/Por Marjorie Zoppei

O prazer de Manoel Beato em servir foi descoberto durante alguns trabalhos como garçom enquanto cursava a faculdade de letras na Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), na cidade de Assis.

Dois anos mais tarde, em 1986, ele desembarcou na capital paulista, mas logo recebeu o conselho de ir para a Europa aprofundar seus conhecimentos. Trabalhou por quatro meses em Portugal e depois na França, numa colheita de uvas na Borgonha e em um restaurante de cozinha italiana em Grenoble, por quase um ano.

Chegou ao Fasano, na capital paulistana, em 1992, onde trabalha até hoje e é sommelier executivo do grupo. O grande repertório tem explicação. Quando questionado se bebe vinho todos os dias, Beato é categórico. “Sim”, responde.

E mais: experimenta algo em torno de 20 mil amostras de vinho por ano! Viagens, cursos, palestras e participações em feiras internacionais são constantes. Tanto conhecimento resultou em um best seller: seu livro Guia de Vinhos Larousse (Ed. Larousse do Brasil, 2006) vendeu mais de 80 mil exemplares. Um profissional que ajudou a popularizar não só o ofício, mas também a bebida – que ele acredita ser para todos.

Em que momento os sommeliers se tornaram pessoas públicas, reconhecidas como celebridades?

Não creio que ainda atingimos esse patamar, assim como aconteceu com os chefs de cozinha, por exemplo. A maior parte de meus colegas, grandes sommeliers no Brasil, além de trabalhar nos respectivos restaurantes, precisa dedicar-se a projetos paralelos para complementar suas receitas. Claro que hoje o sommelier é um pouco mais respeitado.

E o que um sommelier precisa ser para chegar ao patamar mais alto?

Basicamente, muito estudo e pesquisas, que compreendem: viagens, cursos, estudos autodidáticos e, claro, a experiência no serviço de sala – que é a principal finalidade do trabalho.

Aliás, como foi seu primeiro encontro com o vinho?

Em minha saudosa Vera Cruz [cidade natal, no interior do estado de São Paulo], provando alguns velhos vinhos chilenos e portugueses, no começo dos anos 1980.

Ao longo de sua carreira, então, faz ideia de quantos vinhos já degustou?

Cerca de 400 mil vinhos, creio.

Ainda consegue ser surpreendido com novidades?

Sem dúvida, sobretudo com tudo de novo que surge no mercado, como nunca houve. Além de algumas regiões mais inusitadas que ainda gostaria de provar.

O Brasil está incluído nessa lista de surpresas?

Sim. O Brasil está só no começo de um futuro bastante promissor. Sua carreira longeva coincide com o início da profissão de sommelier no Brasil.

Como foi desbravar esse território naquela época?

Muito difícil, por conta do descrédito da profissão. Pouco material didático disponível, um corpo crítico bastante amador (com algumas exceções), além da importação limitada.

O aumento da popularidade da bebida atualmente mudou seu trabalho?

Há muitos vinhos diferentes chegando ao mercado, e devemos nos atualizar. Hoje, o profissional deve participar muito mais de eventos, ministrar mais cursos e interagir com colegas do mundo do vinho.

Há 28 anos como sommelier do Fasano, como foi a evolução do padrão de consumo para o público da alta gastronomia?

É fácil perceber que houve uma evolução qualitativa, já que muitos dos consumidores se aprofundam nesse universo, mas também quantitativa, no sentido que diversos apreciadores de destilados, como os consumidores de uísque, passaram ao vinho. Aliás, o Fasano foi uma escola não somente para mim, mas para os clientes consumidores.

No mundo do vinho, cliente também sempre tem razão?

Claro que não, assim como no serviço. Creio que essa frase tenha vindo dos velhos tempos. Os restaurantes têm suas propostas buscando a satisfação dos clientes, porém os clientes devem estar abertos para as experiências oferecidas. Ainda que devamos respeitar o gosto de cada um.

Dizem que vinho, assim como a música, é para ser compartilhado. Como você enxerga o mercado da bebida em tempo de isolamento social?

Creio que haja dois tipos de consumidores, e um deles é o que só bebe em restaurantes ou compartilhando. Para esses, essa época tem sido difícil, mas muitos estão aprendendo a desfrutar sozinhos. Isso tem seu lado bom, por valorizar a bebida em si, concentrando se nela. Alguns ainda estão compartilhando suas experiências on-line.

Qual é a proposta da Vino Beato, sua plataforma de serviços?

Nossa empresa (tenho como sócia minha esposa, Juliana Carani, também sommelière), VinoBeato et BaCarani, tem por objetivo difundir a cultura do vinho, através de cursos, consultorias de maneira geral (eventos, adegas), bar de vinhos em festas/eventos, futuros projetos de comunicação on-line e em rádio, palestras, tudo o que abrange o mundo das bebidas.

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!