/Por Rafael Tonon

Durante a noite, dezenas de morcegos têm invadido as parreiras da Herdade do Esporão, uma da mais importantes vinícolas portuguesas da região do Alentejo, onde se produz alguns dos melhores vinhos do país. Mas, em vez de deixar os produtores de cabelos em pé, os pequenos mamíferos voadores têm sido recebidos de braços abertos – e até mesmo com casinhas especialmente construídas para eles.

Isso porque, depois de perceberem um grande fluxo de animais à noite perto das plantações de uvas, os engenheiros ambientais e agrônomos da fazenda decidiram entender o que eles tanto faziam ali. Recorrendo a gravações e à análise de ultrassons, eles identificaram cinco espécies de morcegos na Herdade. E descobriram que parte da dieta dessas espécies era constituída de traças responsáveis por causar diversos estragos na vinha.

Porém, depois do banquete, os morcegos costumavam partir e nem sempre voltavam. Para que eles pudessem ficar e dar cabo das pragas, a Herdade decidiu abrigar essa turma entre as vinhas e os olivais, ajudando a combater as pragas de forma natural e sustentável, com menos produtos químicos.

O resultado positivo

“Neste momento, com a ajuda da Universidade de Évora, estamos conscientes da existência de um total de nove espécies de morcegos na Herdade. Duas delas são florestais, que se alimentam de várias borboletas e escaravelhos noturnos – mesmo não sendo pragas, eles fazem parte da comunidade de insetos que determina o equilíbrio da saúde ambiental das plantações”, diz Nuno Oliveira, gestor de ecossistemas da vinícola Herdade do Esporão.

Segundo ele, graças à análise genética do que os morcegos se alimentam, foi possível não só formar uma ideia clara de seu papel fundamental no controle de pragas, mas também ter uma visão mais ampla da comunidade ecológica e de seu estado de equilíbrio necessário para a propriedade.

A comunidade de asas

“Em 2019, instalamos 20 novas caixas para os morcegos, e mais da metade já está ocupada, mas todas pela mesma espécie, que é a mais comum. Ou seja, do ponto de vista do reforço de nossa ‘superforça aérea antipragas’, o resultado é muito positivo”, ressalta Oliveira. Já do ponto de vista da conservação da biodiversidade, eles ainda querem trabalhar no restauro de habitats e de algumas zonas naturais para atrair as outras espécies, que são mais sensíveis.

Na propriedade, além dos morcegos, há galinhas e ovelhas para combater outras pragas e ajudar na manutenção do solo. “A natureza é quem comanda o ritmo de nossa atividade, mas é também nossa parceira. Conhecê-la em detalhe permite-nos aplicar as melhores práticas agrícolas”, resume o especialista. E, claro, produzir vinhos melhores – para o jantar, mas também para o planeta.