/Por Marina Cavalcanti

Um rótulo da Freixenet feito no Brasil? “Quem sabe?”, diz a enóloga da vinícola espanhola, Gloria Collell, responsável por inovações de sucesso na empresa com mais de 100 anos de tradição.

Não é exatamente uma promessa, mas uma resposta de quem, aos 50 anos, tem tino para reconhecer onde estão (e o que bebem) novos consumidores. Com essa mentalidade, ela ajudou a incluir, em 2017, um prosecco italiano no portfólio da Freixenet, famosa pela produção de cava – o espumante- símbolo da Espanha.

O produto chegou ao Brasil no ano seguinte. O projeto veio na sequência de outra pequena revolução: o lançamento da Mía, a primeira linha de vinhos sem borbulhas da gigante catalã, apresentada ao mercado em 2011. A Mía, que tem hoje 11 rótulos, também teve a ousadia de procurar um novo tipo de audiência, mais jovem e relaxada.

“É uma marca para uma nova geração”, diz Gloria. Para ser viabilizado, o plano se baseou em criatividade e em pesquisas, explica a enóloga. “Você parte de ideias e conceitos, mas eles precisam ser validados pelo público. Somos uma companhia centrada no consumidor”, diz.

O resultado, ela afirma, foi extremamente positivo: em dois anos, a linha já estava presente em 20 países e havia vendido mais de 2 milhões de garrafas. Depois de sete anos, são 70 países, com 8 milhões de unidades distribuídas. “Foi um grande sucesso e aprendemos com ele”, completa Gloria.

O segredo para o êxito foi a entrega de bebidas jovens, refrescantes, frutadas e sem passagem por carvalho. No Brasil, estão disponíveis os rótulos Mía Moscato Pink, Mía Moscato, Mía Sangria White Frizzant e Mía Sangría Classic Royal – todos espumantes, que começaram a integrar a linha Mía em 2013.

A ideia nasceu depois de um brainstorming de oito horas que envolveu um grupo composto de agências de design, de tendência, enólogos, gerentes de exportação e de marketing.

Também estava lá Gloria, que, além de enóloga, atuou no desenvolvimento do produto, envolvendo-se em decisões sobre rotulagem e engarrafamento. Ela aparece, inclusive, em um vídeo no YouTube explicando a que veio a Mía, “jovem e envolvente, como a cidade de Barcelona”.

O trabalho embrião

Gloria começou em 1992 no grupo Segura Viudas, companhia que produz vinhos exclusivos e que é parte do grupo Freixenet – em uma propriedade que existe desde 1954, mas cuja história remonta ao século 9.

A moça foi parar ali depois de uma reviravolta: apenas três anos antes, decidiu deixar o curso de direito e começar o de enologia. “Pude prever que seria incapaz de passar cinco anos de minha vida debruçada sobre uma mesa, lendo quatro horas por dia. Eu estava sentindo falta do contato com o consumidor”, diz.

Ela, que faz parte de uma família que há décadas está inserida em atividades relacionadas aos vinhos, decidiu então se envolver no assunto. Fez um estágio na França e, logo depois, começou a trabalhar na Segura Viudas, que fica na província de Barcelona, na Catalunha.

Cogitou, naquela época, abrir um wine-club ao lado do pai – um tipo de serviço que ainda era novidade. O plano nunca foi colocado em prática, mas hoje reflete sobre a visão inovadora do progenitor, que comandou uma companhia de distribuição de vinhos herdada do avô.

Quando estava pensando em voltar para casa, foi o pai que insistiu para que ela não assumisse o negócio da família. “Ser um pequeno ou médio empreendedor é difícil na Espanha.

Você tem de pagar muitos impostos e não recebe muita ajuda do governo. Além disso, nossa empresa familiar atua no setor de serviços, o que significa não ter fim de semana nem feriados”, afirma.

A enóloga seguiu o conselho e trilhou seu caminho na Freixenet, onde, dizia o pai, teria novos horizontes em uma era que estava mudando rapidamente, com os avanços da internet.

Foi um caminho sem volta: “Eu me apaixonei pelo trabalho, pelas conversas sobre vinho e tudo o mais”, diz Gloria, que nasceu em Vic, cidade rica em cultura na província de Barcelona, e hoje vive na região ensolarada de Penedès, mais perto da produção.

Em suas funções como enóloga e gerente internacional na Freixenet, Gloria não considera o mundo do vinho um universo dominado por homens. Um único adendo: no caso de instituições relacionadas à bebida, ainda existe um rumo a ser percorrido. “Um caminho lento, mas que anda bem”, acredita.