/Por Daniel Salles

É difícil sair da sede da vinícola Guaspari, enraizada em Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo, e não concluir que é preciso muito dinheiro para tornar o vinho paulista palatável.

Ela se espalha por duas fazendas de café centenárias, nas quais a discreta família Guaspari (dona da holding MSP Participações, que controla empresas mineradoras) investiu uma quantia milionária – não divulgada – com o intuito de produzir rótulos aptos a ombrear com os melhores do Brasil e até com países como França e Itália.

Os jardins e as encostas mesmerizantes que marcam os 800 hectares, 50 deles tomados por vinhedos, as construções cinematográficas – em especial a que é de uso exclusivo da família –, os caminhos bem cuidados, o forte esquema de segurança e o tecnológico setor de produção dão uma ideia da soma investida.

Entretanto, como qualquer outra vinícola, a Guaspari não seria nada sem um grande terroir. O dela envolve altitudes que oscilam entre 1.000 e 1.300 metros, solo seco e granítico, que favorece a drenagem, e amplitude térmica de até 12° C nos meses mais frios. O truque, no entanto, é a adoção do método de inversão do ciclo da videira.

Prescrito pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), possibilita que a colheita não ocorra no verão, como reza a tradição brasileira, mas no inverno, cujo clima coincide com o das vindimas do hemisfério norte.

Barricas da Guaspari

Segredo paulista

São necessárias duas podas, uma logo após a colheita e a segunda no mês de janeiro – a praxe é uma só. “O único porém é não sabermos até quando os vinhedos aguentam a dupla poda, que afeta o estágio de dormência”, disse Luiz Barbui, durante um almoço com jornalistas no Bistrot Parigi, no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo.

“Talvez seja preciso replantá-los daqui a uns 25 anos.” Desde 2015, ele atua na Guaspari como consultor das áreas de produção e comercial. “A vinícola quebrou paradigmas. Antes de provar os rótulos, eu também achava que vinho paulista com tanta qualidade era impossível”, confessou, lembrando da má fama do estado, historicamente associado a tintos intragáveis, de garrafão.

Novos frutos

Os rótulos inaugurais da Guaspari, como o Syrah Vista da Serra e o Syrah Vista do Chá, ambos de 2011, e o Sauvignon Blanc 2012, deixaram muita gente boquiaberta – as videiras começaram a ser plantadas em 2006.

Passaram a ser vendidos em restaurantes como Maní e Fasano, receberam elogios de críticos como o inglês Steven Spurrier e medalhas de prata na competição Syrah du Monde. O concurso Decanter World Wine Awards premiou o Vista do Chá 2012 e o Vista do Chá 2014 com uma medalha de ouro.

O almoço no Bistrot Parigi foi motivado pelo lançamento do Vista do Chá 2016. Elegante, com taninos redondos, esse syrah permaneceu em barricas de carvalho francês de primeiro uso por 25 meses e descansou engarrafado por outros 12. Custa 248 reais.

As vinícolas que brotaram em regiões próximas desde que a Guaspari ganhou projeção não deixam de ser frutos dela. Sediada em Santo Antônio do Jardim, a 12 quilômetros de Espírito Santo do Pinhal, a Terra Nossa ocupa 3,5 hectares e começou a plantar seus vinhedos em 2014.

Todos os cinco sócios foram funcionários da Guaspari, como o enólogo Cristian Sepulveda. Os três primeiros vinhos serão engarrafados neste mês, inclusive. O método adotado também é o da dupla poda, o mesmo das 15 vinícolas para as quais a Terra Nossa presta consultoria.

Onze delas, como a Pioli, em Jacutinga (MG), encontram-se em um raio de 100 quilômetros. “Dinheiro e tecnologia fazem uma boa diferença, mas o segredo para a produção de vinhos de qualidade na região é a dupla poda”, acredita Edsandro Rocha, ex-gerente da Guaspari e um dos sócios da Terra Nossa.