/Por Pedro Borg

Testes às cegas costumam ser a única maneira de quebrar a empáfia e o conservadorismo de especialistas em vinhos, sobretudo os europeus. Foi através de uma avaliação desse tipo que o universo da enologia abriu os olhos para os vinhos do chamado “Novo Mundo”, quando as garrafas produzidas no Napa Valley desbancaram clássicos rótulos franceses em degustação realizada na França.

O ano era 1976, e surpreendeu jurados de todo o mundo, que começaram a olhar para as bebidas feitas fora daquela fronteira com outros olhos. Em 2011, um caso parecido – mas menos alardeado – aconteceu na capital, Pequim.

Foram colocados cinco rótulos de Bordeaux frente a frente com cinco rótulos da Ningxia, região central da China. Após pouco mais de uma hora de degustação, os avaliadores (cinco franceses e cinco chineses) elegeram um top 5 dos dez vinhos experimentados no dia: no ranking, quatro feitos na China e apenas um francês.

O resultado vem na esteira de esforços realizados no país oriental, que busca tanto relevância no cenário de vinhos quanto acabar com uma pecha de que eles não sabem apreciar a bebida, nascida de lendas nunca confirmadas de empresários chineses que misturavam refrigerante de limão com grandes vinhos do Velho Mundo.

Antigos estigmas

Um dos maiores problemas que a China precisava enfrentar era o de falsificação de bebidas, quase sempre de vinhos franceses. Os principais alvos dos falsificadores foram os célebres rótulos de Château Lafite Rothschild, secular vinícola francesa que virou sinônimo de lifestyle na China, nomeando desde apartamentos até churrascarias.

Para aproveitar a boa recepção chinesa à marca, a bodega iniciou em 2007, em uma vinícola de 30 hectares, um projeto para conceber vinhos no país. Após dez anos de formulação, foi lançado um lote com 2.500 garrafas do Long Dai, o primeiro vinho vintage feito pela marca francesa em solo chinês – todas as garrafas receberam um chip de rastreamento para garantir a autenticidade da bebida. Apesar da empreitada da célebre vinícola, eles não foram os primeiros a se aventurar na região.

Vantagem territorial

Curiosamente, uma das primeiras marcas ocidentais a desbravar a enologia em território chinês não chegou para elaborar o fermentado de uva, mas sim uma bebida fermentada da fruta.

Em 1983, a Remy Martin fechou uma joint venture com a então produtora de moscatéis, Dinasty. Na época, a empresa fabricava cerca de 190 mil garrafas do vinho doce e pouco complexo (com uvas não viníferas), sendo que 90% do cultivo era enviado para o sudeste asiático, Austrália, Estados Unidos e Leste Europeu.

A parceria entre os dois era uma via de mão dupla: enquanto a Dinasty enxergava na Remy Martin um grande know-how no preparo de bebidas de alto padrão, a empresa francesa mirava a abertura de um mercado com potencial gigantesco.

A decisão se mostrou acertada, especialmente após o boom chinês na segunda metade da década de 2000: o país se tornou o quinto maior consumidor de vinhos do planeta, à frente de nações com tradição no assunto, como Espanha, Portugal e Argentina.

Efeito China

Fatores como o aumento da renda per capita e a globalização ajudam a explicar o porquê de a China ter começado a beber mais vinho. Mas isso é só metade da história: hoje, ela é a segunda nação com mais áreas vinícolas no planeta, atrás apenas da Espanha, e a décima em produção de vinho, à frente de Portugal.

A China não só bebe, mas também faz, e suas dimensões continentais ajudam a ter grande variedade de elaboração graças aos inúmeros terroirs em seu território. Das regiões vinícolas, destaca-se Ningxia, no centro-leste da China.

O destaque de seu terroir ocorre por sua altitude de 1.100 metros, com muita incidência solar e verões secos – um clima parecido com os de regiões viníferas da Argentina e do Chile, com a diferença do severo inverno. A coincidência com os sul-americanos também acontece com as uvas cultivadas: cabernet sauvignon, merlot e carménère.

Por conta da excelência, o produto oriental recebeu denominação de origem protegida – e chamou a atenção do maior grupo de luxo do planeta, a LVMH, que comprou um terreno para criar um Chandon made in China.