/Por Tânia Nogueira

Quando chegou à Itália, em 2010, aos 25 anos, vendido pelo São Paulo Futebol Clube para o time de Lazio por 11 milhões de euros, o jogador de futebol pernambucano Anderson Hernanes de Carvalho Viana Lima era abstêmio e achava que vinho era suco de uva misturado com álcool.

Seis anos mais tarde, de volta ao tricolor paulista, Hernanes trazia consigo várias caixas com os rótulos de sua vinícola, a Ca’ del Profeta – vinhos que passou a vender pessoalmente pelos restaurantes que frequentava. Para a surpresa de alguns, as bebidas eram ótimas e o vinhateiro entendia bastante do assunto.

Quem acompanha a carreira do atleta não estranha o fato de ele ter assimilado tão bem conceitos complexos como o de terroir ou de discorrer com fluência sobre as várias denominações de Barolo, por exemplo. O apelido de profeta refere-se justamente à habilidade dele com as ideias e as palavras.

O jogador, que começou no futsal em Recife, sempre chamou a atenção por causa da inteligência. O vinho, que veio apenas como paixão, virou um projeto de futuro. Está montando também uma estrutura de enoturismo no local.

Já conhece o ramo: é proprietário da Pousada Corveta, em Fernando de Noronha, e da enoteca Luogo Divino, em Turim, na Itália. Coloca empenho no que faz. Produz barberas que, no início, foram vinificados pelo mestre dessa uva, Giovanni Coppo. Tem ainda dois brachettos e dois grignolinos, típicos da região, produzidos com muita elegância, assim como os passes dele em campo.

Por que decidiu fazer vinho?

Quando comprei o terreno, em 2015, era para ser só minha casa. Eu me encantei com a geografia. Eram colinas com vinhedos, um lugar espetacular. Os parreirais do antigo proprietário estavam em plena produção. Resolvi dar continuidade e a casa transformou- se num lugar multiuso, com uma parte para a produção dos vinhos, outra para um restaurante e outra para alguns quartos de hóspedes. Quero fazer algo tipo Relais Châteaux. Mas será também minha casa. Por isso que o nome do vinho é Ca’ del Profeta, Casa do Profeta.

Por que em Asti, no Piemonte?

Pensei: “Não posso comprar em La Morra, em Monforte, que está a 500 metros de altura. Depois de chegar do Brasil, 11 horas de viagem, vou ter de viajar duas horas e meia, pegar curvas sinuosas”. Em Montaldo Scarampi, estou a uma hora e meia do aeroporto internacional de Milão, a duas horas e meia da França, a duas horas e meia da Suíça, a uma hora e meia da praia.

A uva barbera foi a única opção?

Ali é a terra da barbera. Até pensei em plantar nebbiolo em um terreno de onde tirei uns pés de dolcetto, mas a barbera está indo tão bem.

Mas o vinho de barbera não é seu preferido no Piemonte, é?

Eu diria que meu preferido é Barolo. Mas, num almoço, por exemplo, quero coisa mais leve. Se bem que, se eu pudesse tomar todo dia no almoço uma taça de Monfortino (famoso Barolo)…

Com o que ganha no futebol não dá para tomar Barolo todo dia?

Se eu tomar Barolo todo dia, o dinheiro acaba (risos). No almoço, prefiro tomar vinhos mais leves. O grignolino que eu produzo, por exemplo, é bem interessante e fácil de beber, mas não deixa de ter sua estrutura.

É verdade que nunca tinha bebido álcool até os 25 anos?

Quando tinha 10 anos, uma vez, eu bebi. Passei muito mal. Aí, falei: “Nunca mais eu bebo”. Então, dos 10 aos 25 anos, não coloquei nada de álcool na boca. Cheguei na Itália acostumado a tomar suco em todas as refeições. Afinal, sou de Recife, familiarizado com sucos de todos os tipos: laranja, abacaxi, melancia, cajá. Na Itália, na maior parte dos lugares, não existe isso. É só água, vinho ou Coca-Cola. No começo, eu tomava muita Coca-Cola. E todo mundo bebia vinho.

Você lembra o primeiro dia em que experimentou vinho?

Foi em Roma. Não foi nada demais: um jantar com amigos. Diferentemente dos outros dias, resolvi tomar vinho. O paladar me agradou. Pelo menos, não era tão ruim quanto eu esperava. Então, qualquer jantar a que a gente ia, sempre tinha vinho. E eram vinhos diferentes. Aí eu quis saber mais. Sou um cara que gosta sempre de aprender. Fui descobrindo a cultura, a tradição. Hoje é difícil eu me alimentar sem ter uma taça de vinho. Virou um costume.

Até quando tem jogo?

Não. Dia de jogo e um dia antes do jogo, eu não bebo. Apesar de que, na Itália, cheguei a tomar. No Lazio, um dia antes do jogo, no jantar, eles serviam uma taça de vinho para quem quisesse. No Brasil, o álcool é visto como um vilão porque as pessoas bebem para se embriagar. Lá a cultura não é essa. Você bebe para acompanhar a refeição, para limpar o paladar, para realçar o gosto da comida.

Você chegou a fazer algum curso de vinho?

Em 2012, quando comecei a tomar vinho, entrei em um curso em Roma. Mas não terminei porque era muito teórico. Fiz meu percurso meio sozinho. Meio autodidata, como sempre. Mas o cara que hoje é meu sócio no restaurante de Turim, Diego Dequigiovanni, me influenciou bastante. Era o sommelier-chefe do Del Cambio, um dos mais tradicionais da cidade. Ele me apresentou tudo. E, quando me interessei mais, comecei a visitar as vinícolas. Muitas vezes, eu treinava no Juventus de manhã e à tarde fazia um giro por Alba, Barolo, Monforte d’Alba…

Alguma vinícola o impressionou em especial?

A Antinori, na Toscana. É coisa de cinema. Fiquei maravilhado com a grandeza, a beleza. No Piemonte, não tem essas cantinas gigantescas. É algo mais tradicional, pequeno. O que me encantava era a tradição, essa coisa de as vinícolas terem séculos, serem passadas de pai para filho. O tratamento que eu recebia era sempre muito legal. Até porque sou jogador de futebol, e os caras são apaixonados por futebol.

Você não explora muito o fato de ser um jogador famoso para vender seus vinhos.

Ah, não! Não quero que as pessoas comprem o vinho porque gostam de mim como jogador. Vai acontecer um ou outro caso. É normal. Mas esse nunca foi meu objetivo. Quero fazer um bom vinho para que as pessoas tenham uma boa experiência. Tomar um bom vinho e comer uma boa comida é a melhor coisa que você faz na vida. Esse é meu objetivo como produtor: proporcionar uma experiência bacana, interessante, talvez inesquecível, quando alguém for lá na Ca’ del Profeta.