/Por Tânia Nogueira

Pouco conhecido no Brasil, o licor de tannat é uma tradição no Uruguai. Várias vinícolas produzem. As receitas são muitas, cada um tem a sua. Mas todos têm algo em comum: na verdade, não são licores, são vinhos fortificados. Na maior parte das vezes, inspirados no vinho do Porto.

A tradição agora começa a atravessar a fronteira e dar as caras na Campanha Gaúcha. Ao menos duas vinícolas já lançaram os seus tannats licorosos: Campos de Cima e Pueblo Pampeiro. “Desde criança, na época do meu avô, eu conhecia o vinho licoroso”, conta o enólogo uruguaio Javier González Michelena, da vinícola gaúcha Pueblo Pampeiro, neto, bisneto e tataraneto de produtores de vinho no Uruguai. 

González é do sul do Uruguai e chegou à fronteira, onde Santana do Livramento e Rivera formam uma só cidade, em 1997, para trabalhar na vinícola Carrau, do lado uruguaio. Alguns anos depois veio trabalhar no lado brasileiro, passou por várias vinícolas, até que se associou a Marcos Obrakat, que tinha uma propriedade na Vila Pampeiro, em Santana do Livramento, e montou a Pueblo Pampeiro.

Em 2014, fizeram sua primeira vinificação. Embora já produzam outros produtos, a vinícola por enquanto só vende o tannat licoroso. “Temos também elaborado tannat e cabernet sauvignon tranquilos (não fortificados)”, diz. “Mas ainda não quisemos lançar no mercado. Quisemos dar prioridade ao vinho licoroso porque é um produto diferente, estamos tratando de dar toda força e toda energia a esse vinho”. 

“Decidimos montar uma vinícola pequenininha baseada na experiência da minha infância na vinícola de meu avô”, conta. A ideia era usar técnicas semelhantes. “Mas, no lugar das  prensas de madeira, nós colocamos prensas de aço inoxidável. No lugar de lagares de cimento, colocamos de aço inoxidável, similares, baixinhos, pequenininhos. E começamos a fazer um vinho licoroso próprio, Nos inspiramos nos vinhos fortificados de Portugal.

Na verdade, o nosso fortificado não se parece ao licoroso de tannat do Uruguai. No Uruguai, por exemplo, é comum acrescentar açúcar queimado no vinho para dar um caráter e uma cor mais oxidados. O licor de tannat em geral passa por barricas de carvalho e nós não usamos barrica”. 

Segundo ele, não tem segredo, o mais importante são os cuidados com a uva no campo. A uva tem de vir sobremadura, mas não pode estar queimada pelo sol, nem machucada. Ao chegar à vinícola, é desengaçada e colocada em pequenos lagares de inox de 700 litros. Ali, fica fermentando e macerando. “Depois de uma semana  fermentando em contato com a casca, prensamos”, conta.

“Separamos os vinhos de prensa e o mosto flor. Os dois vão para tanques diferentes. Lá para a frente, vemos qual proporção de um e de outro vão formar o licoroso”. Depois que acaba a fermentação malolática, as borras são retiradas e, no tanque, colocam ripas de carvalho nos tanques. Então, acrescenta-se álcool de cereais,  que é neutro. “Não contamina o vinho com outros aromas  que não os da própria uva”.

Eles elevam o grau alcoólico natural, de 14%, 15% ou 16%, para 18%. “No final de tudo, se acrescenta o açúcar cristal para adicionar um pouco de dulçor e pronto! É bem diferente do vinho de Portugal, bem diferente do vinho do Uruguai. É um vinho próprio, um vinho da fronteira, com características muito próprias, um vinho portunhol.”

Esse vinho da fronteira por enquanto ainda não pode usar a IP Campanha Gaúcha, a mais nova Indicação de Procedência do vinho brasileiro. “Em 2010, quando se iniciou com o processo da IP, não se pensava que haveria alguém que fosse trabalhar com licoroso”, diz González. “Hoje somos três vinícolas que temos licoroso: Pueblo Pampeiro, Guatambu (de cabernet sauvignon) e Campos de Cima.  Nos próximos dois anos, o vinho licoroso será incluído dentro da IP. “

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