/Por Tânia Nogueira

Cerca de um terço dos vinhedos alemães é formado por variedades tintas. Ainda assim, fora da Alemanha, poucos ouviram falar dos tintos ali produzidos. “Eles têm tintos excelentes”, diz Michael Schütte, sócio-administrador da Vind’Ame, importadora com um extenso portfólio de alemães.

“Principalmente o pinot noir, que muitas vezes tem a qualidade da Borgonha. A Alemanha é o terceiro produtor mundial de pinot noir, ficando atrás apenas da França e dos Estados Unidos. Só que eles exportam pouco, porque os alemães consomem quase tudo.”

A spätburgunder, como a pinot noir é chamada por lá, é considerada uma casta local. Acredita-se que seja cultivada no território germânico desde o século 4, apesar de a primeira menção escrita ser do século 1. Os vinhos feitos a partir dela, no entanto, mudaram nos últimos anos.

“Tradicionalmente, o spätburgunder era um vinho muito delicado, com pouca cor e pouca estrutura”, diz Schütte. Um vinho ligeiro, segundo ele, sem muito peso, ainda mais leve e claro que os pinots borgonheses. “Por uma questão de mercado, muitos produtores hoje fazem spätburgunders mais estruturados, parecidos com os tintos da Borgonha.”

Marcação de território

A latitude das regiões produtoras da Alemanha não é muito diferente da latitude da Borgonha. Junto com Champagne, ambas foram por muitos anos as regiões produtoras mais ao norte do planeta. Hoje, com tecnologia e uma ajudinha do aquecimento global, já se cultivam uvas até na Noruega, uns 10 graus de latitude acima.

Mas a Alemanha continua sendo considerada uma região fria. Daí sua enorme vocação para os brancos, cujas castas amadurecem mais rapidamente. O país hoje é famoso principalmente pela qualidade excepcional de seus rieslings. A pinot noir, no entanto, é uma tinta que se dá bem onde os brancos têm sucesso.

Ela gosta de frio. É uma casta de pele fina e maturação tardia. Precisa de um clima ameno para ter tempo de desenvolver todo o potencial. Entre as 13 regiões alemãs, Ahr, a mais ao norte, é a única considerada predominantemente um local de tintos. Dos 562 hectares plantados, 65,3% são de spätburgunder.

É uma região pequena, com encostas muito escarpadas, onde o trato dos vinhedos é bem custoso. Rende grandes pinots, mas, em geral, caros. Há bons spätburgunders por quase todas as regiões vinícolas alemãs: Baden, Wüttemberg, Pfalz, Nahe e até em Rheingau (Reno), a terra dos grandes rieslings.

Como se pronuncia?

Assim como com os brancos, os nomes que aparecem nos rótulos são uma barreira para os brasileiros e outros povos, como os americanos. Tanto que alguns produtores já escrevem pinot noir em vez de spätburgunder. “Há sete anos, no início da importadora, as pessoas precisavam provar todos os rótulos para pegar confiança na alta qualidade dos vinhos alemães”, conta Vivien Kelber, sócia da Weinkeller.

“Hoje, apesar da complexidade dos rótulos, é bastante comum os clientes buscarem cepas ou regiões específicas da Alemanha!” Os rótulos dos tintos costumam ser um pouco menos complexos que os dos brancos.

Isso porque os tintos são secos (trocken) e boa parte da classificação tradicional dos Qualitästwein ou QbA, vinhos de origem controlada, não se aplica a vinhos secos. Termos como kabinett , spätlese, auslese, beernauslese ou trockenbeernauslese referem-se ao grau de açúcar dos bagos e predicados (prädikats) como terem ou não terem botrytis.

Os mais complexos seguem a classificação da Verband Deutscher Prädikats- und Qualitätsweingüter e. V. (VDP), uma associação de 200 produtores de vinhos especiais, que criou regras semelhantes às da Borgonha, baseando-se na qualidade dos vinhedos.

Há outras tintas, como a portugieser, schwarzriesling, blauer lemberger, domina, além de variedades francesas como a cabernet sauvignon e a merlot. A mais popular depois da pinot noir é a dornfelder.

Muito consumida pela população local, é uma variedade nova, criada em laboratório em 1955 com a finalidade de acrescentar cor aos blends tintos. Produz vinhos de taninos muito sedosos e costuma se beneficiar da passagem por barricas de carvalho.

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