/Por Luis Vida /Tradução Ana Elisa Camasmie

A uva branca viognier, do Rhône, ficou na moda nos últimos anos graças aos vinhos fortes e expressivos que tem resultado. Mas o exemplo mais radical talvez seja o rótulo A Pita Traste, uma travessura pessoal da enóloga espanhola Pilar Higuero, da bodega Lagar de Sabariz. “Aqui a uva é fresca, com aromas sutil, mas encorpada. Em outros lugares da Espanha, ela perde acidez e, no nariz, é tão perfumada que pode ficar pesada.”

Pilar fez uma visita à vinícola em Condrieu, de onde sua família partiu, arruinada pela filoxera. “Na França, chamam a viognier de ‘a princesa caprichosa’. Reenxertei umas mil mudas que nunca pensei que fossem se adaptar tão bem. Era romantismo, uma homenagem a meus antepassados. São minhas origens, porque eu também sou forasteira!”

No caminho inverso, do Atlântico ao Mediterrâneo, a vinícola espanhola Pago de Tharsys, de Valência, anuncia: “A Galícia é a albariño, assim como Requena [município na província de Valência] é a bobal, mas por que não romper o paradigma?”.

“Vicente García, cofundador da vinícola, começou sua trajetória como enólogo na Galícia no fim da década de 1960. Apaixonou-se pela cepa e quando, anos depois, empreendeu seu projeto mais pessoal, foi a primeira variedade que ele decidiu plantar, em um único hectare de solo calcário”, explica a diretora de comunicação, Rebeca García. A colheita é realizada à noite, para fugir do calor que faz em setembro em Valência, “e essa noite de colheita é sempre compartilhada com a família, os amigos e alguns convidados”.

Parentescos duvidosos

Dizia-se que a albariño era parente da riesling. Mesmo estudos genéticos revelando que essas uvas não se assemelham, parece haver um vínculo sensorial que as faz combinarem. As primeiras rieslings ibéricas nasceram nos anos 1970, próximo ao Mediterrâneo. O enólogo espanhol Rafael Poveda bebia em casa os brancos que o pai trazia de viagens pela Europa, e as cepas que plantou experimentalmente em Monovar, em 1979, serviram de tese para a carreira de enólogo em Dijon, na Borgonha.

Hoje, ele vende cerca de 75 mil garrafas de um branco que garante não ter nada a ver com os alemães, ainda que a bebida faça bastante sucesso entre os germânicos. Uma uva descendente da riesling também encontrou seu lugar na Catalunha.

A incrocio manzoni é um cruzamento italiano com pinot blanc que Carlos Esteva, proprietário da Can Rafols dels Caus, havia descoberto em Verona em meados dos anos 1980 e que ousou plantar nos branquíssimos solos rochosos de Garras, logo atrás de sua casa. Hoje, o El Rocallís é a perfeita expressão de uma uva cultivada em poucos hectares pelo mundo.

Tintas da fria Europa

Quando Friedrich Schatz, aos 18 anos, se estabeleceu em Ronda (na província espanhola de Málaga), já trazia os ramos de uma especialidade de sua terra natal, Baden Württemberg: a lemberger (ou blaufränkisch), “a uva do kaiser, a preferida dos reis”, uma das variedades mais importantes da Europa.

Satisfeito com a adaptação da uva às montanhas de Málaga, ele acredita que a origem dela poderia estar na Geórgia. “E, como de lá saíram os povos ibéricos, é possível imaginar que já a traziam com eles. Por isso, a lemberger é, para mim, a variedade mais autóctone da Espanha.”

Ele introduziu também outras uvas, como a pinot noir, uma variedade francesa, principalmente de Champagne e da Borgonha, que em princípio parece muito pouco adequada ao clima da Andaluzia. Os irmãos Diego e Hugo Ortega dão continuidade ao trabalho do pai nos 35 hectares do terreno, e consideram um grande desafio alcançar “toda a essência e elegância dessa uva francesa”, ícone da Borgonha. Os 1.000 metros de altitude são um fator importante pelo frescor que proporcionam ao vinhedo, “porque há diferenças térmicas em apenas alguns quilômetros em relação aos arredores da ribeira do Douro”.

Tintos das alturas

Da França veio também a malbec. A variedade é hoje mais conhecida pelos brilhantes tintos da Argentina do que os da cidade francesa de Cahors, sua região de origem, próximo à costa atlântica, de onde procedem as videiras que a enóloga espanhola Rosalía Molina cultiva a 1.100 metros de altitude, na Manchuela de Cuenca.

“A semelhança com a altitude de Mendoza foi o que mais levamos em conta na hora de plantá-las. Adaptaram-se perfeitamente, apesar de ser uma variedade bastante complexa, de maturação lenta e tardia. A altitude proporciona acidez natural e, portanto, frescor aos vinhos.” As terras altas e calcárias da Manchuela já foram o balão de ensaio ideal para transferir variedades exóticas dos vinhedos de granito do Dão e das ripas do Douro, como a touriga portuguesa. O frescor do Atlântico parece mesmo iluminar os sabores maduros de uma terra quente.

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