/Por Tânia Nogueira

Enófilos torcem o nariz. Críticos ignoram. Sommeliers raramente recomendam. Mas os vinhos feitos para serem tomados com gelo são um sucesso estrondoso.

Em 2019, o Rosé Piscine, um varietal da uva negrete feito no sudoeste da França especialmente para ser tomado com gelo, foi o terceiro vinho importado mais vendido no Brasil (13.470 caixas de 12 garrafas). E o primeiro entre os franceses em faturamento: 444 mil dólares. Não é um vinho barato. Custa 146 reais.

No sofisticado Bardega Wine Bar, o bar de vinhos que oferece o maior número de opções de vinhos por taça de São Paulo, é o rosé que mais sai. Bem como no Bocca Nera, um informal bar com rodízio de vinhos (79 reais, de terça a quinta; 89 reais, de sexta e sábado).

“Da inauguração, em junho de 2018, até o fim do ano passado, o Piscine esteve entre os vinhos servidos no rodízio”, revela Rafael Ilan, sócio dos dois bares. “Sempre foi o mais consumido. Com a alta do dólar, ficou pesado para a casa mantê-lo sempre no rodízio. Mas tem muita gente que vem por causa dele. Então, ele entra de vez em quando, mesmo sendo caro.”

O Rosé Piscine foi lançado em 2004. Seus criadores disseram ter se inspirado nas baladas de Saint-Tropez, onde o público consumia rosé da Provence com gelo. Uma história com bastante apelo, o que sempre é importante no mundo do vinho.

No entanto, afirmam que há diferença dos vinhos comuns: o gelo é o ingrediente que dá o equilíbrio à bebida. Não agradou a todos. Muitos diziam que não passava de um vinho doce e perfumado. Para desgosto dos puristas, porém, foi um grande sucesso logo de cara.

Contra as tradições

No mundo todo, sempre houve quem tomasse vinho com gelo. “É uma coisa que se via nos restaurantes”, conta Diego Arrebola, sommelier e proprietário da consultoria EntreCopos, em São Paulo. “Principalmente no verão e com vinho branco.”

Seis anos depois do Piscine, em 2010, os puristas tiveram de lidar com um fato ainda mais chocante: a Möet & Chandon, uma das casas mais tradicionais de Champagne, lançava o Möet & Chandon Ice Imperial, um champanhe para ser bebido com gelo. Eles também diziam ter se inspirado em Saint-Tropez.

“O consumo de champanhe sempre foi algo tradicionalmente sazonal, com um pico no último trimestre do ano”, diz Sergio Degese, general director da Moët Hennessy do Brasil. “A ideia era expandir o consumo para outros períodos do ano.”

Deu bastante certo. Tanto que a casa acabou por criar também uma versão rosé do Imperial Ice e outras casas de Champagne lançaram produtos semelhantes. Em 2013, a Veuve Clicquot veio com outra inovação: a Veuve Clicquot Rich, concebida para ser tomada com gelo e, pelo menos, mais um
ingrediente.

Também tinha uma bela história por trás: o produto era inspirado nos champanhes da época da própria viúva Clicquot, de meados do século 19. Em 2010, haviam sido descobertas em um naufrágio algumas garrafas dessa época. Elas tinham 150 g/l de açúcar (hoje, um brut tem cerca de 10 g/l).

“Nosso chefe de caves pensou que seria uma homenagem incrível fazer um champanhe mais doce, porém de um estilo de degustação mais moderno”, diz François Hautekeur, wine communicator da Moët Hennessy do Brasil.

“E assim foi criado o primeiro champanhe para fazer drinques.” O único da
categoria doux (doce) no mercado brasileiro, o Veuve Clicquot Rich tem 60 g/l de açúcar. Logo viria também o rosé da maison.

A ascensão da alta coquetelaria foi um fator de inspiração para todos esses produtos. “A Freixenet lançou a primeira garrafa de ice no verão de 2016”, diz Fabiano Ruiz, diretor-executivo da vinícola no Brasil. “Era o primeiro cava para ser tomado com gelo.” Segundo ele, esses produtos aproximaram ainda mais a categoria dos espumantes do público jovem, incrementando a sensação de refrescância.

“A estratégia global da marca é celebrar os pequenos e grandes momentos da vida. Então, fazia total sentido incorporar esse tipo de produto”, diz. Segundo o mixologista Alê d’Agostinho, do Apothek Cocktails & Co., por terem mais estrutura, espumantes ice são realmente muito bons para a coquetelaria.

Senso prático

A grande crítica dos tradicionalistas ao consumo desses vinhos é que a água do gelo derretido diluiria a bebida e comprometeria o equilíbrio. Mas, segundo os produtores, esses vinhos são elaborados para atingir a estabilidade justamente com o acréscimo de água – por serem mais concentrados em termos de aromas, açúcares, corpo e, no caso de espumantes, com uma perlage mais resistente.

“O assemblage é diferente”, diz Hautekeur. “Nossos rótulos, por exemplo, têm muito mais pinot meunier, que é uma variedade muito frutada, e uma dosagem maior de açúcar.” Em teoria, os produtos em versão ice são feitos para atingir o equilíbrio justamente nessa situação.

Mas é fundamental lembrar que o produtor não tem nenhum controle de qual gelo será adicionado ao produto. Uma coisa é você colocar um gelo de qualidade, que vai derreter lentamente, outra é um gelo de posto de gasolina e outra ainda gelo feito de água filtrada em casa”, diz Diego Arrebola.

O vinho com gelo, tranquilo ou espumante, deve ser servido a cerca de 8o C, em taça de tinto, e o gelo tem de ser o maior e o mais denso possível para derreter devagar. “De preferência, aquele cubo grande e transparente”, diz Alê d’Agostinho. “Ele dilui menos a bebida.” O importante, na verdade, é que o gelo seja apenas para trazer refrescância e não para disfarçar defeitos.