/Por Rafael Tonon

Há poucos lugares que carregam uma aura de requinte tão grande quanto o Copacabana Palace. Incrustado na praia brasileira mais famosa do mundo, o lívido palacete em estilo mediterrâneo é um marco arquitetônico e cultural do Rio de Janeiro: já recebeu artistas e presidentes, foi palco de bailes históricos e continua a reinar como um dos maiores símbolos de status da hospitalidade no Brasil.

Para quem não tem a chance de se hospedar ali, os restaurantes são uma porta para conhecer o distinto universo do Copa – como o hotel ficou carinhosamente conhecido por seus frequentadores.

Mas não só. Entre as cozinhas italiana, asiática e brasileira, as propostas atendem executivos e casais apaixonados, estrangeiros e brasileiros, famílias em férias e milionários. Enfim, todos os gostos (ainda que para poucos bolsos).

Por isso, é preciso reconhecer o trabalho do sommelier Ed Arruda: é ele o responsável por administrar cerca de 4 mil garrafas que vão acompanhar jantares românticos, momentos especiais e até fechamentos de negócios promissores.

E fazer isso tendo de escolher vinhos que acompanham de um curry tailandês a um risoto clássico, passando pela feijoada completa. Há nove anos à frente do serviço de vinhos do Copacabana Palace, Arruda garante que seu trabalho não tem nada de enfadonho.

O rei do Copa

Embora seu posto frequente seja no Cipriani, o restaurante mais sofisticado do hotel, no qual o chef napolitano Aniello Cassese faz releituras de pratos típicos da cucina italiana, não raro Arruda pode ser visto cruzando a embasbacante piscina para servir um cliente na área externa ou até, quem sabe, tendo de abrir uma garrafa ao custo de alguns quatro dígitos na suíte de um hóspede abastado.

O sommelier, que fala com destreza sobre uvas pouco conhecidas (como a falanghina e a fiano, que aprendeu a gostar com Ian D’Agata, especialista em castas nativas italianas), garante que tem uma das melhores posições do país.

“Hotel é muito diferente de restaurante. Aqui, cada dia é uma coisa nova”, diz ele, que começou na restauração em 1994, tendo passado por muitas casas até chegar ao icônico Copa.

Arruda tem a tarefa de selecionar as cartas dos três restaurantes (além do Cipriani, cuida do oriental MEE e do casual Pérgula) que, juntas, somam mais de 600 rótulos.

Na orla carioca de Copacabana, o mais afamado hotel de luxo do Brasil oferece degustações históricas, vinhos laranja e rótulos exclusivos.

Há, entre elas, algumas exclusividades, claro, como requer a fama do Copacabana Palace: uma seção inteira do aclamado espumante italiano Ferrari (são oito opções, entre elas um Giulio Ferrari Riserva del Fondatore, safra 2004) e outra com a linha completa dos limitados Don Pérignon Plenitude, com safras que começam nos anos 1980 (um Vintage Brut de 1985, ao valor de 15 mil reais a garrafa).

O profissional também se orgulha de ter apresentado aos clientes os agora afamados vinhos laranja, que se tornaram moda no mundo da bebida. “Incluímos dez opções, do Gravner ao Dettori, passando por produtores da Eslovênia”, revela, entusiasmado, sobre o atual país queridinho dos amantes dos vinhos naturais.

Ponto notável

Se há uma coisa que o desagrada mais do que vinho botritizado é o fato de as pessoas pensarem que os preços são sempre mais caros por ser o Copacabana Palace. “Todo mundo quer estar no Copa, somos uma vitrine, e isso se torna um valor. Mas eu negocio muito com as importadoras, acompanho os pedidos, tenho muito cuidado com isso”, garante.

Certa vez, um cliente esbravejou que o preço da garrafa de champanhe estava pela hora da morte, e disse que era decerto o preço mais alto praticado no país. “Não pensei duas vezes e abri a carta de outro restaurante para mostrar que nosso preço era inferior”, conta.

Histórias com clientes e oportunidades que o Copacabana Palace proporciona rendem sempre casos para contar, como a chance que teve de beber um Tondonia branco de 2004 levado por um cliente para comemorar o aniversário no hotel.

“Era uma festa e havia muitos convidados, bartender preparando coquetéis… Um dos garçons veio me dizer que um dos amigos do aniversariante tinha rejeitado um vinho porque ele estava estragado. Pedi para ele guardar a garrafa para eu averiguar”, conta.

Finda a festa, ele foi conferir: era o tal unicórnio, em sua melhor forma. “O vinho estava espetacular. Fiz até uma postagem em meu Instagram para celebrar”, ri.

Ele também se gaba de algumas degustações históricas das quais pôde participar, como a que reuniu todas as safras do toscano Sassicaia, um total de 47 garrafas servidas em dois dias.

“Um dia só com os pares, outro só com os ímpares, para podermos dar conta”, diz. Também a de 100 anos da espanhola Vega Sicília, que contou até com a presença do proprietário da vinícola.

Ou ainda uma série de degustações promovidas por um cliente com todas as garrafas que ele conseguiu juntar de bordeaux de 1982. “Todo mundo que ama vinho sabe que foi uma safra espetacular. Ele reuniu 300 rótulos de diferentes châteaux que provamos por uma semana”, relembra.