/Por Rafael Tonon

Poucos vinhos no mundo carrega tanta história por trás de sua produção como o vinho do Porto. “Criação portuguesa que os ingleses descobriram e fizeram o mundo todo conhecer”, como explica a Larousse do Vinho. O vinho fortificado de corpo estruturado e de cor única foi, por exemplo, o primeiro a ser engarrafado no mundo, em 1708. E depois, em 1870, o primeiro a ganhar rótulo.

Também foi ele que ajudou a difundir o conceito de D.O.C. (Denominação de Origem Controlada) que depois se espalhou pela Europa. Ainda se tornou o ouro líquido português, sendo indispensável para a economia do país no decorrer dos últimos séculos. Talvez por isso o Porto tenha sido sempre visto como um vinho cerimonioso, para ocasiões especiais, apreciado principalmente por quem conhece a fundo a bebida. Um vinho para avançados, por assim dizer.

Ou “de cavalheiros”, como se diz ainda em Portugal (ainda porque, historicamente, era um vinho da realeza, consumido por pessoas de alto poder aquisitivo). O fato é que sua imagem nunca esteve tão rejuvenescida, conduzida principalmente por uma nova geração de bebedores que aprenderam que tradição e diversão podem ser palavras conjugadas na mesma taça – até mesmo quando se trata de um vinho histórico.

Muito além do tinto

O grande fator de renovação do Porto aconteceu por conta da popularização das versões branca e rosé do vinho, que caíram de vez na graça dos jovens. À medida que o Porto tonic (a versão lusa do gim-tônica) passou a ser mais consumido, os novos entusiastas perceberam que o consumo não precisava estar restrito a digestivo para acompanhar um charuto, por exemplo.

“Os mais jovens não tinham tanto interesse nos vinhos do Porto mais clássicos, como os tawny e vintage, que são vinhos mais complexos, pesados. Com a nova tendência dos rosés e dos brancos, o Porto encontrou outro público”, explica Thomas Domingues, sommelier da Cave 23, em Lisboa.

Aos 29 anos, Domingues também defende que novos profissionais de vinho, assim como ele, são importantes para mostrar vertentes inéditas da bebida. “Há uma nova geração de sommeliers que se arriscam a fazer brincadeiras com o Porto inclusive em harmonizações”, diz ele, que é fã assumido dos Portos brancos e busca incluí-los cada vez mais nas harmonizações. “O Porto não é um vinho apenas para sobremesas, e pode ir bem com peixes e até carnes”, ressalta.

Outro fator importante para impulsionar o consumo da bebida foi a profissionalização do serviço. Por muito tempo, o Porto era servido em temperatura ambiente, o que fazia com que só se sentisse o álcool. “Hoje em dia, já há muito mais informação e mais gente servindo o Porto na temperatura certa, o que ajudou muito a que mais pessoas gostassem do vinho”, afirma. Mas nada se compara, segundo ele, à contribuição que a coquetelaria teve para atualizar sua imagem.

Conquista das barras

Além do Porto tonic, uma nova leva de coquetéis de assinatura tem surgido com o vinho em preparações mais originais e criativas. Ainda que já fosse comum em alguns drinques, o Porto passou a ser ainda mais usado nos bares lusitanos, e começa a ganhar mais espaço também nas barras (balcões, no português de Portugal) do mundo.

“É um vinho que tem um potencial enorme para a elaboração de coquetéis”, afirma Nelson Matos, head bartender do The Royal Cocktail Club, na cidade do Porto (Portugal). “Além da estrutura, podemos encontrar notas de madeira, frutas vermelhas, cítricos, baunilha e nozes na vasta variedade de tipos de vinho do Porto”, diz.

Para Matos, eles são muito interessantes para criar drinques complexos. Um hit em seu balcão é o candlelight, em que o bartender mistura uísque Cardhu Gold, vinho do Porto ruby, licor Grand Marnier e bitter de chocolate com malagueta. “Mas, como adoro a bebida, estamos sempre criando combinações diferentes”, diz. De acordo com o ele, os drinques à base de vinho do Porto representam uma moda recente que ajuda a olhar para a bebida embaixadora de Portugal de uma forma completamente diversa.

Do ponto de vista comercial, representantes e produtores já começaram a perceber o potencial que a coquetelaria vem demonstrando nas vendas: a exportação de vinhos portugueses aumentou 3,3% (806 milhões de euros) em 2018, sendo que os vinhos da região do Porto/Douro representam 43% desse volume.

Desde 2011, considerado um ano de virada para a produção dos Porto, a produção tem tido um crescimento anual sensível: já são mais 13 milhões de litros, segundo o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP). Com mais taças – e agora também com novos copos para encher –, o tradicional vinho produzido há séculos nas encostas do Rio Douro parece ter encontrado sua fonte da juventude para durar por muitos mais anos no gosto do consumidor.