Quase tudo na civilização ocidental teve origem na Grécia Antiga. Até mesmo o acento circunflexo, esse signo em forma de crescente, arqueado, sobre a vogal. Nasceu durante o período helenístico, do encontro literal entre o acento agudo e o grave.

Ainda causa uma boa confusão (e vai causar) a reforma ortográfica que unificou a língua portuguesa escrita, falada correntemente em dez países. Uma das regras que necessita ser melhor digerida é aquela que extinguiu o acento circunflexo das palavras terminadas em “oo”. Verbos como “moo” e “coo”, por exemplo, causam um pouco de enjoo em estudantes e professores, assim sem o chapeuzinho.

Por outro lado, a função diferencial sobreviveu somente para distinguir o verbo “pôr” da preposição “por”, e as flexões “pode” de “pôde”. Até a pera o perdeu, o que não chega a ser problema: o símbolo servia para discriminá-la da preposição arcaica “pera”, que nem seu avô utilizava mais. Curiosamente, uma das primeiras aparições do circunflexo no idioma português data de 1576, na “Orthographia da Lingoa Portuguesa”, de Duarte Nunez de Lião. Nela, o autor denota seu emprego apenas para discernir palavras homógrafas, de grafias idênticas, com pronúncias e significados diversos.

O circunflexo nacional conserva a sua função principal de marcar as vogais tônicas fechadas “e” e “o”, bem como a acentuação tônica de “a” seguida de “m” e “n”. Como em “você”, “êxtase” e “instantâneo”. Já na língua francesa, ele também serve para indicar a supressão da letra “s”: “tête” (teste), “hôpital” (hospital).

CIRCONFLEXE GASTRONOMIE

Os galicismos deram uma parcela substancial de contribuição ao vocabulário culinário brasileiro, utilizando o circunflexo como cobertura. Com base na pronúncia, o “purée” francês foi aportuguesado, aceito e carimbado como “purê”. A maioria gosta muito de ler no prato: batata, mandioquinha, cenoura, ervilha. E pode até confundir com o chamado “burê”, conhece? Essa é invenção típica nossa, uma espécie de sopa (ou mingau) preparado com milho verde, servido com limão e flor de abóbora.

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Outro representante líquido é o “consomê”, do francês original “consommé”, o caldo de carne ou frango com legumes, quente ou frio, apresentado em pequenos recipientes de louça (“consommé”, ou “reduzido pelo cozimento prolongado”).

Aliás, de pratos com texturas assim, cremosas, inspiradoras e encimadas por circunflexos, nossos dicionários e livros de receitas estão cheios. Patê (“pasta”); pavê (de “pavage”, “pavimento”); suflê (“soufflé”, “soprado”); glacê (“glacé”, “coberto de gelo ou película transparente de açúcar”). O caldo ganha consistência com bifes a rolê e fricassês (de “fricassée”, “carne e legumes picados cozidos em molho”).

Agora, se você continua vendo por aí o popular “petit gâteau” sem acento, está errado. Embora pareça incorporado aos nossos hábitos, não aparece em nossos glossários oficiais. Ainda não. Nem “crêpe”, “entrecôte” e “croûton”.

Ao generoso bufê francês, adicionam-se mais elementos de outras procedências. Tâmara (“palmeira alta”, em árabe), macadâmia (nomeada na Austrália pelo cientista John Macadam), pêssego (chamado pelos romanos de “malum persicum” ou “fruto da Pérsia”, que passou a “pessicum”, “pessica” e “pesca”). E temos vôngole, nêspera, amêndoa, almôndega…

Quanto ao dendê, alguém pergunta. Veio de “ndende” (“palmeira”), do dialeto africano quimbundo. Mas se perguntarem do poraquê, cuidado. É um peixe elétrico da Amazônia e esse não se come. Por quê? Seu nome em tupi-guarani quer dizer “aquele que coloca você pra dormir”.

Texto: Fábio Angelini

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