/Por Kamille Viola

Quando se tornou a capital do império português, com a vinda da família real, em 1808, o Rio de Janeiro deu um salto de desenvolvimento. Teatros, cafés, museus, bibliotecas, parques, além de livrarias, modistas, alfaiates, joalheiros, sapateiros e barbearias passaram a ocupar sobretudo o centro da cidade.

Pouco a pouco, a arquitetura da nova metrópole foi ganhando ares europeus, imitando as grandes capitais do velho continente. Mais de 200 anos depois, ainda sobram alguns daqueles tesouros e outros mais recentes. Há muita coisa abandonada, mas alguns ganharam nova vida ao serem ocupados por wine bares. Melhor impossível.

O mais recente deles em prédios históricos na região é o Pow Boteco Espumante, que abriu em novembro de 2016, na Rua do Senado. Quando os donos encontraram o casarão, que data de 1883, só tinha a fachada e as paredes laterais: telhado e piso, de madeira, haviam apodrecido.

Depois de uma pesquisa no Arquivo Nacional, encontraram o projeto original da casa. Com o apoio da Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac), reformaram o espaço. Como ele não é tombado, mas sim preservado, foi possível fazer alterações no ambiente interno, preservando a fachada original.

“A gente criou um projeto mais moderno no interior, com meios níveis (a casa tem quatro ambientes), seguindo a linha contemporânea de arquitetura”, explica Eduardo Santoro, um dos sócios-gestores da casa.

Ao inaugurar, o lugar era dedicado exclusivamente aos espumantes nacionais. Aos poucos, foi abrindo exceções a pedido dos clientes, mas mantendo o foco nos produtos do país. As borbulhas verde-amarelas ainda são as estrelas, com 20 rótulos, a partir de 15 reais a taça ou 60 reais a garrafa.

O empreendimento ainda tem um rótulo próprio: o Pow é produzido pela Pizzato, no método tradicional, e sai a 23 reais a taça e 85 reais a garrafa do brut (para levar para casa, custa 68 reais). “Hoje o Brasil é reconhecidamente um fabricante de espumante de altíssima qualidade, melhor do que muito champanhe”, descreve Santoro.

“De vez em quando, o pessoal pede cava ou prosecco, e temos opções. Mas brinco que, se eu fizer uma degustação com espumante, cava, prosecco ou champanhe, 99% das pessoas vão querer o espumante do Brasil. Ele é mais leve, não é mineral, fala mais ao paladar e ao clima que a gente tem”, defende.

Percepção evolutiva

Uma das três filiais do Bergut Vinho & Bistrô fica no Edifício Forense, a antiga Sociedade Bíblica Americana, que data de 1931. Um dos primeiros arranha-céus da paisagem da cidade, com fachada art déco revestida de granito negro.

Cobrindo a fachada, baixos-relevos de argamassa incluem o emblema da sociedade e a figura de um anjo segurando a tábua dos Dez Mandamentos, além de imagens representando os atributos dos quatro evangelistas: homem com a Bíblia (são Mateus), leão (são Marcos), boi (são Lucas) e águia (são João).

“O prédio é muito bonito. O centro da cidade, quando se faz um passeio a pé, tem coisas lindíssimas”, elogia José Grinberg, grande conhecedor de vinhos e sócio do Bergut ao lado do filho, André Grinberg. “Tinha também uma bela marquise que os proprietários tiraram. Uma pena”, lamenta ele. A loja foi aberta há 14 anos, como filial da franquia Expand. Há dez, a rede virou marca própria, Bergut.

O almoço é servido o dia inteiro, e também há opções para quem só quer petiscar ou fazer um lanche. “Entre nossos clientes, tem de tudo: gente que entende muito de vinho e gente que praticamente está começando nesse universo e diz: ‘Não entendo, poderia dar uma sugestão de harmonização?’. Nosso pessoal é treinado para dar assistência”, conta Grinberg.

“O mercado de vinhos evoluiu muito e está crescendo. Uma prova é que, antigamente, os supermercados tinham só um cantinho dedicado ao vinho. Hoje são prateleiras e prateleiras.

O público vem se expandindo, e a gente sente uma coisa interessante: os jovens estão passando a tomar vinho. Acho que a cerveja ajudou o pessoal a ir para o vinho também, porque trouxe a questão dos aromas”, analisa.

A Enoteca DOC foi aberta em 2011 ao lado da Chapelaria A Esmeralda, fundada em 1920 e reconhecida pela prefeitura como bem material da cidade, ganhando a placa de Patrimônio Cultural Carioca.

Passando nas mãos de gerações da família, quem inaugurou o estabelecimento foi o bisavô de Christiane Faria, que hoje cuida do negócio ao lado do marido, Fábio Soares.

A ideia do wine bar veio dos pedidos dos próprios clientes da loja, que solicitavam um espaço onde pudessem bebericar e comer alguma coisa depois de comprar.

O lugar conta com mais de 900 rótulos de vinho, com preços a partir de 59 reais a garrafa, que podem ser tomados na hora sem acréscimo no preço. Um projeto visionário de tirar o chapéu!