar as diferenças, sutis ou não, de palavras e expressões tão arraigadas na dialética popular, oral e escrita? Não há como. Elas nasceram lá nos tempos da expansão territorial ibérica, e foram se agrupando e incorporando em oito dialetos geográficos, em oito países colonizados. O novo modo de falar de cada lugar, fora da pátria-mãe, foi chamado de “criolo”.

Por mais que alguns teimem em nivelar idiomas amalgamados por características culturais particulares, não adianta. O português de Portugal, oriundo do latim vulgar dos romanos, não será igual ao do Brasil. Nem nas ruas, nos livros, nos pensamentos. Menos ainda nas mesas. Aqui será sempre “bolinho de bacalhau”, lá será sempre “pastel de bacalhau”.

A “torta mista” do Alentejo, com queijo e fiambre, ou o “misto quente” tupiniquim, são ótimas escolhas, mas não são gêmeos, apenas aparentados. Nos balcões daqui entramos na fila para pedir “chope”; no além-mar, aguardam na bicha para pedir “imperial”. Um sanduíche tipicamente lusitano, o “perigoso na racha”, sequer tem seu correspondente entre nós. É preparado com fígado acebolado, assentado dentro de um pãozinho francês aberto longitudinalmente.

“Bola de Berlim” não é um marco escultural urbano ou esportivo, é um doce, é um “sonho” de padaria recheado com creme de ovo. E pelo que se sabe, o “frango no churrasco à portuguesa”, ou “frango piri-piri”, até hoje não encontrou seu par nas cozinhas brasileiras, apesar da imensidão do país e da profusão culinária incomparável. Piri-piri é o molho picante que mistura malaguetas vermelhas e verdes, alho, louro, cebola, casca de limão, sal e azeite. Pode virar piriri entre os abusados. A receita também vem acompanhada de batatas fritas, salada e, por vezes, arroz.

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O nosso guapo e galopante “bife a cavalo”, com o ovo frito apeado em cima, responde pela alcunha de “bitoque” em Lisboa e no Porto. Em comum, é servido no prato, com outras guarnições, ou dentro do pão, ensanduichado.

A vasta e tradicional confeitaria portuguesa teve grande influência na formação das nossas especialidades açucaradas. Uma das menos conhecidas talvez seja a “barriga de freira”: um pastelzinho elaborado a partir de ovos, amêndoas e folha de hóstia, tão branco quanto seria, supostamente, o corpo de uma irmã enclausurada em seu hábito. De alvura bastante semelhante a um outro exemplar típico da terrinha, é aquele conhecido como “toucinho do céu”. Quitute doce, por incrível que pareça. Leva ovos, banha, açúcar, leite e coco, e dizem que foi criado nos conventos, daí o batismo.

Da mesma forma, desceu dos céus o irrecusável bolinho de chuva, a inundar de saliva e desejo as bocas nervosas da larica. Este, está lá e está cá.

Texto: Fábio Angelini

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