/Por Artur Tavares

Há uma década, o mundo dos vinhos vem mudando radicalmente de face. O Novo Mundo trouxe paladares diferentes para os consumidores acostumados com a potência das uvas europeias, enquanto lugares como os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia e até mesmo o Líbano despontaram com variedades até então desconhecidas no mercado.

Ao mesmo tempo, as tendências da agricultura sustentável, da produção local valorizada e da quebra de monopólio de grandes empresas passaram a incentivar uma nova geração a resgatar métodos ancestrais de vinificação. É uma clara tentativa de fazer algo diferente, dando origem às primeiras experiências bem-sucedidas no campo dos vinhos naturais contemporâneos.

No Brasil, essa onda já faz a cabeça de alguns produtores e também de sommeliers, como a paulistana com raízes gaúchas Gabrielli Fleming. Pesquisadora e entusiasta dos naturais dentro e fora do país, já deu expediente em restaurantes em São Paulo, como Osteria del Pettirosso e Hospedaria – nesse último, assinou sua primeira carta de vinhos de pequenas vinícolas brasileiras. Hoje, à frente do serviço de vinhos e do salão do restaurante Cepa (Tatuapé), ela conversou com a Sociedade da Mesa sobre o assunto.

Como começou a onda dos vinhos naturais no Brasil?

O vinho natural surgiu no Brasil depois que a [empresária e sommelière] Lis Cereja começou a fazer a feira Naturebas, em 2013, em São Paulo. A realização de eventos como esse deu um suporte muito grande para produtores que fazem vinhos com baixa intervenção enológica.

E esses vinhos entraram em sua vida de que maneira?

Minha família é gaúcha, e lá existe uma cultura – na qual eu cresci – em que todo mundo faz vinho para o próprio consumo. Em São Paulo, decidi trabalhar com uma carta de vinhos totalmente brasileira para o restaurante Hospedaria [de cozinha afetiva de imigrante, no bairro da Mooca], e hoje levo um pouco daquilo que comecei lá para o Cepa [restaurante no bairro do Tatuapé, que lançou ao lado do chef e companheiro Lucas Dante, de cozinha autoral e de produtos frescos]. Nós incentivamos a venda desses vinhos principalmente para que os produtores consigam continuar produzindo, para que comprem uvas melhores. Acreditamos no que eles fazem.

Os produtores do Rio Grande do Sul são pioneiros nesse tipo de vinho?

Vinho brasileiro natural ainda é uma coisa muito pequena. Somos o país da monocultura. Tem gente fazendo vinho com baixa intervenção enológica com uvas convencionais, desconfigurando o produto como vinho natural. É uma coisa que ainda está engatinhando. Os produtores estão aprendendo também. A Região Sul ainda tem uma coisa bastante provinciana: eles acham que os vinhos que fazem são bons porque são os que bebem, mas falta repertório. Além disso, precisam entender todo o mercado, principalmente o de São Paulo, onde as pessoas têm informações sobre os produtos quase que do mundo todo. Se você pega um vinho brasileiro natural de uva convencional e compara com um vinho francês de uva biodinâmica, é diferente o peso para o consumidor.

O vinho natural também quebra barreiras utilizando uvas não muito conhecidas, certo?

Luis Henrique Zanini, do Era dos Ventos, faz um trabalho muito bacana de recuperar a uva peverella. Ele foi uma das primeiras pessoas a trabalhar por aqui com vinhos laranjas [uma releitura daqueles produzidos nas origens da viticultura, na Geórgia; a coloração alaranjada vem do processo de maceração das uvas brancas com o mosto]. Não eram nem um pouco conhecidos. É claro que tudo o que você já tem implementado é muito melhor, mas o grande problema são essas uvas internacionais que tem de plantar porque “é o que vende”, mas que não dá certo. Cabernet sauvignon não amadurece no Brasil, por exemplo, e aí colocam um monte de madeiras para mascarar a uva. É preciso fazer um resgate das variedades daqui.

Existem outros exemplos?

Em São Roque, no interior de São Paulo, fica a Bellaquinta. É a única vinícola da região que produz vinhos naturais. Ela faz um branco fortificado, para acompanhar sobremesas, com a uva niágara [não vinífera]. Quando sirvo, as pessoas acham que é moscatel de Setúbal (Portugal).

Há um mito de que vinhos naturais não servem para guarda. É verdade

Geralmente, esses produtores não elaboram um vinho de guarda porque não têm grana. É gente, por exemplo, que tem uma produção de mil garrafas por ano. Eles precisam vender logo para ter condições financeiras para elaborar a safra seguinte. Então, vão conseguir guardar as garrafas de que maneira? Tem vinho que você sente que ainda não está pronto, e é um dó. Veja o caso da Entre Vilas, em São Bento do Sapucaí [interior de São Paulo]: a fazenda fabrica os próprios vinhos, a partir de vinhedos orgânicos. O syrah é maravilhoso, mas a safra é tão pequena que se torna muito difícil de ter o rótulo dele na carta, de trabalhar com ele em um restaurante.

Quem são os produtores brasileiros de vinhos naturais para ficar de olho?

No Rio Grande do Sul tem muita gente bacana fazendo esses vinhos, como [Luis Henrique] Zanini, da vinícola Era dos Ventos. Em Pinto Bandeira, Marina [Santos], da vinícola Unna, faz um trabalho de agricultura biodinâmica bem legal. Ela tem uvas próprias e compra uvas de parceiros de cultivo sustentável. Levanta a bandeira de que vinho natural tem de ser de uva sã. O pessoal da Vinhas do Tempo inseriu a moda do pét-nat no Brasil, o espumante natural (pétillant- naturel), produzido por um método mais antigo do que o champenoise. O [enólogo] Daniel Lopes morou na França, voltou no ano retrasado e trouxe a técnica com ele. Trata-se do espumante de fermentação única, que termina de fermentar na garrafa. O [enólogo] Marco Danielle tem um trabalho excepcional com o Atelier Tormentas. Seu pinot noir é incrível.