/Por Marcel Miwa

A ideia pode parecer excêntrica, mas há potencial para a produção de espumantes de alta qualidade na Inglaterra, onde a cultura do vinho está presente desde o século 1, levada pelos romanos.

As regiões nobres para a vitivinicultura ocupam toda a faixa sul da ilha, que, não por acaso, está no paralelo 50, no limite da clássica delimitação climática para a produção de vinhos de qualidade(entre os paralelos 30 e 50). Essa zona engloba as cidades de Kent, Sussex e Surrey e concentra boa parte das 175 vinícolas do país.

Longe do clima de Londres (alvo de piadas por ser nublado e chuvoso), ali os dias são ensolarados e, por ser perto do mar, tem os extremos de frio atenuados. Ainda assim, as uvas batalham para superar os 10% de potencial alcoólico.

Aliás, daí decorre a grande marca dos vinhos ingleses na taça. Raramente passarão a sensação de alcoólicos e a acidez é sempre marcante. O perfil aromático das frutas costuma ser fresco, com intensidade elegante.

Em alguns casos, ainda são vinhos ligeiros e com pouca estrutura – explicado pelas vinhas jovens e pelo clima mais frio. Características que não funcionam para vinhos tranquilos, mas são ótimas para espumantes, nos quais a segunda fermentação do vinho base costuma ganhar cerca de 1,5% de álcool e a alta acidez é um ativo importante.

Um retrato prático está no mercado, onde, de cada dez garrafas de vinhos ingleses produzidos, sete são espumantes. Outro fator em que os ingleses apostam (e aposta é algo que eles fazem tão naturalmente quanto respirar) é na mudança climática, que a cada ano está mais quente e com melhores condições para a viticultura local.

Assim como na América do Sul, onde as vinícolas avançam em direção à Patagônia, no continente europeu, por causa do aquecimento global, já existem vinhedos sendo plantados na Dinamarca, Suécia e Noruega.

Terra prometida

Uma variável considerada sine qua non para a produção de vinhos de qualidade é o solo. E aqui vale um parêntese: na região de Dorset está a cidade de Kimmeridge. Para os familiarizados com vinhos franceses, a associação ao tipo de solo presente em Champagne e Chablis é logo evidenciada.

Embora o solo chamado kimmeridgian seja uma referência à era de sua formação e possa ter diferentes nuances e características a cada região, sua espinha dorsal nas três regiões – Chablis, Champagne e sul da Inglaterra – é parecida.

Trata-se de um solo calcário branco, rico em fósseis marinhos, que, além de estar associado a vinhos minerais, possui ótima regulagem natural de drenagem e retenção de água, conforme épocas de excesso ou falta de água – perfeitas para vinhos com borbulhas. Partindo de Londres, os suaves declives terminam na costa sul, de frente para a França.

Nesse caminho estão as três principais regiões vitivinícolas do país, onde, além do solo argilo-calcário, contam com uma exposição sul, que maximiza a incidência solar, importante para compensar o clima frio.

Blend britânico

Com a aposta francesa e a perspectiva para espumantes ao estilo champenoise, o leque de castas plantadas acompanhou a onda: tanto as tintas pinot noir e pinot meunier quanto a branca chardonnay passaram a dominar o cenário.

Ainda que a era moderna dos vinhos ingleses seja recente (depois de 1950), já existe uma lei para a classificação de vinhos com denominação de origem (D.O.) e indicação geográfica (I.G.) – ainda que genéricas, pois tanto a D.O. quanto a I.G. valem para qualquer vinho produzido no território inglês.

Para espumantes, as regras são mais rigorosas: para levar a chancela de “English Quality Sparkling Wine”, o método tradicional para a tomada de espuma é obrigatório, assim como o mínimo de nove meses de repouso com as borras das leveduras após a segunda fermentação.

Além disso, deve respeitar o rendimento máximo de uvas por hectare, o potencial alcoólico mínimo, os limites para correção de acidez e açúcar – medidas indicada pela Wines of Great Britain, órgão que regulamenta o setor.

Para inglês ver

Nenhuma região produtora de vinhos se torna reconhecida sem qualidade, consistência e personalidade, o que já pode ser observado na Inglaterra. A Taittinger foi a primeira casa de Champagne a plantar vinhedos na ilha britânica, em 2017, na cidade de Kent.

Lá, o projeto se chama Domaine Evremond e visa à produção de espumantes – as primeiras cuvées devem sair no mercado em 2023. A Vranken-Pommery fez os primeiros ensaios com uvas compradas de terceiros e os resultados a animaram a plantar um vinhedo em Hampshire, a oeste de Sussex, também na costa sul. A primeira colheita comercial deve ocorrer em 2021.

Além do endosso champenoise, ilustres figuras do vinho apostaram na região, caso de Christian Seely, diretor da AXA-Millésimes e sócio da Coates & Seely, onde produz espumantes desde 2008, em Hampshire.

Outro que plantou as primeiras mudas de videira em Dorset (vizinho de Hampshire) foi Steven Spurrier. O primeiro espumante de sua vinícola, Bride Valley, foi lançado em 2014.

Como nem tudo são flores, a pequena produção, com baixos rendimentos, faz com que as garrafas não sejam fáceis de encontrar no mercado e os preços sejam elevados, já batendo de frente com Champagne. Ainda assim, não duvide se, em breve, algumas borbulhas inglesas aparecerem em suas taças.

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