/Por Fernanda Meneguetti

O vestido dourado por vezes deixa entrever reflexos verdes e um bocado de nuances do amarelo-louro. Exala indiscretamente pelo decote a doçura de pêssegos e damascos. Nada que faça pensar em bala ou cosméticos adolescentes, mesmo quando o aroma de violetas insiste em se pronunciar.

Trata-se de uma senhora elegantíssima, que não faz esforço para esconder, mas está longe de evidenciar seus 80 anos. Irmã gêmea e albina de Côte-Rôtie, a AOC (Apelação de Origem Controlada) Condrieu está em festa, seja por completar exatamente oito décadas, seja pela bela colheita que se anuncia precoce, provavelmente a partir de meados de agosto e não de setembro neste atípico 2020.

Não se acanhe se o nome de seu tânico irmão, syrah, soar mais familiar: nunca é tarde para descobrir essa branca beleza, de origem grega. Acredita-se que a casta viognier foi trazida a Condrieu pelo imperador galo-romano Probus no século 12. Uma vez plantada nas encostas graníticas do Vale do Rhône e das aldeias vizinhas (como Saint-Michel e Vérin), essa uva sentiu-se totalmente em casa.

Séculos mais tarde, os vinhos produzidos com ela caíram nas graças dos papas de Avignon, cavando caminho para eles se consagrarem como um dos maiores brancos da França até o século 20.

Precioso líquido

A filoxera, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a industrialização devastaram as vinhas locais, a ponto de sua tradicionalíssima feira de vinhos ter sumido nos anos 1950 por falta de produtor. Como se não bastasse, em 1975 geadas cruéis pareciam anunciar uma derrocada irreversível: restaram apenas 7 hectares de viognier.

“A surpresa veio com a moda do vinho nos anos 1980 e uma retomada da exportação. Tanto que, hoje, o terroir se aproxima de 200 hectares de vinhas plantadas e de uma centena de viticultores”, conta Christophe Pichon, presidente do sindicato da apelação Condrieu e produtor de Condrieu, Côte-Rôtie e Saint-Joseph branco e tinto.

Porém, passada a modinha, o que fez com que Condrieu mantivesse sua grandiosidade? Talvez pelo fato de a apelação não disputar atenção com Chablis, Mersault nem Sancerre, além da confiança em sua drinkability, na paleta potente de aromas que não fatiga o olfato e na untuosidade que não enjoa o paladar. A bem dizer, o tempo passa diferente para essa viognier de origem controlada, quase como se ainda vivesse na Idade Média.

Afinal, até hoje ela habita terraços íngremes (os “chailletes”) com vista para o Rhône, é cultivada à mão e jamais viu um trator. Quando muito, é semeada com a ajuda de cavalos. “Para mim, Condrieu é artesanato, é jardinagem, é resiliência”, diz monsieur Pichon, que conta com os filhos e a esposa para manter seu domaine ativo.

Quilate da fama

Embora as parcelas de toda a vizinhança sejam diminutas, o preço das terras é elevado e a manutenção, laboriosa. “Se uma pessoa sozinha é capaz de cuidar de 15 hectares de vinhas para a produção de Crozes-Hermitage, por aqui, se ela for uma heroína, cuidará de dois”, explica Julie Bott, personagem raríssima nesse terroir, visto que é mulher e jovem.

“Comprar um terreno em Condrieu é impraticável devido à aura mítica de Côte-Rôtie, que elevou o preço da região inteira. No entanto, a sorte fez com que essa propriedade batesse a nossa porta.” Por nossa entenda a dela, uma nativa desse vale, e a de Graeme, viticultor neozelandês com quem ela mantém o único domaine de garagem de toda Condrieu.

Por ali são as grandes maisons, renomadas por seus Côte-Rôties, que arrematam qualquer pedaço de terra que surja no mercado. Grifes como E. Guigal, seguida por Paul Jaboulet e M. Chapoutier, por exemplo, estabelecem um cenário cujo espetáculo tem seu preço: em média, uma garrafa custa 35 euros e edições mais limitadas superam os 250 euros.

Menos undergroung do que os Bott, mas discretos diante dos vizinhos citados acima, os 4 hectares de viognier do Domaine Niero não asseguram nenhum glamour nem seriam suficientes para saldar as contas no fim do mês – a empresa familiar da década de 1980 sobrevive com a exportação de seus tanques de vinho e de seus Côte-Rôties.

Pouco óbvio, o fascínio desse branco recai sobre uma mineralidade que não é marítima, um exagero sedutor de aromas, harmonizações nobres como vieiras ou foie gras e uma insana devoção de seus produtores 365 dias ao ano.

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