/Por Mariliz Pereira Jorge

Vinho bom, como diz um amigo, é aquele de que a gente gosta. Pelos meus critérios, é também aquele que podemos pagar sem que cada gole tenha um gosto amargo de strike no cartão de crédito.

Mas a regra seguida pela maioria é que quanto mais caro melhor, o que o bom entendedor sabe que é, literalmente, uma roubada. Até ontem, ostentação era comprar vinho de garrafa azul e bancar o entendido mesmo sem conseguir pronunciar o nome da marca.

Com o aumento da oferta e a variedade enorme, inclusive de preços, ficou mais difícil fazer pose. Hoje, o afetado desliza o dedo na carta de vinhos, franze a testa, não sei se de dúvida ou de nervoso, e só para a mão hesitante quando os três dígitos piscam para fora do cardápio.

Em vez de uma bebida que apenas agrade, escolhe-se a vaidade. Quem nunca? Mas eu me libertei. De férias na França pela primeira vez, há uns anos, pedi uma dica de vinho para um local. “Qualquer coisa acima de 3 euros”, foi o conselho.

Parecia não apenas um caminho claro e simples, mas bastante justo para alguém que não entendia muito de vinho e viajava com a grana contada, como só os mochileiros sabem fazer. Foi meu ritual de iniciação, quando comecei uma relação mais sincera com Baco e com meu extrato bancário.

Optar pelo mais barato parece heresia num mundo em que as regras da etiqueta transformam o ato prosaico de beber vinho num ritual sagrado e quase sempre caro. E a vergonha de falar “não posso pagar”, “não entendo”, “prefiro um argentino”?

Já passei muito nervoso em mesas com gente que discorre sobre regiões, safras, tipos de uva, para justificar o caminhão de dinheiro que vai deixar em troca de uma garrafa. O que era para ser diversão vira tormento. A dor de cabeça nem sempre é de ressaca, mas da iminente ruína financeira.

Para não ficar aquela saia-justa e eu não parecer apenas uma muquirana sem conhecimentos etílicos ou papilas gustativas sofisticadas, quando vejo o valor da encrenca brinco que não tenho nem roupa para apreciar aquela maravilha.

Todo mundo ri, me acha muquirana do mesmo jeito, mas entende o recado, escolhe algo mais razoável ou banca o mecenas e assume a trolha da conta, se quiser tanto insistir na opulência. Cada um que beba o que quiser, desde que não seja à custa de quem não pode.

Já provei vinhos caros que me causaram tanta emoção quanto comer ostras. Odeio ostras. Sei que elas têm seu valor, que devem mesmo ser uma delícia. Para quem gosta. Mas a escolha do vinho deveria obedecer a uma lógica bem simples. Gosto? Posso pagar? É isso.