/Por Daniel Salles

Quando deixou seu país para dirigir a Chandon do Brasil, em 1976, o enólogo chileno Mario Geisse não estava nada convencido da vocação da Serra Gaúcha para os espumantes. “Não provara nenhum tinto da região superior aos do Chile e imaginava que, com os espumantes, não seria diferente”, lembra ele, responsável pela primeira safra da vinícola, instituída três anos antes e pertencente à Moët & Chandon.

Em 1979, com uma visão totalmente diferente, arrematou 3 hectares de terras para plantar uvas e vendê-las a produtores de vinhos do gênero. O negócio deu origem à vinícola Geisse, a única da América do Sul a ter um rótulo incluído no livro 1001 Vinhos para Beber Antes de Morrer, de Hugh Johnson, o Cave Geisse Terroir Nature. “Foi uma tremenda surpresa descobrir o potencial para a fabricação de espumantes”, reconhece o chileno. E mais: “Em minha opinião, depois de Champagne, na França, a melhor região do mundo para produzi-los é a Serra Gaúcha”.

Negócios crescentes

As exportações de rótulos nacionais espelham o entusiasmo do produtor. No ano passado, o Brasil vendeu mais de 347 mil litros mundo afora, movimentando 1,2 milhão de dólares. Em 2008, o volume de bebida exportado até foi maior, de 355 mil litros, mas que gerou apenas 548 mil dólares, o que comprova a valorização dos espumantes nacionais. Um recuo para 1998 mostra quanto o setor evoluiu. Naquele ano, só 3 mil litros deixaram o país, o equivalente a uma receita de pouco mais de 6 mil dólares. Os dados são do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Tamanho da sede

As importações ainda dão um banho nas exportações. No ano passado, desembarcaram no país mais de 9 milhões de litros de espumantes estrangeiros, correspondentes a 29 milhões de dólares. Com seus custosos champanhes, a França liderou o ranking de transações, com 12 milhões de dólares. As posições seguintes foram ocupadas pela Itália, com seus proseccos (5,9 milhões de dólares), e pela Espanha, com suas cavas (5,7 milhões de dólares). Historicamente, as compras de rótulos estrangeiros seguem em alta. Em 2008, importamos 3 milhões de litros de espumantes, a um custo de 20 milhões de dólares.

Se observada como uma taça meio cheia, a balança comercial indica quanto os produtores nacionais podem crescer só contando com o mercado interno. O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) confirma nossa sede pelos produtos do gênero. Segundo a entidade, o público interno consumiu 12,6 milhões de litros de espumantes no ano passado – em 2008, foram 7,8 milhões de litros. As cifras só levam em conta os rótulos de vinícolas do Rio Grande do Sul.

Ingrediente canarinho

O sucesso dos exemplares da Serra Gaúcha deve-se, naturalmente, ao terroir. Ele favorece a produção de uvas perfeitamente maduras, sem amargor algum, com boa acidez e baixo teor de açúcar. Essa última característica propicia a formação de pouco álcool na primeira das duas fermentações a que todo espumante, tirando os moscatéis, deve ser submetido – na segunda, a concentração alcoólica é facilmente corrigida.

Produtores que não dispõem de uvas com as mesmas condições costumam apelar para frutos não tão maduros. “É uma opção que vai afetar a delicadeza do produto final”, garante Geisse. A alta dos espumantes motivou a vinícola Salton, de Bento Gonçalves (RS), a lançar o Giornata 140 no ano passado. Elaborado pelo método charmat, o prosecco é mantido em contato com as leveduras por cinco meses depois da segunda fermentação.

É o primeiro item da marca-conceito Domenico. Para ampliar as vendas no país, a Peterlongo, de Garibaldi (RS), estreou seu e-commerce no início do ano. Dizer que ela é a que mais tem condições para brigar com os espumantes da França não é exagero. Em atividade desde 1915, a vinícola registrou a produção de champanhes no Brasil dois anos antes, o que faz dela a única do país a poder usar a denominação. Os franceses, que instituíram a Appellation d’Origine Controlée de Champagne só em 1927, tiveram de engolir a perspicácia brasileira.