/Por Manuella Menezes

Quem sai aos seus não degenera, afirma o ditado popular. Agora, imagine se um dos seus é um barão que viveu até os 105 anos, nasceu em um país que foi extinto quando ainda era criança, sobreviveu a duas Guerras Mundiais e ao câncer, se sentiu em casa pela primeira vez aos 60 anos e aos 96, certo de que ainda havia muita vida pela frente, se tornou viticultor. É um legado digno de orgulho, mas que traz junto muita responsabilidade.

Barão Bodo von Bruemmer

No entanto, Nicholas von Bruemmer, neto do barão Bodo von Bruemmer, parece não sentir esse peso. Afinal, herdou a coragem e o gosto por superar desafios do avô. Nascido na Suíça, começou a vida profissional como consultor da joalheria Swarovski, com 20 e poucos anos, e, antes de se mudar definitivamente para Portugal, era gestor de riqueza e patrimônio de empresas familiares europeias. A função incluía pelo menos dez horas por dia em escritórios e três a quatro viagens semanais.

A quinta Casal de Santa Maria foi comprada pelo barão nos anos 1960, depois de ter vivido em vários países. Natural da Curlândia, então uma província báltica do império russo e atual Letônia, ele fugiu dos bolcheviques em 1918, refugiando-se na Alemanha.

Segundo relatos que deixou registrados, encantou-se imediatamente pela região de Colares, em Sintra, e decidiu fazer dela sua casa. Tal qual seu ilustre proprietário, a construção é resistente: sobreviveu até ao terremoto de 1755, que destruiu quase inteiramente a capital, Lisboa.

Na segunda década do século 21, viúvo e a se recuperar de um câncer, com quase 100 anos, decidiu empreender novamente. Dessa vez, preencheu o terreno com videiras e, em homenagem à mulher, plantou a seu redor 5 mil rosas, emoldurando o já incrível cenário aos pés do Atlântico. A vinha é a mais ocidental da Europa, localizada em um declive de onde se vê o oceano e o verde de Sintra.

O elo enólogo

Nicholas frequenta a quinta desde os 20 anos, e chegou a morar alguns meses com o avô. Apesar dos laços familiares com o local, confessa que, naquela época, ficar praticamente isolado em meio às montanhas não era seu programa preferido.

“Associava Portugal ao fado, a um estado de espírito melancólico. Sem contar o clima da serra, sempre enevoado”, recorda. “Mas meu avô era mesmo um visionário, e dizia que, um dia, Portugal seria o melhor país da Europa para se viver.”

E estava certo. Apesar de achar um pouco de loucura do barão começar um negócio sobre o qual não conhecia nada em idade tão avançada, seu lado “homem de negócios” teve de concordar que investir na propriedade era uma decisão que fazia sentido.

Nos dois últimos anos de vida do patriarca, as conversas sobre tomar as rédeas do negócio começaram a ficar mais sérias. Ele sabia que, se não fosse o neto a assumir a quinta, ninguém o faria. Dois dias depois de Nicholas enfim decidir que também iria assumir o risco de uma mudança tão radical, de vida e de profissão, o avô faleceu.

Sede da vinícola Casal de Santa Maria

A instalação com a mulher e os dois filhos adolescentes no novo lar foi quase imediata, e a adaptação ocorreu sem grandes dificuldades. Mais do que apenas dar continuidade à condução do legado familiar, o novo administrador do Casal Santa Maria fez questão de transmitir sua personalidade ao negócio.

Para isso, a experiência como gestor foi essencial. “No mundo financeiro, você pode mudar 1 milhão de coisas em alguns segundos e, neste mundo aqui, todas as mudanças levam anos.

Precisei aprender a ter paciência. No entanto, meu background me faz ter um olhar mais analítico do que emocional sobre as decisões a serem tomadas. Não encaro isso como o negócio de meu avô, e sim como um investimento.

Dessa forma, pondero quais as melhores decisões a serem tomadas e o que o mercado gostaria de encontrar, sempre combinando com o que eu gostaria de servir em minha casa. Afinal, não há nada pior do que vender um vinho do qual você não gosta.”

A tática certeira

Desde que abraçou sua nova missão, Nicholas remodelou e atualizou a quinta, que agora recebe almoços, jantares e pequenas recepções, além de oferecer tours para os clientes conhecerem a história do barão e degustarem vinhos ao final. O número de castas cultivadas foi reduzido para aprimorar a produção, e a apresentação das garrafas também foi repaginada.

Mas a grande prova de seu sucesso é o Mar de Rosas, seu sonho pessoal: um rosé suave, lançado há pouco mais de um ano, que já foi votado como um dos melhores do país.

As 2 mil garrafas colocadas no mercado em 2018 foram multiplicadas para 10 mil em 2019. Para este ano, os planos são produzir ainda mais a fim de atender à demanda, e quem sabe iniciar o processo de exportação dos rótulos. Mesmo com tantos projetos, ele celebra o abrandamento do ritmo de vida.

“Meu hobby agora é ficar com minha família. Se antes estava semanalmente em aviões, agora vou ao aeroporto somente duas ou três vezes por ano. E estou feliz.” Mais do que paciência, ele conquistou a serenidade de quem trabalha em contato com a natureza e aprendeu que cada coisa tem seu tempo.

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