/Por Beatriz Marques

O tema é recorrente, mas falar sobre as dificuldades enfrentadas por mulheres no trabalho é imprescindível. Principalmente ao ver os números recentes divulgados no país: elas ganham, em média, 20,5% menos do que os homens, segundo pesquisa do IBGE divulgada em 2019.

A taxa de desemprego referente ao último trimestre de 2019 é maior para mulheres: 13,1% contra 9,2%. Por esses e outros motivos, a luta por igualdade de gênero no mercado tem sido uma constante – e não deixa de ter impacto mais significativo em áreas diretamente relacionadas ao universo masculino.

O serviço de vinhos encaixa-se perfeitamente nesse cenário. Nessa profissão, que engloba o atendimento ao cliente, com indicações de rótulos, sugestões de harmonizações e a elaboração de cartas, o domínio de homens é claro, e as sommelières, que costumam ter salários menores, ainda são vistas com estranhamento por grande parcela dos apreciadores da bebida.

Mesmo com a maior presença dessas profissionais em bares e restaurantes renomados (só na Associação Brasileira de Sommeliers, de São Paulo, o aumento das mulheres nos cursos foi de cerca de 12% nos últimos três anos), são longos os relatos de dificuldades no trabalho simplesmente por uma questão de gênero.

“Hoje ainda escuto: ‘Nossa, uma mulher sommelier?’. Isso realmente me espanta”, comenta Ivy Ryuko, há dois anos chefiando o serviço de vinhos do estrelado restaurante D.O.M., em São Paulo.

A situação se agrava quando, aos comentários, são adicionadas pitadas de assédio moral e sexual por parte da clientela. “ ‘E vem com seu telefone no contrarrótulo?’ é uma pergunta que já escutei de um homem no restaurante”, relata Gabriele Frizon, que atualmente oferece consultoria ao paulistano La Tambouille.

Outros inúmeros atos preconceituosos já sofridos durante o expediente foram abordados durante o bate-papo que a Sociedade da Mesa teve com Ivy, Gabriele e as também sommelières Cássia Campos e Daniela Bravin, do Sede261, e Sofia Guglielmo, do restaurante Cais – e, ao que tudo indica, estão longe de cessar.

Crédito: Alex Batista

À prova de fogo

Sofia tem 30 anos, mas já ouviu que “você não tem idade para beber, imagine servir vinho”. E questionar a capacidade técnica também faz parte do repertório de bebedores machistas.

“É comum me perguntarem onde eu estudei. Mas nunca vi questionarem o sommelier que trabalha comigo, que é meu subordinado. Já eu tenho de dar o currículo inteiro”, conta Gabriele. “Você precisa provar o tempo todo seu conhecimento”, completa Sofia.

Em meio a tantas situações constrangedoras, o que mais pesa para as sommelières entrevistadas não são as más atitudes de quem está sendo atendido e sim das que vêm da própria equipe. “Cheguei a trabalhar em um restaurante que só tinha homem e eu fui a primeira mulher.

Foi um inferno. Isso porque o lugar era formal, frequentado por pessoas mais velhas, mas a resistência maior veio dos colegas”, relembra Daniela Bravin, que já passou por casas como Ici Bistrô e A Casa do Porco Bar e hoje divide a sociedade do bar com a mulher, Cássia.

A tensão sobe quando as profissionais chegam a cargos de liderança – situação que não é exclusiva do serviço de vinhos. Além de as mulheres raramente alcançarem o topo de uma chefia, quando acontece elas sofrem na pele.

De acordo com pesquisa da consultoria Bain & Company com a rede social LinkedIn, somente 3% dos líderes empresariais do Brasil são mulheres. E três em cada dez pessoas no país admitem que se sentem desconfortáveis em ter uma mulher como chefe, como revela pesquisa da
Ipsos, divulgada no ano passado.

“Quando viramos chefes, precisamos cobrar, e é mais difícil de (os funcionários) aceitarem do que se fôssemos homens. A mudança de cargo, de fato, afeta a forma como a equipe age”, diz Ivy, que por sete anos comandou o serviço de vinhos no Dalva e Dito e, desde 2017, é a sommelière responsável pelo restaurante duplamente estrelado pelo guia Michelin.

“Isso acontece muito no começo, mas, depois que os funcionários veem que você tem capacidade, o comportamento pode mudar”, complementa. Na opinião de Cássia, que já foi gerente e head sommelier do Grupo Chez, mostrar o potencial pode não ser suficiente para conquistar o respeito dos colegas, e é necessário o suporte dos donos da empresa (seja do bar, seja do restaurante) para as mulheres exercerem sua função.

“Não cabe a quem está sofrendo o assédio ter de encontrar maneiras de se adequar. Isso é um problema da equipe e precisa ter uma conscientização dos proprietários da casa para apoiar profissionais que estão sofrendo assédio moral”. Daniela, sua parceira, ainda apoia medidas mais severas para coibir esse tipo de comportamento da equipe: “Que sejam de ordem punitiva, até financeira”.

Resiliência feminina

Diante de todas as dificuldades enfrentadas, as cinco sommelières nunca se deixaram abater ou mesmo pensaram em desistir da profissão. “As mulheres que trabalham em serviço de vinho têm em comum um gênio forte, com foco no trabalho, e não se abalam por uma situação isolada.

Não tem nenhuma sommelière que seja fácil de lidar. Quem não sobrevive nessa selva sai. O serviço não é fácil para ninguém”, diz Gabriele. E para quem ainda duvida de que é impossível conciliar família, filhos e expediente noturno, Ivy dá o recado: “Eu digo que é totalmente viável. É um ritmo acelerado, mas é uma questão de adaptação”.

O resultado do trabalho dessas “sobreviventes” já começa a dar as caras, e elas competem de igual para igual com os homens. Na 16ª edição do Concurso Mundial de Sommelier, que aconteceu no começo do ano passado na Bélgica, a dinamarquesa Nina Jensen, do restaurante Kong Hans Kælder (Copenhague), conquistou o segundo lugar, mesma posição alcançada em 2013 pela canadense Véronique Rivert. E, em 2016, as mulheres marcaram presença no pódio com o terceiro lugar da francesa Julie Dupouy.

E quem mais torce para a maior presença de sommelières no mercado são… as mulheres, que têm crescido entre os fiéis consumidores da bebida. “Eu acho que elas se sentem mais confortáveis quando são atendidas por uma pessoa do mesmo gênero, sem temer serem subestimadas ou não entender o que o sommelier está falando sobre um vinho”, acredita Cássia. O estilo de atendimento que as sommelières colocam em prática também agrada às semelhantes.

“A mulher traz mais leveza ao serviço, principalmente em relação à arrogância que sempre foi imposta pela figura estereotipada do sommelier, vestido de terno e com o nariz para a Lua. A leveza vem principalmente da delicadeza de entender o que o cliente quer”, opina Gabriele.

Seria essa então uma vantagem feminina em relação aos homens nessa profissão? “Eu sempre penso na desvantagem. Porque podemos ser mais sensíveis, mais delicadas, mas existe um trabalho todo por trás que temos de carregar pelo fato de sermos mulheres. E isso não traz vantagem nenhuma”, opina Sofia.

E, mesmo que pesquisas científicas mostrem que mulheres têm melhor percepção olfativa e maior capacidade de distinguir sabores do que os homens, as profissionais entrevistadas não acreditam que isso as torna superiores, pois elas não querem ser melhores – elas querem somente
direitos iguais.