/Por Artur Tavares

Sempre fui um bom bebedor de vinhos, embora faça isso profissionalmente há cerca de quatro anos. Eu me lembro, ainda adolescente, de algumas joias da adega de meu pai: Chiantis engarrafados no início dos anos 1980, uns clássicos alentejanos, além dos vinhos do Porto de idades que nem consigo imaginar.

Naquela época – e para desgosto dele –, abri certas garrafas displicentemente, sem saber que me deparava com algumas obras-primas. Mesmo até pouco tempo atrás, quando me tornei jornalista especializado em gastronomia, o vinho ainda parecia um quebra-cabeças quando era servido em degustações ou em jantares harmonizados. A pergunta que rondava minha cabeça, invariavelmente, era sempre a mesma: “É possível saber o mínimo sobre o que está nessa taça usando apenas os sentidos – visão, olfato, paladar e tato?”

Assim, eu me inscrevi em um curso de formação básica de sommeliers. Descobri que a diferença entre beber e degustar é brutal: o primeiro ato, a gente faz por lazer (alguns fazem até para curar a tristeza); o segundo, é beber prestando atenção! Degustar um vinho é criar memória, excitar os sentidos e, mais do que tudo, se divertir. Ali, ouvi muitas vezes que vinho é para compartilhar – sim, você pode tomar sua taça sozinho. Mas é muito melhor quando podemos trocar experiências, dividir percepções (além de custos!), enriquecer o repertório.

É conquistar a tão desejada litragem. Naquele líquido há muitas histórias. Algumas precisam ser contadas por outra pessoa. Outras, conseguimos decifrar sozinhos: um exame simples e atento ao que é servido pode dizer mais do que mil palavras. Algo que, a partir de agora, você pode fazer também.

Observe

Assim que despejado na taça, o vinho revela muitas de suas características através de um exame visual. Suas tonalidades dão dicas sobre as uvas das quais são provenientes – algo que você precisa de um pouco mais de experiência para conseguir descobrir. A transparência fala pela intensidade do corpo e as cores denunciam o grau de evolução.

Nesse estágio, duas dicas são ótimas de lembrar: vinhos brancos ganham cor enquanto evoluem, indo do palha até o dourado ou âmbar. Os vinhos tintos vão perdendo o aspecto violeta/avermelhado durante o mesmo processo, chegando aos tons de terracota e até alaranjado. Além disso, evolução não é necessariamente sinal de envelhecimento: um vinho jovem pode evoluir mais rapidamente, enquanto vinhos mais complexos podem levar décadas até seu ponto alto de maturação.

Gire a taça

Ato que carrega certa pompa, mas rodar a taça deixa o líquido marcado nas bordas. Em segundos, essas marcas escorrem em forma de lágrimas. Elas dão indícios sobre a qualidade do álcool e também sobre a própria graduação alcoólica da bebida: quanto mais numerosas, maior o teor de álcool. Balançar a taça também ajuda a perceber nuances na cor do vinho, auxiliando no exame da evolução, e serve para arear a bebida, abrindo o buquê de aromas. O que nos leva ao próximo passo…

Cheire

Mesmo sem perceber, registramos aromas em nossa memória de maneira completamente intuitiva. Para começar, vinho é feito de uva, mas não tem cheiro de uva. A referência de frutas é outra: em brancos, notas de abacaxi, maracujá, pêssego, lima-da-pérsia; nos tintos, amora, morango, cereja, framboesa, ameixa.

Ainda pode ter toques de especiarias, flores, ervas, chocolate, manteiga, pão e madeira. Em minha última aula, foram percebidos aromas de couro molhado, suor e xixi de gato. Não fuja deles, pois já vem a melhor hora.

Deguste e saboreie

Tomar e degustar um vinho são coisas completamente diferentes. O primeiro é um ato de colocar a bebida na boca e engoli-la. O segundo significa beber prestando atenção: envolve um tempo de análise gustativa e sensorial. Esse passo conta com o paladar e o tato (sensação tátil que o líquido provoca na boca). Antes de engolir a bebida, segure-a na boca, dê uma leve “mastigada” e tente puxar um pouco de ar.

Aí, vem a revelação: se a boca encher de saliva, significa boa acidez do vinho; se aquecer, é o álcool se sobressaindo; os taninos dos vinhos tintos dão adstringência, a sensação de passar a língua em um tecido. Todas as papilas gustativas serão ativadas, revelando os sabores, que podem ou não ser iguais aos aromas. Perceba também quanto tempo o gosto perdura no paladar – grandes vinhos chegam a dez segundos.