/Por Tânia Nogueira

Pergunte a qualquer consumidor médio de onde vêm os vinhos californianos e ele responderá Napa Valley. Se for um pouco mais informado, pode dizer Napa ou Sonoma. No entanto, essas regiões ocupam uma parte pequena dos vinhedos da Califórnia, nos Estados Unidos. O Napa Valley produz apenas 4% dos vinhos do estado, com 18 mil hectares de vinhedos.

Sonoma County também não é muito grande: 24 mil hectares. A Califórnia, no total, tem cerca de 242.500 hectares plantados com uvas viníferas, segundo o California Grape Acreage Report. Boa parte dessa plantação, no entanto, foi por muitos anos destinada a produzir vinhos baratos. Mas sempre houve exceções e, recentemente, têm surgido mais polos de excelência.

Os primeiros vinhedos, aliás, foram cultivados longe de Napa e Sonoma.
Em 1779, na missão San Diego de Alcalá (onde hoje está a cidade de San Diego), o padre espanhol Junipero Serra plantou a listan prieto, cepa conhecida nos Estados Unidos como mission e que dominou a viticultura comercial da região até os anos 1880, quando chegaram as primeiras uvas francesas.

Hoje o estado possui 139 AVAs (American Viticultural Areas, que
equivalem a DOCs), mais da metade das regiões demarcadas de todo o
país. Elas estão espalhadas pela costa e pelo interior e apresentam uma variação de clima e solo, produzindo vinhos bastante singulares e com certa diversidade de castas.

Geografia vinífera

As AVAs se agrupam em seis grandes regiões: North Coast, Central Coast, Sierra Foothills, Inland Valleys, Southern California e Far North California. Napa e Sonoma ficam na North Coast, logo acima de São Francisco, próximo ao Pacífico, ainda na Bay Area.

Na própria North Coast há outras AVAs que se destacam, como Mendocino County, área coberta por florestas, onde está a árvore mais alta do mundo: uma sequoia de 112 metros. Mendocino recebe pela manhã um nevoeiro frio vindo do oceano, que resfria as vinhas e garante elegância aos vinhos.

O clima frio é ideal para a pinot noir e a chardonnay, mas a região produz também um cabernet sauvignon prestigiado, um pouco mais leve do que os cabernets californianos típicos. Vale lembrar: boa parte dos produtores de Mendocino, que inclui 12 sub-AVAs, trabalha com agricultura orgânica e biodinâmica.

Ainda em North Coast, outra AVA que merece atenção é Lake County. Localizada na região do Clear Lake, o maior lago da Califórnia, e do Monte Konocti, um vulcão adormecido, produz uvas de altíssima qualidade,
mas a maioria delas ainda é vendida para Napa ou Sonoma. Cabernet sauvignon e sauvignon blanc são as estrelas.

Há poucas vinícolas na região. Por serem menos conhecidas, costumam ter bons preços. Ao sul de São Francisco começa a Central Coast, que se estende até Santa Bárbara e inclui 40 AVAs. Várias dessas regiões têm se destacado pela qualidade, e a mais conhecida é Paso Robles. Um pouco afastada do mar, a área é quente e produz vinhos potentes. Conhecida pela cabernet sauvignon e a zinfandel (o nome que os californianos usam para a italiana primitivo), Paso Robles tem feito também grandes vinhos no estilo do Rhône, tendo a syrah como estrela.

Pequenas grandezas

Em Monterey County, há fazendas com vinhedos de produção em larga escala, mas há também algumas sub-regiões especiais, como Santa Lucia Highlands, conhecida pela elegância do pinot noir. “A região se beneficia do vento frio que vem da Baía de Monterey”, diz o sommelier André Zangerolamo. “Na sequência, vem Arroyo Seco, que também cultiva uma ótima pinot noir.” Na fronteira com o estado de Nevada fica Sierra Foothills, onde também estão os famosos Parque Nacional de Yosemite e Lake Tahoe.

Ali há algumas vinhas antigas, da época dos imigrantes europeus que plantavam videiras para produzir o próprio vinho. Como permaneceu razoavelmente esquecida, tem uma boa variedade de castas: zinfandel, barbera, sangiovese, syrah, viognier etc. A AVA de Amador County é considerada a terra das vinhas velhas. A região de Inland Valleys, antes conhecida como Vale Central, por muitos anos se dedicou à produção de vinhos baratos e de baixa qualidade.

“Ainda há muitos produtoresque trabalham com volume por ali”, explica Zangerolamo. “Mas há vários pequenos produtores que trabalham muito bem. Por ali também existem vinhedos muito velhos de zinfandel. Um bom exemplo é a região de Lodi.” E há ainda os vinhedos do extremo sul e do extremo norte do estado, que por enquanto não se destacaram muito, mas que certamente irão. Antes a terra prometida do ouro, a Califórnia hoje é a realização do sonho dourado de qualquer produtor.

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