/ Por Artur Tavares

Decidida a entrar de cabeça na profissão, ela foi conhecer o mundo. Entrou em um avião com destino à Alemanha. De lá, trabalhou em uma vinícola suíça, até passar uma temporada na meca da vinificação, o sul da França.

De férias no Brasil, foi aprender português na Associação Brasileira de Sommeliers, e então conheceu Felipe Bronze. Do casamento de ideias ficou para trabalhar no estrelado Oro.

Apaixonou-se pela cidade e pelo chef. Nove anos depois, comandando também um programa no canal GNT (Globosat), Cecília é hoje uma das sommelières mais respeitadas do país.

Você é argentina, nasceu em Mendoza. Vivia a influência do vinho desde a infância?

Em casa tínhamos videiras, como quase todas as casas em Mendoza. Desde muito pequena, tentava fazer vinhos com essas uvas! Claro que não dava muito certo, mas era como o Instagram da época… Eu mostrava para meus amigos, falava para outras pessoas, pedia dicas de como fazer melhor. Sobretudo, era mais divertido do que gostoso!

Mendoza vive um universo particular dentro do mundo do vinho. Como foi, para você, desbravar outras regiões importantes da vinicultura aqui na América do Sul e no resto do planeta?

Tem sido delicioso e surpreendente conhecer outras regiões. Viajando, descobri que a cultura do país dá o próprio sotaque ao vinho. Por isso, cada vinícola, cada região, cada país está cheio de filosofias. Adoro vinhos, mas me encanta conhecer as pessoas que colocam tudo o que acreditam em uma garrafa.

O Oro tem gastronomia desafiadora, um menu com bastante etapas, de sabores e ingredientes bem variados. Quais são os critérios para criar a harmonização perfeita?

Sou argentina, mas não sou tão pretensiosa. Ou seja, “harmonização perfeita” talvez seja muito forte. Acredito em casamentos que tentamos fazer entre o vinho e a comida, nos quais procuramos dar destaque a um determinado sabor, aroma ou sensação. Mostrar vinhos, países menos comuns, mas muito benfeitos. Em algumas harmonizações, sinto que o vinho funciona como tempero. Em outras, para balancear. Outras vezes, precisamos limpar o paladar. Uma mistura da parte técnica e da parte prática, intuitiva. Minhas escolhas são aprovadas ou desaprovadas todos os dias!

 

Neste ano, surgiu um novo desafio: abrir uma filial do Pipo em São Paulo. A experiência de vinhos é diferente entre cariocas e paulistas?

Devo confessar que ainda estou aprendendo sobre os paulistas, mas minha carta é diferente. Paulistas são capazes de esperar por horas na fila. Então o vinho tem de ser muito bom, já que dá tempo para degustar e pensar bem em relação a ele.

 

Você é bastante jovem, e já é uma das sommelières mais premiadas e respeitadas do Brasil. Ao que deve o reconhecimento que tem hoje?

Adoro trabalhar, sou formiguinha. Também devo esses reconhecimentos às pessoas que acreditaram em mim! De meu lado, não gosto de mediocridade, então vou com tudo. Trabalho muito, estudo muito e estou rodeada de pessoas que me ajudam incondicionalmente.

 

E, mesmo com tamanho reconhecimento, você está sempre se atualizando: tem diplomas de escolas mundiais renomadas, como a Wine and Spirits School of London e a French Wine Scholar. Estudar é tão importante quanto experimentar novos vinhos a todo momento?

O mundo do vinho muda. O vinho ensina que, quanto mais estuda, menos você sabe. Para alguns pode ser frustrante, mas para mim é estimulante. Faz nosso ego se manter bem quietinho. Deixa minha curiosidade sempre aguçada.

Acredito em casamentos que tentamos fazer entre o vinho e a comida, nos quais procuramos dar destaque a um determinado sabor, aroma ou sensação.

Hoje, há tendências mundiais que olham para o consumo de vinhos mais jovens e para aqueles feitos de maneira mais natural possível. Trata-se de um consenso ou de uma nova maneira de beber vinho para uma parcela dos consumidores?

Alguns incríveis produtores demonstram fazer vinho de forma menos intervencionista, com muito talento. Acho que é um movimento bom, para pressionar os grandes produtores a ter mais consciência sobre a natureza. Também acredito que passa por uma moda, e muitos dos vinhos sem tanta intervenção são muito ruins. É preciso saber o que se está fazendo e como se está fazendo.

Por muito tempo, a profissão do sommelier era vista como bastante masculina. Hoje, em todo o mundo, há sommelières tão ou mais renomadas que seus pares. Você já enfrentou barreiras?

Já houve diversas barreiras. Eu lembro que fiquei muito chateada da primeira vez que fiz uma harmonização e um jornalista falou “a simpática Cecília harmonizou o jantar”. Eu perguntei para o chef: “Mas ele achou que a harmonização foi boa ou ruim?”. Logo depois, fui entendendo a gentileza, mas gosto de me pôr à prova e não levar vantagens ou desvantagens por ser mulher.

Você comanda o programa Um Brinde ao Vinho (no canal GNT) há alguns anos. Como é transportar o universo da bebida para a televisão? Qual o segredo para passar um conhecimento tão aprofundado, por vezes complicado, para uma audiência tão distinta?

Talvez ser de Mendoza me ajude muito. Lá todo mundo fala de vinho com intimidade. Amo fazer o programa, mas é um grande desafio, e vou tentando me superar.

 

Você tem vinhos favoritos? Pode falar sobre alguns deles?

Tenho, sim! Adoro Château Musar, um vinho do Líbano cheio de sotaque, complexo e surpreendente. Quando abro um, eu me emociono. Gosto dos brancos de Vina Tondonia, da Espanha, feitos como antigamente, com muita personalidade. E me intrigam os vinhos laranja de Gravner, da Itália, e da Era dos Ventos Zanine, daqui do Brasil. Sobretudo eles são vinhos com alma, por isso me encantam!