/Por Kamille Viola

Com a pandemia de covid-19, uma notícia logo se espalhou entre os apreciadores do vinho: o vírus não seria capaz de sobreviver dentro da bebida, e, além de tudo, o consumo moderado de vinho poderia ser um aliado para uma melhor higiene da cavidade bucal e da faringe, locais onde há grande concentração do vírus. As afirmações foram da Federação Espanhola de Enologia.

A entidade também divulgou que, após se reunir com especialistas, pôde afirmar que “a sobrevivência do coronavírus no vinho parece impossível, pois a combinação concomitante da presença de álcool, um ambiente hipotônico [o que, em química, significa que se trata de um líquido em que a concentração do soluto é menor do que a concentração do solvente] e a presença de polifenóis [substâncias naturais antioxidantes que são encontradas em abundância nos taninos do vinho] impedem a vida e a multiplicação do próprio vírus”.

A bióloga Carla Gama, do Hospital Municipal Francisco da Silva Telles, no Rio de Janeiro, analisa que essa última afirmação é verdadeira. “Acho mesmo impossível o vírus sobreviver no vinho”, observa. “Em geral, vírus têm tempo de vida curto fora de uma célula [viva]. O coronavírus sobrevive em superfícies. Com a higienização correta da garrafa e dos copos, ninguém vai se contaminar com covid-19 bebendo vinho”, diz.

O lado fake

De fato, uma higienização bucal correta é importante para prevenir o agravamento da doença. O problema é atribuir ao vinho todo esse poder – não está completamente errado, mas foi mal interpretado pela Federação Espanhola de Enologia.

Fazer a limpeza correta da língua e de toda a arcada dentária, com cuidado especial para os dentes molares (que estão mais próximos à faringe), ajuda a combater uma pneumonia causada por aspiração, de acordo com pesquisa publicada no Jornal da USP (Universidade de São Paulo). No entanto, não há evidência de que o consumo de vinho possa contribuir para isso.

O que a ciência sabe

Um estudo de 2017, conduzido por pesquisadores da Washington University School of Medicine (EUA) e divulgado na revista especializada Science, constatou que uma substância produzida a partir da digestão dos flavonoides (compostos bioativos presentes em hortaliças, frutas, cereais, chás, café, cacau e vinho) é capaz de ajudar no combate à gripe e amenizar os sintomas. Um indício de que esses alimentos contribuem para o fortalecimento do sistema imunológico.

Para a bióloga Carla Gama, a questão é saber se a concentração de flavonoides contida na quantidade segura recomendada de vinho a ser consumida (uma taça por dia) é suficiente para isso. “De fato, eles dão um ‘up’ na imunidade. Mas a concentração no vinho não é padronizada.”

Para ter uma blindagem no sistema imunológico, seria necessário beber muito vinho, o que excederia a quantidade de álcool ingerida – o que não prejudica a saúde. No entanto, a especialista acredita que o consumo moderado da bebida durante a quarentena tem benefícios, sim.

“Só o ritual de degustar o vinho pode melhorar o estado de espírito de alguém. Estamos vivendo um momento de muita pressão. Então, se cultivar hábitos saudáveis e seguir uma boa alimentação, beber uma taça de vinho pode ajudar a relaxar”, acredita a bióloga. Aquela taça no fim do dia pode, certamente, ser consumida sem culpa. Tintim!

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!