/Por Cristina Bielecki

Aos 23 anos, Roberto Cipresso era um free climber. Apaixonado pela montanha, escalava, esquiava e pensava em viver de alpinismo. Até que perdeu um amigo num acidente e resolveu se afastar.

Entre 1986 e 1987, conheceu um produtor de vinho, e a experiência fatídica se transformou em uma direção de vida. “A montanha me ensinou muitas coisas: a observar, a conhecer e a respeitar a natureza. E isso foi a clave de leitura do meu trabalho com vinho”, diz.

Premiado como melhor enólogo italiano no Wine Oscar 2006 e homem do ano pela revista Men’s Health 2008, Cipresso chegou a conquistar 99 pontos de Robert Parker com o vinho argentino da Achaval Ferrer. Nesta entrevista exclusiva, ele conta mais sobre sua história.

Quando começou a trabalhar com vinho, como era a vitivinicultura da época?

A Itália saía de uma crise por causa do escândalo do metanol, quando muita gente morreu envenenada por beber vinho adulterado. Não havia uma grande cultura do vinho, e daí em diante houve um renascimento da vitivinicultura italiana. E eu estava no momento certo, no lugar certo, em Montalcino, quando o vinho tomou outra direção.

Você prefere considerar seu trabalho como o de winemaker, e não como o de enólogo. Por quê?

O trabalho do winemaker é mais amplo, pois tenho de imaginar o vinho que quero fazer e pensar em todo o processo – como trabalhar com a terra, onde plantar o vinhedo, o tipo de uva, até como quero comunicar ao mundo, englobando qual é a filosofia comercial e de relações públicas. Assim, o winemaker tem muitos temas para manejar com coerência e atenção, para todos estarem alinhados na mesma filosofia.

Você tem um projeto reconhecido internacionalmente na Argentina. Como chegou até lá?

Minha primeira viagem à Argentina foi em 1995, chamado por uma companhia de Córdoba para realizar um plano voltado para o turismo e a agricultura. Com um [veículo] 4×4, um binóculo e um mapa, subi a San Juan desde Mendoza explorando o deserto, o Valle de la Luna e muitos lugares incríveis. Tinha a meu lado dois companheiros, Santiago Achával e Manuel Ferrer.

Assim começou a história da bodega Achaval Ferrer?

Dois anos depois, iniciamos essa aventura, dando forma a um projeto
que começou com a Finca Diamante, em Tupungato (Valle do Uco), onde plantamos variedades como merlot, cabernet e malbec para fazer o vinho Quimera. Encontrei um vinhedo extraordinário em Altamira. De lá, três anos depois de minha primeira vindima em Achaval Ferrer, nasceu o vinho que Robert Parker classificou como o mais rico da América Latina, com 99 pontos.

Foi um grande desafio, uma grande aposta e um grande êxito. Mudou a ideia do vinho argentino?

A Achaval Ferrer convenceu o consumidor a reconhecer que a Argentina pode fazer vinho que emociona, mostrando o conceito de terroir.

Agora, você e Santiago Achával se uniram para criar a Matervini. Qual é a proposta dessa bodega?

Continuo explorando o conceito de emoção e de terroir no Novo Mundo, encontrando algo que tem a ver com o Velho Mundo – como sou um investigador, sempre penso que há algo melhor a descobrir. Fazemos vinhos com a malbec de diversos lugares e caráteres diferentes. A merlot se dá bem no Brasil, tanto que você produziu um vinho na Campanha Gaúcha e lançou em um jantar em Nova York preparado por chefs estrelados Michelin.

Como iniciou seu trabalho aqui?

O Bueno Anima Gran Reserva é um projeto com a vinícola Bueno Wines, de Galvão Bueno. Nós nos conhecemos na Itália e começamos um plano com vinhedos em Chianti, e depois em Montalcino. Então ele me convidou para cuidar da Bellavista Estate, em Candiota, onde encontrei um vinhedo bem organizado.

E como foi a criação do vinho?

Um dos elementos característicos da Campanha Gaúcha é a luz – e eu pensei em uma fórmula de como fazer com que a luz acelerasse o metabolismo da uva. A resposta foi extraordinária: intensidade, concentração, complexidade, cores e elementos aromáticos muito presentes. Decidimos fazer uma linha especial, e nasceu Anima – alma em italiano –, um nome inteligente.

A merlot é realmente a uva emblemática do Brasil?

Numa terra tão grande, uma uva emblemática é pouco. Creio que seria interessante para o Brasil, jovem no mundo do vinho, absorver tudo o que é de Portugal, que tem uma relação direta pela história. Eu exploraria a touriga nacional, a verdejo, a alvarinho, alguma variedade esquecida do norte do Douro, onde existem castas que ainda não têm nem nome. Fazer uma coleção de Novo Mundo com algo de Portugal, para somar à história do Brasil toda a história do Velho Mundo.

Além do Brasil, em quais países está trabalhando hoje?

No Peru – no vinhedo mais alto do mundo, perto de Cusco –, na Argentina, na Espanha, na Itália e nos Estados Unidos. Tenho um projeto tomando forma no oeste da Geórgia, ao lado dos Rios Tigre e Eufrates.

Quais vinhos renderam as melhores impressões em sua vida?

Os vinhos que mais me emocionam são aqueles que me levam a algum lugar. Hoje, são os vinhos mais antigos, com 20, 30 anos de garrafa. Lembro do Château Le Gay 1947, que provei em Paris com Robert Parker: o mais rico de minha vida. Tem o Château Lèoville Poyferrè 1900 e um Romanée-Conti de 1921, com histórias emocionantes.

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