/Por Daniel Salles

Começa assim: para ficar milionário com uma vinícola, você só precisa ser bilionário. A piada brinca com os vultosos investimentos dos quais nenhum produtor de vinho pode escapar.

Em uma degustação promovida há poucos meses pela Bodega Garzón na Trattoria Fasano, em São Paulo, alguém resgatou a piada. Para quem não sabe, a vinícola uruguaia, montada a 75 quilômetros de Punta del Este a partir de 2007, pertence ao argentino Alejandro Bulgheroni, cuja fortuna, de 3 bilhões de dólares, vinda dos negócios da família no ramo do petróleo, faz dele o mais rico de seu país.

Cinematográfica, a Garzón dispõe de vinhedos que se espalham por 240 hectares, uma sede cercada por espelhos- d’água e tudo o que há de mais sofisticado e moderno para ajudar na produção – a exemplo dos 20 tanques ovais de cimento para fermentação, trazidos de navio da Itália por 50 mil euros cada um.

Só para tirar a vinícola do papel, Bulgheroni gastou mais de 250 milhões de dólares. Os que apostam que ele nunca mais vai ver a cor desse dinheiro não são poucos. O bilionário refuta: “Venho do ramo do petróleo e estou acostumado a retornos financeiros demorados”, disse-me no ano passado, durante a visita que fiz à vinícola. “Mas em dois ou três anos o caixa da Garzón já deve entrar no positivo.”

Pode apostar que a conta está certa. Do contrário o empresário não teria arrematado vinícolas em mais cinco países. A segunda de sua coleção é a Bodega Vistalba, em Mendoza, da qual virou sócio em 2009. O outro dono e fundador é Carlos Pulenta, um dos maiores viticultores argentinos.

Foi quem propôs a Bulgheroni contratar o renomado enólogo italiano Alberto Antonini para aferir a viabilidade da empreitada uruguaia. Na Toscana, o magnata do petróleo adquiriu as vinícolas Dievole, Poggio Landi, Certosa di Pontignano, Tenuta Meraviglia, Tenuta Le Colonne e Podere Brizio. Em Bordeaux, o Château Suau e o Château de Langaleri.

Ele também produz vinhos em Napa Valley, na Califórnia (EUA), com uma marca batizada com seu nome, na Austrália e em outras localidades na Argentina. O gasto estimado para formar a coleção é de mais de 1 bilhão de dólares.

Diversão para poucos

Dá para concluir que acumular vinícolas é um luxo só para bilionários. A começar pelo quarto maior deles, o francês Bernard Arnault – no ranking da Forbes, ele só perde para Jeff Bezos, Bill Gates e Warren Buffett, cada um com mais que seus quase 100 bilhões de dólares.

Acionista majoritário do conglomerado de luxo LVMH, do qual é presidente, Arnault controla as marcas de champanhe Veuve Clicquot, Krug e Dom Pérignon. Tem ainda a vinícola argentina Terrazas de los Andes, a espanhola Bodega Numanthia e a neozelandesa Cloudy Bay, entre outras, como o Château D’Yquem – para não falar de destilados como o single malt Glenmorangie e a vodca Belvedere, além das diversas marcas de moda, de Dior a Louis Vuitton.

Com uma fortuna “mais modesta”, de 37 bilhões de dólares, o francês François Pinault, tido como rival de Arnaut no mercado de luxo, detém cinco vinícolas estelares. Uma delas, o Château Latour, dispensa apresentações. Domaine d’Eugénie, encravada na região da Borgonha, Clos de Tart, no mesmo local, Château-Grillet, no Vale do Rhône, Château Siaurac, em Bordeaux, e Eisele, em Napa Valley, completam a coleção.

Todas são administradas pela Artemis, a holding da família que ainda controla outros negócios, como a casa de leilões Christie’s, a companhia de cruzeiros de luxo Ponant e o grupo Kering. Esse último, presidido pelo filho do bilionário, François-Henri Pinault, casado com a atriz Salma Hayek, administra as grifes Gucci, Bottega Veneta e Saint Laurent, entre outras.

Tradição de ascendentes

A família Rothschild, de banqueiros, fincou raízes no mundo dos vinhos em 1853. Naquele ano, Nathan Mayer Rothschild (1777-1836), um dos filhos do patriarca, Mayer Amschel Rothschild (1744-1812), adquiriu o Château Mouton, conhecido hoje como Mouton Rothschild.

Quinze anos depois, o irmão mais novo dele, James de Rothschild (1792-1868), comprou outra vinícola de Bordeaux, o Château Lafite, hoje Lafite Rothschild. E nem pôde aproveitar a aquisição: morreu três meses depois de fechar o negócio.

Herdado por Alphonse, Gustave e Edmond, três dos cinco filhos de James, Lafite precisa dividir as atenções com mais sete vinícolas adquiridas pelo trio: Domaine d’Aussières, Château Duhart-Milon, Château Rieussec e Château L’Evangile ficam na França; Viña Los Vascos, no Chile; Bodega Caro, na Argentina; e Domaine de Long Dai, na China.

O prazer de colecionar propriedades do tipo é inimaginável. A dor de cabeça para tornar todas elas lucrativas qualquer um imagina.

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