/Por Daniel Salles

Concluído o check-in no Kurotel, um spa de emagrecimento em Gramado (RS) no qual me enfurnei em fevereiro, foi com um misto de surpresa e esperança que me deparei com um espumante a minha espera no quarto. Depositado em uma cuba com gelo ao lado de uma taça flûte, pareceu o prenúncio de uma temporada de dieta menos rígida do que a prevista.

Afinal, intercalar a rotina de reeducação (ou restrição) alimentar com uma taça ou outra de vinho era uma suposição perfeitamente plausível quando se está em meio à Serra Gaúcha, terra que abriga as maiores vinícolas do país.

Para voltar à realidade bastou cravar os olhos no rótulo dourado, que dizia em letras garrafais: não alcoólico. Esfreguei os olhos para garantir que estava lendo corretamente. Kur, o falso espumante, é produzido sob encomenda pela fabricante de bebidas Fante, a mesma do brut Cordelier, esse com 12% de teor etílico.

À base de uva e maçã, o que ganhei é engarrafado como se fosse um champanhe – o espocar da rolha de plástico, por sinal, não deve nada ao das peças de cortiça. Equilibrado, também é vendido fora do spa.

O público-alvo é uma parcela de entusiastas de vinho que parece estar crescendo: aqueles que apreciam a bebida, mas não querem ficar alcoolizados. Parte dos jogadores de futebol na Inglaterra, por exemplo.

Pensando neles, a associação que controla o esporte no país não deixa mais uma caixa de champanhe no vestiário da equipe vencedora da Copa da Inglaterra, como sempre fez. Desde o ano passado, opta por espumantes não etílicos.

A razão alardeada é não constranger os atletas de religiões que proíbem o álcool, como o islamismo, e descaminhar aqueles que ainda não têm idade para beber. Mas não deixa de ser um termômetro do apelo dos vinhos que podem ser consumidos por quem vai dirigir em seguida.

Não é suco de uva

A bebida é feita da fruta não fermentada, produzida como os vinhos tradicionais mas com uma etapa extra – a extração etílica. Estão em outro patamar daqueles classificados como “pouco alcoólicos”, que têm até 11% de graduação e também têm angariado uma clientela cada vez maior.

Um vestígio mínimo de álcool sempre sobra. O espumante do tipo da Freixenet, lançado em 2011, tem 0,05% de teor alcoólico – a vinícola espanhola também criou um espumante rosé similar.

No ano passado, foi a vez de a italiana Martini lançar um prosecco do tipo, o Dolce, e de a australiana McGuigan apresentar a linha Zero, formada por um shiraz, um chardonnay, um sauvignon blanc, um rosé e um espumante, todos sem uma gota de álcool. As vinícolas que mais parecem lucrar com a tendência são a alemã Reh Kendermann, dona da marca Black Tower, e a espanhola Félix Solís.

Para o público certo

O crescimento dos rótulos do tipo se explica pelo suposto desinteresse global pelo álcool em longo prazo. Uma pesquisa do departamento nacional de estatísticas do Reino Unido constatou que o não consumo da substância entre pessoas de 16 a 24 anos cresceu 40%. O mesmo órgão atesta que, em 2018, a proporção de ingleses que bebem baixou para 57%, contra 64% em 2005.

E outra pesquisa concluiu que um quarto dos conterrâneos da rainha Elizabeth estão interessados em diminuir a ingestão alcoólica. A perspectiva de um futuro no qual a maioria não vai abrir mão de ficar sóbrio tem levado diversas companhias de bebidas a quebrar a cabeça.

Dona de marcas líderes como Johnnie Walker, Tanqueray e Guinness, a Diageo despejou uma quantia não declarada por meio da Distill Ventures, sua aceleradora de startups etílicas, no Seedlip.

À base de ervas e especiarias como cardamomo, alecrim e tomilho, a bebida é produzida de maneira artesanal na Inglaterra desde 2015. É indicada para o preparo de coquetéis sem álcool, os mocktails.

Em busca de empreendedores de outras bebidas não alcoólicas, a incubadora oferece 10 mil libras de incentivo. Caso um deles caia nas graças da aceleradora, o investimento oscila entre 175 mil e 10 milhões
de libras.

A Diageo também desenvolveu uma Guinness sem álcool para a Indonésia, outra para o continente africano e o Orijin, uma bebida agridoce com ervas e frutas vendida na Nigéria.

Assim como os vinhos sem álcool, são produtos que se propõem a resolver um velho dilema: o que beber quando não se está bebendo? Para muita gente, contentar-se com um refrigerante ou um copo de suco é pior do que um tinto bouchonée.

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