Hoje em dia, padaria é sinônimo de conveniência, onde encontramos quase de tudo. E é curioso como essa evolução toda ocorreu rapidamente. Esses “quase magazines” eram sequer imagináveis há poucas décadas. A padaria era apenas a padaria. No máximo a padoca. Quem era garoto ou garota naquele tempo, bem se lembra de que a presença da padaria no dia a dia raramente passava de um pingado de manhã antes do trabalho.

Para outros, representava a obrigação, inclusive enfadonha para as crianças, de comprar pãezinhos e receber algumas balas de troco do “seu Manuel”, clássico português que ficava no caixa, com o não menos clássico lápis atrás da orelha. Quando muito, a experiência estendia-se à compra de um litro de leite daqueles de saco plástico e umas 100 gramas (errar no gênero da palavra também era comum) de presunto ou queijo. E, vez por outra, um sorvete liberado pela mãe, como recompensa para o diligente filho que desgrudava da TV e, resignado, ia buscar os pãezinhos no “seu Manuel”.

MESOPOTÂMIA E EGITO
Indo para trás no tempo, fica ainda mais curioso imaginar que toda essa cultura de comodidade, de ponto de encontro, talvez só exista hoje porque há “provavelmente” uns 12 mil anos surgia na Mesopotâmia (hoje, Iraque) uma espécie de massa rudimentar feita a partir da cevada, que foi um dos primeiros cereais que o homem plantou em sua história. Colocamos aspas no “provavelmente”, porque em 2010 andaram descobrindo sinais de amido em pedras de moer que teriam mais de 30 mil anos, ou seja, pode ser que o pão seja ainda mais antigo.

De qualquer forma, os mesopotâmicos logo começaram também a plantar trigo e fazer farinha, que era inclusive misturada com nozes, resultando em pães melhores. Mesmo assim, aqueles primeiros tipos tinham um gosto bem distante daquela coisa quentinha e cheirosa, que a gente muitas vezes não resiste e abre o saquinho já no meio da rua, pra ir beliscando até em casa. Na verdade, eram bem ruinzinhos: duros, amargos, achatados e secos demais. Por isso, antes do consumo eram deixados de molho ou lavados muitas vezes em água fervente, pra reduzir o amargor, e depois eram expostos ao sol para secar.

Pouco tempo depois, começaram a ser assados em pedras aquecidas e também debaixo de cinzas. Estas técnicas foram utilizadas até por volta de 7000 a.C., quando os egípcios, sempre inovadores, começaram a usar fornos de barro para fabricar seus pães. Aliás, foram eles também que começaram – embora alguns historiadores insistam que o fermento existe desde a pré-história – a usar a fermentação pra fazer pão. O processo, para quem não conhece, ocorre quando micro organismos alimentam-se do amido presente na farinha, liberando CO2. O gás carbônico tenta então, trespassar a massa do pão, fazendo com que cresça.

Com o fermento e o forno de barro, o pão ficou mais saboroso e ganhou fama entre os egípcios. E a popularização do alimento deve ter sido mesmo grande, pois o pão era usado inclusive como parte do pagamento dos salários dos trabalhadores. E a outra parte também não deixava a desejar: dizem que um dia de labuta na época era pago com três pães e duas canecas de cerveja, o que seria uma festa para os bebedores atuais.

sociedade-da-mesa

Seja como for, uma equipe de arqueólogos americanos parece ter comprovado esta importância do pão em 2002. Eles dizem ter descoberto o que teria sido a padaria mais antiga da história, no Oásis de El-Kharga. Acredita-se que o local, datado de 3000 a.C., era usado para produção do chamado “pão do sol”. Foram encontrados diversos utensílios usados na produção de pães, incluindo forno, bandejas etc.. Isso contesta outra teoria, a qual diz que a primeira comercialização de pães surgiu muito tempo depois, em Roma, no ano 140 a.C..

QUENTINHO A TODA HORA E EM TODO LUGAR
Ainda assim, foi em Roma que as padarias começaram a aparecer pra valer. Foi lá que surgiram a primeira escola de padeiros e até uma associação de classe(!) que reunia as padarias e panificadores. Era um bom negócio para os padeiros associados, que tinham isenção de alguns impostos e gozavam de status de celebridades nos círculos sociais. Isso mostra a importância do negócio do pão romano na época, que já contava com cerca de 70 receitas de pães.

Com a queda do Império Romano, no entanto, a coisa não ia bem pra quem fabricava e vendia pães. O negócio só viria a decolar novamente no século XII, quando surgiram novas padarias nas cidades e burgos da época. Mesmo assim, tiveram de dar adeus aos privilégios e mordomias. Até porque o status de especialista já não era para uns poucos. Com as escolas de panificação e a experiência transmitida entre gerações, a receita, que já havia se espalhado pela Europa a partir da Itália, França e Áustria, onde o rei Henrique II criou até tabela de escalas e medidas para o pão, começava a ganhar o mundo, aportando em outros continentes.

Aqui pelos nossos lados, o pão chegou por volta de 1835, obviamente via Rio de Janeiro, nossa capital na época. Isso já mostra, em parte, porque vemos (ou víamos) tantos portugueses no comando das panificadoras. Muitos de nossos colonizadores imigraram para cá após as Cruzadas, a fim de recomeçar a vida, inclusive nas lavouras. Isso, somado ao plantio do trigo, explica o surgimento e o crescimento do número de portugueses abrindo seu próprio negócio na época. Entre os empreendimentos, padarias e mais padarias surgiram sob a batuta do seu Manuel, do seu Zé, do seu Joaquim, da D. Maria José, da D. Delfina etc.

O fato é que nosso pãozinho chegou para ficar e está aí até hoje, presença fundamental do dia a dia. Seja no pingado da padaria, no pão com manteiga ou margarina do café da manhã, no sanduba do lanche da tarde e até como acompanhamento nas refeições.

A evolução no preparo da receita ajudou muito: em 1872, surgiram na Inglaterra os primeiros fornos a gás e, em 1901, o forno elétrico, que proporcionou um verdadeiro salto na capacidade de produção das padarias. Já de 1915 em diante, as padarias só fizeram evoluir, com fornos, equipamentos especiais para aprimorar a produção e, hoje em dia, até drones, que alguns estabelecimentos vêm testando para entregar pão quentinho direto nas casas dos clientes, evitando assim a tradicional ida à padaria.

…E CHEGA A MODERNIDADE
Quer frios? Tem na padaria. Manteiga, leite, suco, refrigerante? Também tem. Iogurte, patê? Pode apostar. Frango assado no domingo? A padaria tem uma televisão de frango ultramoderna. Vai esfriar à noite? O buffet de sopas da padaria é imperdível. Massas, carne assada? No fim de semana a padaria faz às vezes de rotisserie. Refeições completas? Durante a semana, o self-service da padaria compete com os quilinhos do entorno. E no fim de semana, almoçar lá vira opção de passeio.

Tem por quilo e à la carte, e algumas têm até “brinquedão” para as crianças menores, com monitor e tudo, e circuito fechado de televisões espalhadas pelos ambientes, pra você não perder os petizes de vista. Quer mais? Tem mais. Vai a uma festa e esqueceu de comprar presente? A padaria tem bombons finos e bem gostosos. A festa é de criança? Se bobear, tem até bichinho de pelúcia e outros brinquedos. Faltou carvão para o churrasco? Corre pra padaria. Acabou a pilha do controle remoto e o seu marido está em crise de abstinência? Lá tem pilha também. A padaria tem de tudo e de tudo tem. Até pão.

Curiosidades do “Seu” Manuel

• Por que “pão francês”? Na verdade, nosso pão francês nada tem a ver com a França. A origem do nome está lá no comecinho do Século XX, quando os brasileiros que iam à França voltavam maravilhados com o pão de lá. E que na verdade é o que conhecemos hoje como baguete. Cada um que de lá voltava descrevia o tal pão de um jeito para os padeiros brasileiros. Deu no que deu: nossos padeiros criaram seu próprio “pão francês” e a referência do nome ficou.

• E falando em nomes, aqui no Brasil, o pão francês muda de nome de acordo com o local. Entre outros nomes, na Baixada Santista (SP), o pessoal pede uma ou mais “médias” na padaria; na capital de São Paulo, é só “pãozinho”; no Ceará, é chamado de “carioquinha”; em Sergipe, “pão de Jacó”; no Pará, “pão careca” e no Rio Grande do Sul, nem tente pedir algo diferente de “cassetinho”.

• O Dia do Padeiro é comemorado em 8 de julho desde o ano de 1333. Uma fome terrível assolava Portugal naquela época. Conta-se que D. Isabel, a rainha, havia vendido todas as suas joias e comprado pães para distribuir aos pobres anonimamente, pois tinha receio da reação do marido, o Rei D. Diniz. Porém, naquele 8 de julho, o rei a pegou no flagra. A rainha escondeu os pães nas dobras de seu avental, mas o desconfiado rei perguntou o que havia por baixo. D. Isabel, apavorada, respondeu que eram rosas. O rei pediu que levantasse o avental e, para surpresa de todos, caíram mesmo pétalas de rosas. Com isso, o 8 de julho comemora também o Dia de Santa Isabel, Padroeira dos Panificadores.

Texto: Paulo Samá

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!

 

Vinho RoséPowered by Rock Convert